ÉTICA: ESSE É UM ASSUNTO CADA VEZ MAIS DEBATIDO NAS ESCOLAS
ÉTICA
NA ESCOLA E NA CARREIRA
Guilherme
Soares Dias
Debate sobre o tema
passa pela universidade – e os jovens estão cada vez mais interessados, assim
como as empresas
Eugênio Bucci - professor da USP |
O que é um
comportamento ético? A resposta muda dependendo da época, do contexto e do
interlocutor. Esse conceito, flexível e cultural, vem ganhando, no entanto,
cada vez mais importância no campo profissional - e as universidades estão
atentas.
Segundo o professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA)
da Universidade de São Paulo (USP) Eugênio
Bucci, disciplinas que tratam de ética têm ganhado mais espaço no meio
acadêmico. “Vejo que os jovens estão interessados e as empresas também
valorizam mais, por estarem preocupadas com seus códigos e com quem vai
executá-los”, afirma.
Para Bucci, as escolas são o melhor lugar para se aprender
sobre ética. “Estudar (o tema) não significa que (a pessoa) será mais ou
menos honesta, mas pode ajudá-la a compreender o valor das coisas. O estudo
aparelha e inspira quem está vocacionado para o viver bem”, diz o professor de
Jornalismo, que continua ensinando sobre filósofos, como Epicuro e Sócrates,
mas também promove mais discussões sobre casos reais. “É um novo jeito de
aprender. As pessoas assumem papéis diferentes.”
Professora de Ética do curso de Administração da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Elisabete Adami dos Santos tem a mesma percepção de Bucci sobre o
interesse dos alunos. “Vejo estudantes
buscarem informações sobre o tema com uma postura mais crítica. Esta nova
geração é muito mais preocupada com a ética, o que me deixa otimista.”
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Elisabete Adami Pereira dos Santos - professora da PUC/SP |
A filósofa Márcia
Tiburi, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ressalta que o tema
aparece em vários cursos, seja em disciplina específica ou transversalmente. A
professora acredita, porém, que em cursos mais técnicos o interesse é pequeno.
“Não é uma disciplina que fica evidente ou uma questão que está na moda. É
difícil chamar a atenção para isso em uma sociedade que demanda questões mais
técnicas dos formandos.” Ouça a entrevista
com a filósofa, clicando
Carlos Alberto Di
Franco, diretor do departamento de Comunicação do Instituto Internacional
de Ciências Sociais (IICS), acredita que uma boa bagagem cultural ajuda até nos
dilemas éticos mais recentes, como aqueles relacionados ao ambiente digital. “A leitura é o que dá conceito, contexto,
capacidade de reflexão e senso crítico”, afirma. O desafio da academia, de
acordo com ele, é dosar a discussão prática e teórica para não enfraquecer a
formação nem ficar afastada dos novos problemas do mercado.
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Carlos Alberto Di Franco |
No
mundo profissional
Situações que envolvem valores no trabalho têm colocado
empresas e empregados à prova. O caso recente de maior destaque é a Operação
Lava Jato, que aponta para um esquema de pagamento e recebimento de
propina para a conquista de contratos de serviços públicos, colocando sob
suspeita não apenas políticos, mas também empresas estatais e privadas e
funcionários de carreira.
Mas não é necessário ir tão longe ou citar apenas casos de
grande repercussão para expor os conflitos éticos no trabalho. O
comprometimento passa, segundo a psicóloga e especialista em carreira Bruna Tokunaga Dias, pelas pequenas
atitudes. Ela cita como exemplo o reembolso de despesas de uma viagem ou mesmo
os gastos com o cartão da empresa. “A
forma que (você) age no ambiente empresarial é a mesma do âmbito pessoal? A
prestação de contas de uma viagem é feita corretamente?”, questiona. Bruna
afirma que os valores da “vantagem” que o trabalhador quer eventualmente levar
podem variar de R$ 1 a R$ 1 milhão, mas têm a mesma medida: a falta de ética. “Não existe meio termo, mas sim o certo e o
errado.”
Mas há questões éticas que são específicas de cada profissão
e estão nas escolhas feitas diariamente. “Um jornalista, por exemplo, tem
razões para não publicar uma reportagem que pode expor a intimidade de uma
pessoa, mas pode veiculá-la porque existe interesse público naquilo. Nenhuma
das duas atitudes é crime, mas há uma escolha a ser feita”, afirma Bucci. O
professor indica livros (ver o final
desta matéria) para compreender melhor o conceito de ética.
