"AMPLIAR PRODUTIVIDADE É O MAIS IMPORTANTE"
Entrevista
com Ricardo Paes de Barros
Luiz Guilherme
Gerbelli
Medida é vital para
reduzir a pobreza e melhorar as condições de vida
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Ricardo Paes de Barros (SAE/PR) |
Ricardo Paes de Barros se tornou um dos maiores
especialistas em políticas públicas do Brasil. Atualmente, como subsecretário
da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE/PR),
ele diz que, mais importante do que
entender a redução na velocidade de queda da desigualdade, é descobrir os
mistérios que mantêm a produtividade brasileira estagnada por várias décadas.
"Para reduzir pobreza, fortalecer a classe média e continuar num processo
de ascensão e de melhoria das condições de vida, o mais importante não é
redução da desigualdade, mas o aumento da produtividade", afirma.
O cenário atual tem deixado o Brasil para trás, segundo Paes
de Barros. O crescimento da
produtividade brasileira tem sido inferior até aos registros de avanço da
africana. Sair dessa situação vai exigir uma série de medidas conjuntas,
como:
·
melhorar
a infraestrutura e o ambiente de
negócios,
·
acelerar
o progresso tecnológico,
·
investir
em capital e
·
reduzir a
rotatividade do mercado de trabalho.
A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao [jornal]
O Estado de S. Paulo.
Os últimos indicadores dão sinais de
que a queda da desigualdade perdeu força. Por que isso ocorreu?
Ricardo P. de Barros:
A (queda da) desigualdade certamente desacelerou. Eu não parei para estudar
esse período de redução na velocidade de queda, mas é bastante preocupante.
Para o início de janeiro, a gente está montando uma equipe e centrando a
atenção para entender porque isso está acontecendo.
De forma geral, qual é o caminho que
a economia brasileira precisa trilhar para se tornar mais igual?
Ricardo P. de Barros:
Existem dois desafios para o Brasil pela frente. A desigualdade, que parou
de cair, e a produtividade, que não cresce. Eu acho que a gente tinha de estar
mais preocupado com a produtividade. O desafio de a desigualdade continuar
caindo, talvez, não seja tão grande quanto o mistério de um país com uma
produtividade estagnada há décadas. Para reduzir a pobreza, fortalecer a classe
média e continuar num processo de ascensão e de melhoria das condições de vida,
o mais importante não é redução da desigualdade, mas o aumento da
produtividade.
Quais medidas podem ser adotadas
para aumentar a produtividade?
Ricardo P. de Barros:
Há mais especulação do que evidências sólidas sobre isso. Existem os
candidatos absolutamente naturais para isso. Primeiro, é melhorar a
infraestrutura. Segundo, avançar com o ambiente de negócios. A economia ganha
produtividade na medida em que várias novas oportunidades são aproveitadas. Se
existe um ambiente de negócios que impede que essas oportunidades sejam
aproveitadas, é natural que a produtividade fique meio estagnada. Terceiro, não
existe ganho de produtividade sistemático sem progresso tecnológico. E aí é
aquela coisa clássica do Brasil, que está muito preocupado com a inovação, mas
pouco com o copiar. Nós temos um espaço para aumentar a produtividade copiando
o que os lugares mais avançados fazem. De qualquer maneira, o Brasil avançou
muito cientificamente, sem avançar tecnologicamente. Estamos tendo uma
dificuldade em traduzir teoria em prática. Ou seja, a nossa universidade está
meio desconectada com a inovação e a “copiação”, vamos dizer assim. Em quarto
lugar, é investimento em capital. Se não tiver uma economia mais intensiva em
capital, não haverá ganho de produtividade. E aí é preciso ter poupança - parte
do milagre chinês é uma poupança lá em cima. Enquanto a gente não for um país
com mecanismos de promoção de poupança, vai ser difícil expandir o estoque de
capital na velocidade em que a economia brasileira precisa. Quinto, tem todas
as confusões do mercado de trabalho com a alta rotatividade.
Como a universidade brasileira se
tornou desconexa?
Ricardo P. de Barros:
O Brasil tem um sistema universitário sensacional, com grandes
universidades. Nas publicações científicas, o País ganhou várias posições. Só
que algumas universidades, em particular as públicas, têm uma certa dificuldade
em lidar com o setor privado. O próprio setor público cria universidade e não
entende que o papel fundamental dela é produzir inovação, além do progresso
científico.
Por quê?
Ricardo P. de Barros:
A gente não tem uma maneira muito clara para uma empresa usar um
laboratório que está numa universidade pública, assim como não há uma maneira
muito clara e eficiente para uma empresa poder usar um professor que está na
universidade para fazer uma pesquisa que vai melhorar a produtividade da companhia.
Já existem várias leis que estão totalmente conscientes dessa dificuldade e
buscam resolver isso, mas a gente não conseguiu desfazer o nó porque estamos
sempre tentando nos defender da empresa, eventualmente considerada abusada e
que vai usar os recursos da universidade pública para ter lucro. Se a empresa
quer financiar um laboratório numa universidade, por exemplo, as pessoas sempre
estão preocupadas sobre a segunda intenção da empresa. O Ministério da Ciência,
Tecnologia e Inovação já entendeu que ele tem de aproximar a universidade da
indústria, e a indústria da universidade.
A questão da rotatividade no mercado
de trabalho que tem sido muito debatida nos últimos anos. Como diminuí-la para
tornar a economia mais produtiva?
