BRASIL: RECORDISTA EM JUROS ALTOS!!!
Perversidade
CELSO MING
Está correto dizer que
os juros elevados no Brasil são apenas o sintoma e não o problema de fundo, que
é a inflação. E a inflação chegou a esse ponto por erros graves na condução da
política econômica
Então ficamos assim: juros básicos (Selic) a 11,75% ao ano,
seu nível desde quarta-feira, é uma perversidade, em qualquer ângulo que sejam
analisados. Entre os países com alguma densidade econômica, apenas a falida
Venezuela tem juros mais altos do que o Brasil, de 15,47% ao ano. Até mesmo
Rússia e Paquistão ficam abaixo. Na prática, temos taxas reais (descontada a
inflação) de 5% ao ano, que ainda subirão mais, como apontou o comunicado
oficial divulgado logo após a reunião do Copom [órgão do Banco Central].
Quando estão dispostas a encontrar culpados para as
distorções da economia, nossas autoridades se alternam para dizer que os
problemas estão concentrados na crise internacional. Mas não usam o mesmo
critério quando a referência são os juros. E não teria mesmo cabimento, porque
os países centrais trabalham hoje com juros muito próximos de zero e, em alguns
deles, são até mesmo negativos.
Está correto dizer que os juros elevados no Brasil são
apenas o sintoma e não o problema de fundo, que é a inflação, que, por sua vez,
é a infecção que é sintoma de uma doença mais séria. E a inflação chegou a esse
ponto por erros graves na condução da política econômica.
O governo Dilma descuidou da administração das contas
públicas. Apenas este ano, deixou que as despesas avançassem a 12,6% ao ano,
enquanto as receitas ficaram nos 7,0%. O aumento da demanda provocou a
disparada da inflação, que foi contida com mais juros. Ou seja, a política
fiscal só atrapalhou.
E os juros básicos tiveram de ficar acima do normal, também
porque tiveram de “compensar” os juros subsidiados e baixos demais concedidos
nos financiamento do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social].
Muita gente não entende por que as tais expectativas podem
ser, por si sós, fatores de inflação. Mas elas foram, pelo menos por dois
canais. Primeiramente, porque o governo represou preços, especialmente os da
gasolina, do óleo diesel, da energia elétrica e do câmbio, com o objetivo de
conter a inflação. Na medida em que exige correção, esse mesmo represamento
leva os remarcadores de preços a se anteciparem às correções do governo e a
definir reajustes a fim de defender estoques e capital de giro.
A segunda maneira pela qual as expectativas produziram
inflação foi a falta de sinceridade do Banco Central. Desde agosto de 2013, por
exemplo, tentou vender peixe podre quando afirmou que a política fiscal estava
correta e que não produziria inflação (apontava para a neutralidade). Agora nem
o tal superávit estrutural vai ser confirmado. O governo acaba de exigir do
Congresso uma lei em que fica perdoado e isento de punições por não cumprir as
metas fiscais.
Nos dois últimos anos, o governo maquiou as estatísticas
para esconder seus rombos. E, neste último, já não esconde que seu resultado
real será um déficit primário, sabe-se lá de que proporções.
A nova equipe econômica parece disposta a trabalhar com mais
sintonia. Mas ainda não apresentou um programa consistente o suficiente para
assegurar o crescimento econômico, que é a única garantia de aumento firme de
arrecadação e, portanto, de equilíbrio na administração das contas públicas.
C
O N F I R A :
No gráfico
[abaixo], a produção e as vendas de veículos nos últimos 12 meses.
Tombo
O momento
não é animador. A produção [de veículos] acumulada no ano até novembro aponta queda de 15,5%.
E as vendas, baixa de 8,4%. O setor vai se ajustando graças às férias
coletivas.
Sem
anabolizante
A partir de
janeiro, as montadoras não contarão mais com o anabolizante da redução de
impostos para empurrar as vendas. A nova equipe econômica precisa começar o ano
sem derrubar as receitas.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Economia – Sexta-feira, 5 de dezembro de 2014 – Pg. B2 – Internet:
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