O QUE SE PASSA EM ISRAEL HOJE? A TRAGÉDIA DA "TERRA SANTA"
Convívio por um fio
Entrevista
com Nurit Peled-Elhanan
(Educadora, professora da
Universidade Hebraica de Jerusalém)
Gabriela
Korman
Nova lei de Bibi
Netanyahu e o ataque à escola mista em Jerusalém sinalizam a
institucionalização do racismo em Israel, diz educadora
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Nurit Peled-Elhanan - educadora israelense |
A apresentação, dia 23 de novembro, de um projeto de lei que define Israel como “o
Estado-Nação do povo judeu”, sobrepondo o caráter judaico a princípios
democráticos, gerou críticas entre juristas, intelectuais e políticos no país.
Ao se oporem a sua formulação, Yair
Lapid, ministro das Finanças, e Tzipi
Livni, ministra da Justiça, foram demitidos pelo primeiro-ministro Binyamin
“Bibi” Netanyahu - o que causou a dissolução do Parlamento na quarta, dia 3.
Com isso, as eleições, que só deveriam ocorrer em dois anos, foram antecipadas
para março próximo.
A controvérsia acirrou ainda mais os ânimos na sociedade
israelense, que vive dias de violência. No dia 18, um ataque de dois palestinos
a uma sinagoga em Jerusalém deixou cinco mortos. Dia 29 foi a vez da escola mista Max Rayne Hand in Hand,
incendiada por extremistas judeus que picharam em suas paredes: “Não existe coexistência com um câncer”.
Preocupados com a escalada de intolerância, centenas de pessoas marcharam pela
cidade na sexta-feira, em apoio à escola atacada e pedindo a coexistência
pacífica entre árabes e judeus.
A professora de educação na Universidade Hebraica de
Jerusalém, Nurit Peled-Elhanan,
vislumbra um futuro sombrio. “Este país
está se transformando em um desastre, uma completa catástrofe.” A história
de vida da educadora judia ajuda a entender seu pessimismo. Nurit é filha de Mattityahu Peled, proeminente general
do Exército israelense que, após atuar na Guerra dos Seis Dias, tornou-se um
crítico da ocupação israelense. O irmão dela, o escritor Miko Peled, é autor do best seller O Filho do General (Just World Books, 2012), que segue os passos do
pai na crítica às políticas israelenses. E a morte, em 1997, de sua filha de 13
anos, Smadar, em um ataque suicida,
deu tintas trágicas às convicções da educadora. “Ataques terroristas como esse são consequência direta da opressão,
escravidão e humilhação imposta aos palestinos”, disse ela aos repórteres,
logo após o atentado.
Autora de Palestine in Israeli School Books: Ideology
and Propaganda in Education (I. B. Tauris, 2012) [tradução: Palestina nos livros escolares israelenses:
ideologia e propaganda na educação], análise linguística de mais de 20
livros didáticos israelenses de geografia e história publicados entre 1994 e
2010 para uso em escolas seculares e ultraortodoxas, Nurit demonstra que essas obras retratam os palestinos como “refugiados,
fazendeiros primitivos e terroristas” e não contribuem para uma cultura de
inclusão. Ganhadora do Prêmio
Sakharov para Liberdade de Pensamento, concedido pelo Parlamento Europeu a
pessoas ou grupos que dedicam a vida à defesa dos direitos humanos e liberdade
de pensamento, Nurit Peled-Elhanan diz que vida e obra são a mesma coisa: “Eu trabalho com educação e milito para que
mais nenhuma criança seja morta”.
Que consequências a aprovação do projeto
que define Israel como “Estado-Nação do povo judeu” traz para a democracia no
país?
Nurit: Em
primeiro lugar, não há democracia verdadeira em Israel. A lei não vai mudar a
situação atual, pois somente formaliza uma discriminação que já existe. Na
prática, os árabes já são cidadãos de segunda classe. E, apesar de o árabe ser
língua oficial, não há nada de árabe em Israel. Não há universidades, escolas
de qualidade, e boa parte da sinalização em ruas, hospitais ou no aeroporto não
está em árabe. Cidadãos árabes recebem muito menos dinheiro do Estado para
educação e saúde que judeus. O que a lei fará é institucionalizar essas
diferenças - o que só serve para deixar os árabes mais inconformados e com mais
vontade de sair do país. O objetivo de Netanyahu é dar um sinal vermelho para
os árabes e mostrar ao mundo que faz o que quer. A lei permitirá muito mais
racismo que o existente. Hoje, o Estado não permite que você seja racista,
apesar de existirem cerca de 25 leis consideradas racistas em Israel aprovadas
no Parlamento nos últimos três ou quatro anos - como as que não permitem aos
árabes adquirir um terreno ou viver com o cônjuge em Israel caso ele, cônjuge,
seja de território ocupado.
