ECONOMIA BRASILEIRA - A REALIDADE PURA E SIMPLES!
Um balanço de fiascos, de devastação e de lorotas
ROLF KUNTZ
Saqueada, humilhada, processada no exterior sob acusação de
mentir aos investidores, desvalorizada nas bolsas e com problemas para anunciar
um balanço sem o aval de uma auditoria, a maior empresa brasileira, a PETROBRÁS, é hoje o símbolo mais expressivo de uma economia devastada por uma
combinação de incompetência, ilimitada fome de poder e desprezo pelas metas e
normas prosaicas da administração pública. Os danos podem variar de um para
outro setor, mas a devastação foi um processo único, determinado por um mesmo
estilo de política. Nas últimas semanas, enquanto avançavam as investigações da
Operação Lava Jato, o governo tentava mudar a Lei de Diretrizes Orçamentárias
(LDO) para se livrar da obrigação de apresentar o resultado fiscal prometido
para 2014. Incapaz de cumprir a lei,
tratou de alterá-la, para acomodar os efeitos da gastança, dos benefícios
tributários mal planejados e da estagnação econômica produzida pelos seus erros.
Os danos impostos ao País vão muito além dos bilhões
pilhados da Petrobrás. Depois de quatro anos no atoleiro, com crescimento médio
anual inferior a 2%, a economia
brasileira vai mal na geração de empregos, na produção industrial, no
investimento, nos preços, no comércio externo e nas contas públicas. A
presidente Dilma Rousseff e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, costumam
alardear a criação de postos de trabalho. O emprego no Brasil, segundo dizem,
foi preservado por políticas anticíclicas e a desocupação é muito menor que nas
economias avançadas. Deve haver quem acredite, mas essa é mais uma história
muito mal contada.
O desemprego é maior
no Brasil do que em muitos países mais afetados pela crise global. Os
desocupados em todo o País eram 6,8% da força de trabalho, no terceiro
trimestre, segundo levantamento mais amplo, a Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios Contínua (Pnad), realizada em cerca de 3.500 municípios. Os números
mais citados pelo governo, bem mais baixos, são pesquisados só nas seis maiores
áreas metropolitanas.
Pelo número da Pnad, o
desemprego no Brasil, no terceiro trimestre, foi maior que em 16 dos 34
países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)
- mas essa comparação só vale se ficar limitada àqueles com dados disponíveis
para o período. No caso de quatro associados só havia, até a publicação da
tabela, informações até o segundo trimestre. Dois desses países tinham taxas de
desemprego bem menores que a do Brasil - Suíça, 4,4%, e Reino Unido, 6,3%. A
situação dificilmente deve ter mudado de forma significativa nos meses
seguintes. Se isso for levado em conta, a lista cresce para 18.
Tinham desemprego
menor que o do Brasil, no trimestre passado, cinco das maiores potências
integrantes da OCDE - Estados Unidos (6,1%), Japão (3,6%), Alemanha (5%),
Coreia do Sul (3,5%) e México (5%). O Reino Unido provavelmente poderia entrar
na relação. Além disso, a média das taxas das sete maiores economias
capitalistas era 6,4%. Todos esses países têm inflação mais baixa que a
brasileira e quase todos devem fechar o ano com crescimento econômico maior que
o do Brasil.
A história do desemprego baixo é, portanto, apenas mais uma
lorota de um governo pouco habituado a reconhecer os fatos - pelo menos
publicamente. Mas a história fica pior quando se leva em conta a qualidade dos
postos de trabalho. A maior parte dos bons empregos é gerada pela indústria,
mas o setor tem demitido.
De janeiro a outubro o número de ocupados foi 3% menor que o
do mesmo período de 2013. Em 12 meses diminuiu 2,8%. Em 2011, primeiro ano do
atual governo, o pessoal assalariado na indústria aumentou 1%, mas diminuiu
1,4% em 2012 e 1,1% em 2013 e continuou encolhendo neste ano. A maior parte dos novos postos de trabalho
tem sido aberta em serviços, quase sempre em segmentos de baixa produtividade.
Isso combina com o fraco desempenho da economia e, de modo especial, com o enfraquecimento da indústria,
especialmente de transformação.
De janeiro a outubro deste ano a produção industrial foi 3%
menor que nos meses correspondentes de 2013. A da indústria de máquinas e
equipamentos, 8,8% inferior à de um ano antes. Também isso se encaixa no quadro
de estagnação econômica, mas o dado, nesse caso, é particularmente agourento.
Com baixo dispêndio em bens de capital, a economia tem escasso potencial de
expansão nos anos seguintes.
A insistência na conversa a respeito de política anticíclica
mostra apenas um erro de diagnóstico. Certos estímulos podem ter sido
necessários entre o final de 2008 e a maior parte de 2009, mas, passada a
recessão, seria preciso cuidar das bases para a expansão de longo prazo. Não
houve nada parecido com isso. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) foi
até agora principalmente um plano imobiliário. Segundo o último balanço, as
ações do PAC-2 concluídas até dezembro deverão corresponder a dispêndios de R$
796,4 bilhões. Financiamentos e obras habitacionais deverão somar R$ 449,7
bilhões, 56,46% do total. O setor de transportes, com apenas R$ 66,9 bilhões,
corresponderá a 8,4% do valor das ações terminadas.
Enquanto o governo insiste em vender fantasias ao público, a
equipe escalada para assumir a política econômica a partir de janeiro procura
meios de arranjar as contas públicas. Haverá
cortes de gastos e aumento de tributos e já se especula sobre um ajuste na
faixa de R$ 90 bilhões a R$ 100 bilhões. A arrumação terá de ser muito
dura, até porque o rombo fiscal é um dos
maiores do mundo. Nos 12 meses até outubro, o déficit nominal de todos os
níveis de governo chegou a 5,01% do PIB e ficou bem acima da média estimada
neste ano para a OCDE (3,9%) e para a maior parte dos seus associados. Passados
quatro anos, a presidente só tem para dividir com seu pessoal um saco de
fiascos, estragos e lorotas.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Espaço aberto – Domingo, 14 de dezembro de 2014 – Pg. A2 –
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