Educação segue sem liderança, projeto ou sonho
Alexandre Le
Voci Sayad*
A educação se tornou
assunto de terceira categoria. Por parte dos candidatos, do governo e da
população
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Alexandre Le Voci Sayad - jornalista e educador |
Baixada a poeira, é possível enxergar melhor o cenário da
nossa gigantesca ilha lusófona na América Latina. O maior legado dessas
eleições, ou a falta dele, passou desapercebido para quem fixou a atenção à
instabilidade da economia ou se apressou em tomar partido na canhestra
polarização social em que o Brasil se apresentou. A educação se tornou assunto
de terceira categoria – por parte dos candidatos, do governo e da população. Não houve ideias, projetos ou, pior, sequer
um sonho apresentado.
Cidadãos-eleitores são muito responsáveis. Não houve
cobrança, pergunta, sugestão, pressão ou barulho sobre o tema no período
eleitoral. Era como o futuro da educação estivesse restrito às discussões sobre
os royalties do pré-sal.
A pauta também se pulverizou nos últimos meses – sumiu do
mapa da imprensa. A palavra voltou só
recentemente às primeiras páginas porque o Pisa
[exame internacional que avalia o
desempenho dos estudantes de vários países] vem chegando com ênfase em Ciências e promete derrubar o Brasil
algumas posições no ranking internacional.
Antes das eleições tomarem conta da agenda social
brasileira, é preciso lembrar que vivemos uma escassez de lideranças na área há
pelos menos dois anos. Em debates e eventos, há sempre “start ups” loucas por uma fatia de um mercado promissor, jovens
interessados, mas desorientados sobre o tema e os velhos suspeitos de sempre
que acreditam que nada precisa mudar.
Parece que a pauta da educação não tem a ver como um modelo
de governo republicano e democrático – algo maior que os interesses
pessoais. Por exemplo, não há liderança que consiga, hoje:
- Trazer ao debate público um olhar sistêmico e
contextualizado da educação brasileira.
- Inovar na formação de professores e gestores, os maiores
gargalos para uma escola pública de qualidade.
- Criar um plano ousado, mas factível, de projeto
educacional para o Brasil nos próximos vinte anos.
- Engendrar ideias e correntes que resultem em políticas
públicas promissoras.
As duas últimas grandes ações surpreendentes que surgiram no
Brasil, bem antes do pleito, foram as iniciativas da educação integral para além dos limites da escola e o uso das aulas da Khan Academy traduzidas para o português em espaços de fracasso
escolar, como na Fundação Casa. Mas
essas são notícias de anteontem.
Preocupante é constatar que o ensino não parou do existir
esse tempo todo. Os estudantes do Brasil
continuam nas escolas, reféns de um trem desgovernado, esquecido no tempo.
Uma Maria-fumaça esquecida pelo tempo, chacoalhando em bitolas enferrujadas,
trilhos velhos, com peças que vão se perdendo no caminho. Assistimos calados a
esse espetáculo grotesco, torcendo sempre que ela chegue inteira ao destino, como
se isso não fosse nossa responsabilidade.
Respondendo à repetitiva pergunta, unanimidade em
congressos: o que os países que lideram rankings fizeram para melhorar suas
realidades educacionais? Não há só uma resposta. Mas há pontos em comum: desenvolveram metas, formaram lideranças,
criaram políticas públicas importantes e colocaram a pauta como central na
sociedade – como uma questão “de governo” e não “de partido”.
* ALEXANDRE LE VOCI SAYAD É JORNALISTA E EDUCADOR. É
FUNDADOR DO MEL (MEDIA EDUCATION LAB) E AUTOR DO LIVRO IDADE MÍDIA: A COMUNICAÇÃO REINVENTADA NA ESCOLA, PUBLICADO PELA
EDITORA ALEPH.
Fonte: ESTADÃO.COM.BR – Educação – Internet: clique aqui.
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