Educação vem de berço?
Rosely Sayão
Respeitar a irmã é
algo fácil de aprender, mas fazer o mesmo com um colega é outra história
O ano letivo terminou e a maioria dos pais já fez sua
escolha para o próximo ano: este é um bom período para pensarmos sobre a
escola, porque as famílias estão livres dessas pressões.
Se olharmos as notícias que envolveram a instituição escolar
- da educação infantil à universidade -, constatamos que parece não fazer parte do papel da escola o ensino da convivência, de
algumas virtudes, do trabalho em equipe, da cooperação, da autonomia, do
relacionamento democrático etc. Não: a escola não tem tempo a perder com
esse tipo de ensinamento, porque ainda acredita que seu papel primordial é
transmitir conhecimento.
Ocorre que onde há agrupamentos de mais novos, crianças ou
jovens, há turbulências. Quem não sabe disso? Mas a escola quer que o estudante chegue a ela com educação vinda de berço.
Por isso, sempre que algo indesejável acontece, a escola costuma
responsabilizar os próprios alunos ou as suas famílias.
Hoje, é só em casa que podemos ser nós mesmos: podemos nos
comportar sem julgamento algum porque estamos protegidos das vistas dos outros,
não é? É em casa, portanto, que colocamos qualquer tipo de roupa, que usamos
palavras e expressões que, em público, jamais usaríamos, que comemos como e
onde queremos, que nos comportamos sem restrições.
Ter essa fortaleza, que é nossa casa, é absolutamente
necessário para a manutenção de nossa saúde mental. Como os filhos observam
tudo, eles aprendem também o que os pais não planejavam ensinar.
"Educação de
berço" é o processo de socialização
primária, como chamam os estudiosos: ensinar a criança a falar, a
conviver, a se alimentar em companhia de outros, a vestir-se adequadamente, a
respeitar regras em jogos, a cuidar dos mais novos e dos mais velhos etc.
Além desse processo, cabe
à família também ensinar as virtudes e a moral que escolheu para seu grupo, e
todo esse aprendizado da criança é aquecido pela afetividade, o eixo da
educação familiar.
Quando ela vai para a escola,
precisa passar pelo processo da socialização secundária, que em geral já foi iniciado
pela família, mas será efetivado mesmo é na escola: aprender a conviver em grupo - e a resistir ao grupo quando for preciso
- e em espaços públicos, onde as relações são impessoais.
Cabe à escola esse papel. Toda vez que uma criança ou um grupo delas, reunido em função da
escola, se comporta de modo não civilizado, a responsabilidade é da instituição,
principalmente.
Mas não é a família que educa os filhos para que eles
respeitem os outros, não ajam de maneiras agressivas e preconceituosas, para conviver
com diferenças de todo tipo?
Sim, em teoria e em grupos com relação afetiva. Em sociedade, o papel fundamental para esse
ensino é da escola. Afinal, aprender a respeitar a irmã é mais fácil de
entender, mas respeitar um(a) colega ou desconhecido é outra história.
Já passou da hora de
a nossa sociedade exigir que a escola honre esse seu papel social. Por
isso, caro leitor, antes de encaminhar seu filho a um atendimento especializado
por ele ser agressivo ou desrespeitoso com colegas, pergunte à instituição [escolar]
qual é o projeto dela para ensinar os alunos, na prática, a boa convivência, as
virtudes, o respeito às diferenças e as relações justas e solidárias, por
exemplo.
Fonte: Folha de S. Paulo –
Cotidiano – Colunista – Terça-feira, 9 de dezembro de 2014 – Internet:
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