No parlamento, o centro,
representado por Tzipi Livni, do HaTnuá, e Yair Lapid, do Yesh Atid, ainda
defende a solução de dois Estados. Bibi está se afastando do centro?
Nurit: Não
existem partidos de centro ou políticos de centro. Tzipi Livni e Yair Lapid são
de direita, menos que outros políticos, mas não deixam de ser. O único motivo
para esses partidos e políticos falarem na solução de dois Estados é porque ela
é inviável hoje em dia. Mais de 60% da Cisjordânia está ocupada por
assentamentos judaicos, com meio milhão de colonos. Esses políticos são como
criminosos da máfia, fazem o que for melhor para o próprio bem e o bolso. A
maioria deveria estar presa, são criminosos de guerra, cometeram crimes contra
a humanidade. Netanyahu é um fascista que cada vez mais anda com fascistas. Ele
realmente se leva muito à sério, acredita que é a reencarnação de César. Não se
importa com ninguém, muito menos com os palestinos. A população de Israel está
empobrecendo, nunca houve tanta pobreza no país, e ele não se importa. Não é
que se importe apenas com judeus, ele não se importa com nada, a não ser com o
seu poder.
Discursos de partidos como o União
Nacional (Ichud HaLeumi) e o Força Judaica (Otzmat Ha Yehudit) lembram o de
agremiações europeias como a Frente Nacional francesa e a Força Itália. A
direita israelense está cada vez mais próxima da extrema direita?
Nurit: Com
certeza. E cada vez mais parecida com o fascismo. Após as próximas eleições, as
pessoas podem esperar um holocausto palestino. E com isso vem o holocausto
israelense, o fim desse país. Quando digo holocausto me refiro a uma grande
catástrofe, um lugar consumido por fogo. Isso já está acontecendo. Se os
palestinos caírem, Israel vai cair também.
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Professora árabe arruma quipá de aluno na escola mista "Max Rayne Hand in Hand" atacada por judeus extremistas |
O ataque à escola mista em Jerusalém
fez lembrar a advertência de seu livro sobre a cultura intolerante dos livros
didáticos israelenses. É possível relacionar atos de racismo como esse ao
modelo educacional do país?
Nurit: São
consequência da educação também, mas, mais do que isso, consequência do
incitamento político, que parte de gente do alto escalão, ministros,
primeiros-ministros, membros do Parlamento. Eles fomentam o ódio na população,
dando aval a esses criminosos para fazerem o que quiserem nas ruas. Muito da
falta de conhecimento sobre quem são os palestinos vem da educação tradicional.
Claro que há correntes diferentes, umas melhores, outras piores. Há também
escolas inclusivas, democráticas, mas são exceção. Daí a importância de atos
como o de sexta-feira, em apoio à escola. Apesar de o discurso acadêmico ser
livre em Israel, o assunto não costuma ser tratado nas universidades e escolas,
nem nas faculdades de educação.
Aparentemente, há uma diminuição nos
movimentos pacifistas e pró-dois Estados, a esquerda não chega ao poder desde
1977 e os trabalhistas deixaram de lado a questão palestina. Mesmo a “nova
esquerda”, dos protestos de 2009, tinha como mote melhorias para as classes
baixas israelenses. A solução para o conflito saiu da pauta do país?
Nurit: Os
protestos de 2009 não têm relação com nenhuma esquerda que já existiu neste
país. Eles pediam melhorias sociais e econômicas, diminuição do custo de vida,
melhores condições para estudar nas universidades, mas nunca tocaram na pauta
palestina. Quando perguntados “mas e os palestinos?”, respondiam: “Não têm nada
a ver com este protesto”. Não há nada de “nova esquerda” neles. Propunham
melhorias sociais para eles mesmos. A maioria nem sabe que há uma ocupação. Ao
mesmo tempo, há muitos movimentos no país que trabalham com a questão
palestina. O Tenda das Nações, que busca unir pessoas de diferentes culturas
para construir pontes de compreensão e reconciliação; o Combatentes pela Paz, que
organiza encontros entre ex-combatentes israelenses e ex-guerrilheiros
palestinos; o Quebrando o Silêncio, projeto no qual soldados israelenses
relatam sua experiência nos Territórios Ocupados; e o Coalizão de Mulheres,
grupo que trabalha para o fim da ocupação. Apesar disso, esses movimentos não
têm força política porque não conseguem apoio de nenhum grande partido. Por
todos esses motivos, a solução do conflito saiu completamente da pauta. É um
assunto que não existe na cabeça nem no dia a dia dos cidadãos comuns.
