Pode-se acreditar na internet?
A verdade sai de um poço
Demi Getschko
No mar de informação infinita que há na internet parece
tarefa impossível separar o que é verdade do que é farsa. Não era assim no
começo, quando a rede era basicamente acadêmica: sem apelo comercial e tendo no
correio eletrônico sua principal forma de interação. Mas a Web, o acesso livre
e abrangente a todos, gerou esse fluxo enorme de informação das mais diversas
origens e qualidades.
Um pessimista diria que não há como retomar o rumo e
estaremos cada vez mais perdidos, sem saber como separar o joio do trigo. Eu,
otimista incorrigível, penso que, ao contrário, as impurezas tenderão a
sedimentar, deixando o que é verdadeiro à tona. Se a internet é espelho da sociedade e do comportamento humano,
recuso-me a assumir que uma grande parte de seus integrantes seja perversa ou
mal-intencionada.
Tenho um exemplo edificante: a Wikipédia, uma enciclopédia
colaborativa que começou em 2001 de forma muito modesta, especialmente se
compararmos com seus equivalentes em papel. Na biblioteca do colégio, por
exemplo, repousavam os 82 alentados volumes de uma enciclopédia em papel, a
Espasa-Calpe.
Hoje, a Wikipédia
é um gigantesco (e confiável) repositório de dados. Foi construída de forma aberta, colaborativa e sem remuneração.
Apesar dos riscos, ninguém pode acusá-la de ter-se deteriorado pela ação dos
mal-intencionados…
Assim, é possível que a verdade prevaleça. Claro que não
tenho a menor competência para discutir o que seja verdade, ou adicionar um
miligrama ao que pensadores edificaram durante séculos. [Papa] Bento XVI tem
uma frase ótima: “a verdade, realmente,
encontra força em si mesma e não na quantidade de consenso que obtém”. Ou
seja, não chegaremos a ela por estatística ou votação.
Mas não resisto a terminar sem uma historinha. Tivemos na
Escola Politécnica, entre muitos brilhantes mestres, Wagner Waneck Martins, um professor, já falecido, que era tudo,
menos convencional. Ele defendia, por exemplo, que, para simular adequadamente
um ser humano, um computador não deveria ter processador numérico, já que nós
humanos não temos.
Waneck e a verdade: um dos privilégios dos que tiveram aula
com ele é que estão entre os poucos que podem alegar conhecer a definição de
“verdade”. Sim! Esse conceito que assombra a todos desde sua origem, foi
desvendado para nós por ele, de forma cabal. “Verdade é uma mulher que sorri
para você, nua e bela no fundo de um poço. Você olha ansioso para ela, mas… ela
sacode o dedo e diz nãããão.”
Nós, simples politécnicos, ríamos de mais essa tirada de
humor. Trinta anos mais tarde, vi que mais do que uma brincadeira, havia sempre
profundidade e brilho no que o mestre Waneck dizia.
Ao perambular pela internet descobri que, atribuída a
Demócrito, ou a Heráclito, ou ambos, há referência à “verdade” como “jazendo no
fundo de um poço”. E um provérbio francês, reproduzido em quadros que mostram
uma mulher nua saindo de um poço, diz que “la vérité sort d’un puits” – a
verdade sai de um poço… Sairá também do oceano que é a internet!
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Economia/Link – Segunda-feira, 1 de dezembro de 2014 – Pg. B15 –
Internet: clique aqui.
Comentários
Postar um comentário