Ricardo P. de Barros:
Existem várias maneiras. Deixa eu falar sobre duas coisas que a gente podia
fazer rapidamente. O que precisa no Brasil é que a empresa invista no
trabalhador, e ele na empresa. Precisa estimular a relação de longo prazo. A
nossa proposta é que o governo dê o direito para o trabalhador, todo ano, de
fazer 40 horas de qualificação em qualquer momento do ano, quando ele quiser, no
que ele quiser - desde que o empregador dele diga que esse curso é útil para a
empresa.
Qual seria o impacto dessa medida?
Ricardo P. de Barros:
Na hora em que a empresa acha um trabalhador que ela considera legal com
essa proposta, há um incentivo para continuar com ele, desde que essa parceria
seja considerada boa (para os dois lados). Essa é uma maneira de alongar a
duração do emprego, o que reduz a rotatividade e aumenta o capital humano
específico desse trabalhador. E, na medida em que a produtividade desse
profissional subir, isso retroalimenta e aí é que ele não vai ser demitido
mesmo. Aquele profissional, que era um cara improdutivo, se tornou
superprodutivo. Esse é um canal.
E a outra maneira de reduzir a
rotatividade no mercado de trabalho?
Ricardo P. de Barros:
O outro canal é o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). O FGTS é
uma poupança obrigatória, só que o juro que se paga em cima dessa poupança
compulsória é muito abaixo do juro praticado no mercado. Então, obviamente,
você está dizendo para o trabalhador o seguinte: "enquanto você estiver
empregado no mesmo lugar, você está fazendo uma poupança obrigatória, que paga
uma taxa de juros ridícula".
E qual consequência dessa mensagem
para estimular a rotatividade?
Ricardo P. de Barros:
O trabalhador tem todo o incentivo, a partir de um certo ponto, de tentar
tirar o FGTS dessa aplicação maluca. Ele quer pegar esse dinheiro de volta para
colocar em outra aplicação. Além do que, se esse trabalhador for demitido, ele
ganha 40% em cima disso. Então, por que ele vai continuar no mesmo emprego, com
o FGTS sendo capitalizado a uma taxa meio ridícula e, além disso, sem o prêmio
em cima do FGTS que só ganha se trocar de emprego? Evidentemente que, diante
dessa situação, se o trabalhador está em dúvida de ficar numa empresa ou ir
para outra, pode induzir a demissão. É um incentivo para não permanecer na
mesma empresa. Esse mecanismo está protegendo o trabalhador, mas também está
induzindo à rotatividade.
A remuneração do FGTS deveria ser
alterada, então?
Ricardo P. de Barros:
É uma alteração simples. O FGTS é a coisa mais bem bolada da face da terra.
Todo país do mundo gostaria de ter algo parecido com o FGTS. É o melhor desenho
de proteção ao trabalhador. Agora, tinha de pagar uma taxa de juros de mercado.
O Brasil faz política habitacional, um monte de política em cima do FGTS, e
cria-se um problema para o mercado de trabalho. Se o FGTS fosse remunerado
muito bem, com uma boa taxa de juros, o trabalhador não iria ter razão nenhuma
para querer pegar aquele dinheiro, exceto se ele tivesse uma restrição
financeira. Nesse caso, seria preciso desenvolver um esquema de tornar o FGTS
um pouco mais líquido. Mas eu acho que o principal problema não é a falta de
liquidez, e sim a taxa de juros baixa.
Quais serão as consequências para a
economia se nada for feito para elevar a produtividade do Brasil?
Ricardo P. de Barros:
A consequência é simples: há 30 anos, a China tinha uma produtividade que
era um décimo da brasileira. Agora, está encostando no Brasil. A economia
brasileira ainda tem uma produtividade do trabalho ligeiramente maior do que a
chinesa. A questão toda é como vamos produzir aumentos salariais e ganhos
sociais com uma produtividade abaixo da chinesa. Depois que a gente for
ultrapassado pela China, vai ter um problema de competitividade mais grosseiro.
O Brasil está sendo ultrapassado por vários países. Só para ter uma ideia: o
crescimento da produtividade no Brasil é a metade do crescimento da
produtividade na África. Não estou comparando com país rico nem com América
Latina, e a África não é o continente mais conhecido por estar com um
crescimento de produtividade acelerado.
O País teria de atacar várias
frentes para melhorar a produtividade?
Ricardo P. de Barros:
Certamente. E o Brasil está adotando medidas. A gente tem um levantamento
de todas as políticas que o País tem feito para promover ganhos de
produtividade e, pelo o que eu saiba, são mais de 500 políticas voltadas para
elevar a produtividade. A gente tem o programa Brasil Maior, um monte de
estratégias, o Ministério da Ciência tem toda a estratégia de promoção da
inovação. Então, não é falta de política, é preciso analisar melhor por qual
motivo essas políticas não estão tendo o impacto que gostaríamos que elas
tivessem.
* Ricardo Paes de Barros é graduado em Engenharia pelo ITA
(Instituto Tecnológico da Aeronáutica – São José dos Campos, SP), começou a
trabalhar no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 1979.
Atualmente é subsecretário da Secretaria de Assuntos Estratégicos da
Presidência da República (SAE/PR).
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Economia – Domingo, 28 de dezembro de 2014 – Pg. B4 – Internet:
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