Na última ofensiva em Gaza morreram
cerca de 70 israelenses, a maioria militares, e 2 mil palestinos, quase todos
civis. O argumento do “mal necessário” para os bombardeios prevaleceu na
opinião pública?
Nurit: A sensação
de pânico e medo assombra os israelenses. Junte pânico, medo e ignorância e
você pode plantar o que quiser na cabeça das pessoas. A mente fica impermeável
ao sofrimento alheio. E a imprensa defendeu a importância de mandar filhos para
a guerra, para “lutar pelo país”.
Em meio à onda de violência em
Jerusalém, Netanyahu responsabilizou o presidente palestino, Mahmoud Abbas, e o
Hamas por ataques com machados, facas e atropelamentos. Israel retaliou
derrubando casas nos territórios ocupados. É um método eficaz?
Nurit: O objetivo
do governo é “desarabizar” Jerusalém. (Na cidade, há cerca de 250 mil árabes.
Somente na Cidade Velha são mais de 36 mil, e cerca de 4 mil judeus). Com o
implemento dos incentivos para a criação de bairros judaicos em Jerusalém Oriental,
a ideia é transformar toda essa área. Por isso, a raiva dos palestinos só
cresce. A demolição de casas, a diferença de investimentos urbanos e a
instalação de colonos nessa área árabe são métodos eficazes para o que o
governo pretende - já que ninguém, a não ser os palestinos, contesta isso. São
eficazes para calar os palestinos e fazer com que saiam de Jerusalém. E assim a
violência só se eleva a níveis insuportáveis. Este país está se transformando
em um desastre, uma completa catástrofe.
Diante desse quadro, o que pode ser
feito para colocar a região no caminho da paz?
Nurit: Primeiro,
os Estados Unidos da América precisam parar de enviar a Israel uma quantidade
absurda de dinheiro para a guerra. É cerca de US$ 1 milhão por dia, um dinheiro
destinado à violência. Os países europeus também precisam parar de lucrar com a
guerra. Acredito que o boicote a produtos e bens israelenses seja uma maneira
de impedir que a situação piore. E, acima de tudo, deter a ocupação. Israel
precisa parar de construir assentamentos na Cisjordânia, e tem que se retirar
de lá. Os palestinos não estão pedindo para os israelenses saírem de Israel,
eles estão pedindo para saírem da Cisjordânia, de Gaza. A partir daí, os
palestinos terão que decidir como vão conviver com os israelenses. Não posso
falar por eles. Depende de como vão se organizar. Aí então a vida por aqui pode
recomeçar.
Que tipo de educação pode contribuir
para esse recomeço?
Nurit: Uma
educação não segregada. Não somente entre judeus e árabes, mas entre os
próprios judeus. As escolas seculares têm um currículo e as religiosas, outro.
Deveríamos ter uma educação para todos, universal. Judeus não aprendem sobre a
história do Oriente Médio nos livros escolares. Aprendem sobre a Europa,
principalmente história da Europa Oriental, quando deveriam aprender sobre o
lugar em que vivem. Não há nenhum livro didático que trate da narrativa
palestina. As escolas não são autorizadas a ensinar sobre a Nakba
(a “catástrofe”, ocorrida na guerra de 1948, quando 700 mil palestinos fugiram
ou foram expulsos de seus vilarejos). Há uma eliminação simbólica da narrativa
palestina na educação e na cultura. Precisamos, em suma, de uma educação
igualitária. Poderiam seguir o exemplo da escola incendiada essa semana, que
tem uma visão inclusiva. Esse é o sonho.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 7 de dezembro de 2014 – Pg. E2 –
Internet: aqui.
O diálogo trágico
MICHEL GHERMAN*
Ultranacionalistas,
extremistas, direitistas e fundamentalistas ganharam a batalha pelo espaço
público, afirma historiador
Michel Gherman - historiador da UFRJ |
Jerusalém não é uma cidade fácil de se entender. Para além
de toda a dimensão religiosa e espiritual que a envolve, Jerusalém é um lugar
recheado de contradições, limites, fronteiras imaginárias e reais que acabam
por determinar o estilo de vida de seus habitantes e visitantes. Mais,
Jerusalém guarda dentro dela os sintomas e as dores de um país. Em nenhum outro
lugar pode-se sentir tão fortemente o conflito palestino-israelense como na
cidade santa. Nesse sentido, é impossível caminhar hoje pelos seus bairros sem
sentir algo de estranho no ar. Nos últimos meses a cidade respira um ambiente
diferente; o já conhecido conflito nacional assumiu cores e bandeiras distintas
das vistas em outras crises e confrontos. Na
Jerusalém de dezembro de 2014 a intolerância e o racismo passam a ser fenômenos
mais frequentes e palpáveis.