Mudança
de rumo
Os conflitos na empresa podem pautar novos caminhos, como
aconteceu com a publicitária Sabrina
Rielli, de 35 anos, que atuava em uma agência de comunicação e decidiu
abrir o próprio negócio. “Era uma empresa pequena, em que os limites entre o
profissional e o pessoal não estavam bem demarcados. Os chefes falavam mal de
outros colegas na nossa frente, não sabiam conduzir orientações e acabavam
dando broncas na frente de todos.”
Além da difícil situação interna, Sabrina sofria com a falta
de profissionalismo da agência com os clientes. “Vendiam uma coisa que não era
possível entregar. Era eu que fazia a parte comercial e essa atitude conflitava
com os meus valores pessoais.” Depois de nove meses e da saída de quatro
colegas por causa de problemas semelhantes, ela seguiu o mesmo caminho.
“Convidei uma colega e abrimos a nossa agência. Hoje temos só um cliente, que é
o que conseguimos fazer bem. Não adianta
querer ganhar muito dinheiro sem fazer o trabalho bem feito.”
Sabrina afirma que as discussões sobre ética que teve na
universidade - ela cursou Publicidade no Mackenzie - ajudaram na tomada da
decisão sobre seu rumo profissional. “Na faculdade, os debates eram ligados à
profissão, mas a ética também era usada
para estimular a criatividade. Os professores pediam para a gente fazer uma
campanha defendendo algo com o qual não concordávamos”, conta.
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Roberto Romano - professor da Unicamp |
Relações
diversas
A ética no trabalho passa também pelas outras relações do
trabalhador. O professor de Ética e Política da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp), Roberto Romano,
ressalta que todo comportamento físico e mental retido tende a se repetir. “Se a pessoa aprendeu erroneamente a não
respeitar o espaço do outro, ela vai continuar fazendo o mesmo sem pensar, sem
refletir”, diz.
Segundo Romano, esse
aprendizado se dá ao longo da vida: na família, no bairro, na escola, no
trabalho. “Vão surgindo várias éticas. Na família há um comportamento que
entra em contato com outras éticas, e esse automatismo pode ser modificado pela
comparação moral”, acredita. Dessa forma, a postura no trabalho reflete as
informações que o sujeito carrega durante sua formação. “Quem aprende que é bom levar vantagem, por exemplo, repetirá isso na
sua atuação profissional também.”
Para Romano, códigos de ética criados pelas empresas são
formas autoritárias de tentar impor condutas aos funcionários. Nesses casos,
diz, psicólogos e/ou sociólogos são contratados para construir um sistema que
deve ser seguido por todos. “Mas isso não dá certo, é apenas intelectual. Para
funcionar bem, sem desvio de conduta, a empresa depende do conjunto de leis da
sociedade. O comitê de ética precisa se
dedicar a conhecer os costumes dos indivíduos que trabalham na empresa”,
acredita.
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Márcia Tiburi - professora do Mackenzie |
Para Márcia Tiburi,
os códigos internos são tentativas das empresas de fortalecer a ética no
ambiente de trabalho. “A moral é convenção e a ética, reflexão. Quando um
funcionário é contratado, implicitamente aceita as regras morais da empresa. O
que precisaria ser feito pelas companhias é a promoção de formação ética.”
Depoimento:
Consultora
de planejamento urbano que pediu para não ter seu nome revelado
“Sou autônoma e contratada por prefeituras para fazer
consultorias em projetos urbanos específicos. Meu conflito é que muitas vezes o
interesse pessoal passa por cima das questões técnicas e da demanda da
população. Em alguns estudos vemos que uma área deve ser só residencial dentro
de um plano diretor, mas as prefeituras insistem em transformá-la em comercial
ou industrial. Em outros casos, os prefeitos querem determinar com quais
empresas devemos trabalhar. Também vemos muitas audiências públicas
manipuladas. São casos comuns e não exceção, mas sempre me nego a assumir o
projeto. Acabo perdendo dinheiro, mas é o meu limite. Quero continuar
trabalhando na área, mas pretendo atuar mais com a população para ter de lidar
menos com esses conflitos.”
Minha
biblioteca sobre Ética
Eugênio Bucci,
jornalista e professor da USP
Ética,
Adauto
Novaes (organizador)Editora Companhia das Letras, selo “Companhia de Bolso”
Ano: 2007
Preço: R$ 36,00
Carta Sobre a Felicidade,
EpicuroEditora Scielo-Unesp
Ano: 2009
Disponível para ler em: Android, Desktop-OSX, Desktop-Windows, Ereader, IPad, IPhone
Preço: R$ 3,90
Aprendendo a Viver,
SênecaL&PM Editores
Ano: 2008
Preço: R$ 15,90
Fonte: O Estado de S.
Paulo – ESTADÃO.edu – Terça-feira, 9 de dezembro de 2014 – Pgs. 4-8 –
Internet: clique aqui.
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