Se por um lado a população de Jerusalém já conhecia atos de
violência, atentados e enfrentamentos, o que ocorre hoje em lojas e ruas tem um
“quê” de diferente, de estranho, de assustador. Vizinhos que se esforçavam por manter relações amistosas e de
normalidade passam a se estranhar. Populações que tentavam conviver no
cotidiano passam por experiências de ruptura, dor e ódio. Esquerdistas e
direitistas, religiosos e seculares, árabes e judeus, parecem entrar em um
circuito de desconhecimento mútuo que pode inaugurar uma nova etapa na cidade,
no país e, por que não, na região como um todo.
Ao que parece, esforços constantes e intensos que investem
na desumanização do outro lado
passam a fazer efeito, o que acaba por fortalecer grupos que acreditam e
defendem a percepção de que adversários
e diferentes são, de fato, inimigos. De um lado, grupos fundamentalistas
islâmicos passam a influenciar cada vez mais a opinião pública em uma sociedade
palestina cada vez mais frustrada e descrente; de outro, a extrema direita
israelense passa a conquistar parcelas cada vez maiores de uma população
israelense que antes apostava em soluções de moderação e acordo.
Há aqui a impressão de que ambas as partes assumem papéis
impostos pela banda adversária. Se atentados sanguinários e covardes passam a
encontrar justificativas entre palestinos que antes os condenavam, de outro
lado posições radicais e extremadas
passam a ter apoio entre israelenses que não estavam dispostos a adotar essas
posturas. Ao que parece, setores da sociedade palestina assumiram o
discurso que setores da sociedade israelense tinham sobre eles, enquanto o
contrário também é verdade. Em uma lógica simplificadora e excludente, árabes e
judeus passam a funcionar a partir das acusações que recebem. Há, portanto, pouco espaço para diálogos e
debates, a não ser aqueles que desconsiderem, em princípio, o outro.
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Criança palestina foge do spray "gambá" lançado por um veículo militar israelense |
Em Jerusalém, onde o conflito é mais sentido e discutido, os
extremistas, fundamentalistas, direitistas e ultranacionalistas ganharam a
batalha pelo espaço público. Hoje chega a ser perigoso se posicionar de maneira
distinta nas ruas da cidade. Manifestações públicas que exijam posições mais
moderadas do governo necessitam de mais segurança policial e são vítimas de
grupos radicais à direita. Políticos que decidam criticar decisões
governamentais são considerados traidores e grupos de oposição são acusados de
estar “do outro lado”. Restam, portanto, poucas dúvidas de que o diálogo
trágico que o atual primeiro-ministro de Israel, Bibi Netanyahu, travou com os grupos radicais palestinos fez
efeito: hoje, a violência e a exclusão
dão o tom do debate político.
Ademais, nas últimas semanas, quando atos de violência e
vingança passaram a ser cotidianos no país, o governo tentava aprovar a lei que
determina que grupos minoritários tenham tratamento diferenciado na vida
nacional. Sob a desculpa de estabelecer um debate a respeito do “Estado Judeu”,
Bibi e aliados da extrema direita decidiram colocar em votação a chamada “Lei Nacional” que determinava novos
contratos políticos, ameaçando o status quo e um equilíbrio já muito sensível
entre cidadãos árabes e judeus no Estado de Israel.
Como não podia ser diferente, a situação somente piorou. Racismo e intolerância passaram a se tornar
referências comuns em ruas, bares e estádios de futebol. A extrema direita
de Israel, sob liderança e auspícios de Bibi Netanyahu, parecia disposta a
levar o país para um abismo político. O auge dessa fase se deu quando um grupo de extremistas de direita
incendiou um colégio árabe-judeu em Jerusalém. O ato foi muito criticado
por vários grupos da coalizão de Bibi, mas apenas timidamente condenado pelo
próprio primeiro-ministro.
Logo depois, a atual coalizão, liderada por Bibi, caiu. E
surge uma esperança. Haverá, nos próximos meses, eleições. Agora, cabe à
população israelense decidir entre a retomada do espaço público por grupos mais
moderados e a formação de uma coalizão mais democrática e menos extremista, ou
a repetição de um mesmo governo pelos próximos anos. Se a segunda opção
ocorrer, temos o risco de jogar
Jerusalém, e toda Israel, em um abismo político, de ódio racial e conflitos
religiosos.
*
Michel Gherman é
historiador e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (NIEJ)
da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 7 de dezembro de 2014 – Pg. E3 –
Internet: aqui.
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