JUDAS, O ENIGMA
Em “Judas”, Amós Oz mostra como atraiçoar pode não ser
ruim
Entrevista
com Amós Oz (escritor israelense)
Ubiratan
Brasil
Amós Oz debate os
distintos significados que cercam o nome do traidor de Jesus
Amós Oz - escritor israelense |
Na cultura cristã, Judas
Iscariotes é o símbolo da traição, pois entregou Jesus Cristo aos romanos
por 30 dinheiros. O mais importante escritor israelense da atualidade, Amós Oz,
no entanto, homem habituado a ser tachado de traidor por sua posição favorável
à divisão de seu país em um Estado judeu e outro árabe, observa a situação de
outra forma. Para ele, Judas foi o mais
fervoroso apoiador de Jesus entre os discípulos, aquele que acreditava
fielmente na missão do Messias em ressuscitar e instaurar um novo tempo de paz.
“Um traidor é aquele que, por vezes, se atreve a mudar uma
situação”, defende Oz, que trata do assunto de uma forma literariamente
cativante em Judas, recentemente lançado pela Companhia das Letras. Ao contrário do que sugere o título, o livro não trata da vida do apóstolo, mas
utiliza seu ato para apontar o quão dúbio é o conceito de traição.
Judas tem três personagens como principais alicerces – Shmuel Asch é um jovem estudante
israelense, atrapalhado e barbudo como seus ídolos, Fidel Castro e Che Guevara.
Às voltas com uma tese sobre como Jesus Cristo foi visto pelos judeus ao longo
dos séculos, ele vê sua rotina sofrer um abalo ao ser abandonado pela namorada
e pelos pais, que deixam de sustentá-lo por enfrentarem sérias dificuldades
financeiras.
Resta a Shmuel aceitar a proposta de cuidar de um idoso, Guershom Wald – na verdade, trata-se de
um pensador que busca interlocutores para suas longas conversas. Ao se mudar
para a casa de Wald, Shmuel, além de se familiarizar com a argumentação do
proprietário sobre como todas as crenças e ideologias redentoras são
criminosas, conhece outra moradora, Atalia,
sensual nora de Wald. Cria-se, portanto, entre os três um elo emotivo e
intelectual.
A ação se passa em
Jerusalém, entre os anos 1959 e 1960,
ou seja, quando a cidade ainda estava dividida e uma área era controlada pela
Jordânia. Eterno postulante a ganhar o Nobel de literatura (prêmio ao qual se
torna cada vez mais merecedor à medida que constrói sua carreira), Amós Oz conversou por telefone com o
jornal O Estado de S. Paulo, desde
Tel-Aviv, e, assunto inevitável, falou sobre a atual situação de Israel e sua
irredutível posição de não se negociar com o Hamas.
Por que esse interesse pelo tema da
traição?
Amós Oz: Sempre
me interessei pela figura do traidor – não aquele que recebe dinheiro em troca
de uma informação, mas pelo homem que, embora visto como traidor pelos que o
cercam, é justamente mais leal e mais devotado à alguma causa comum que todos
os que o acusam. Creio deixar isso claro em uma passagem do livro em que Shmuel
afirma que, às vezes, um traidor é aquele que se transforma aos olhos dos que
odeiam e não entendem a mudança. E, também às vezes, a alcunha de traidor pode
ser usada como símbolo de honra.
Como assim?
Amós Oz: Basta
dar uma olhada nos grandes líderes do século 20, homens hoje vistos como
heróis, mas que, em um determinado momento, foram apontados como traidores por
seus seguidores. Falo de Abraham Lincoln,
quando libertou os escravos negros; Winston
Churchill, quando iniciou o esfacelamento do Império Britânico; Charles de Gaulle, quando apoiou a
independência da Argélia; David
Ben-Gurion, quando concordou com o Plano de Partição de território para
constituir um Estado judeu e outro árabe; Menachem
Begin, quando determinou a entrega da Península do Sinai ao Egito; Anwar Sadat, quando veio a Jerusalém; Yitzhak Rabin, quando assinou os Acordos
de Paz de Oslo; Ariel Sharon, quando
se retirou de Gaza; Mikhail Gorbachev,
quando iniciou o processo de demolição do Império Soviético. Em todos esses
casos, foram tachados de traidores, o que, nessa situação, podemos dizer que é
um título de respeito.
E quanto a Judas Iscariotes?
Amós Oz: Confesso
que o enigma de Judas me fascina e me acompanha há muitos anos, desde a
juventude, a ponto de iniciar uma pesquisa sobre aqueles fatos. Descobri, por
exemplo, que as 30 moedas de prata recebidas por Judas pela traição de Jesus
não representavam uma fortuna – na verdade, era o valor que se pagava por um
escravo médio, ou seja, insuficiente para deixar alguém com uma vida
confortável. Outro fato para mim incompreensível: por que Judas precisou
identificar Jesus com um beijo se Ele era uma figura conhecida em Jerusalém?
Também não entendo o motivo de alguém, depois de vender seu mestre, se
arrepender e se enforcar em uma árvore. São histórias que não se encaixam e que
me incomodam há anos.
É por isso que, em um determinado
trecho do livro, Guershom Wald afirma que o problema dos judeus é com o
cristianismo e não com o islamismo?
Amós Oz: Na
verdade, esse trecho diz respeito àquele instante da narrativa. Em se tratando
do mundo atual, acredito que, mais que dos judeus, o grande problema do mundo é
o fundamentalismo. É a maldição deste
século 21 e falo de todos os tipos – o fundamentalismo muçulmano aparece em
primeiro lugar, mas não posso ignorar o judaico-israelense ou o fundamentalismo
cristão que grassa pelos Estados Unidos. Mesmo os grupos que defendem causas
humanitárias, como os ambientalistas, se tornam problemáticos quando viram
fundamentalistas.
O senhor afirmou, em outras
entrevistas, que esse livro é resultado de longos anos de maturação. Por quê?
Amós Oz: Por
conta dessa questão do traidor que, como disse antes, me persegue desde a
juventude, época em que também fui chamado de traidor. Nos anos 1940, meu
bairro era formado por pessoas que apoiavam diversos movimentos, como os pró Irgun (nacionalista extremista) e os
favoráveis ao Lehi (que, na época,
utilizou meios violentos na esperança de expulsar os ocupantes britânicos da
Palestina). Eu me atrevi a fazer amizade com um sargento britânico e, por conta
disso, fui acusado de trair. Aliado a isso, há outro detalhe, dessa vez
familiar. Judas é, para nós, Yehuda,
que é um nome judeu comum e com conotações positivas. Meu pai se chamava Yehuda Aryeh e meu filho é Daniel Yehuda Aryeh. Na cultura cristã,
como já comentamos, Judas é sinônimo de traição. Esse dualismo de significados
me acompanha há muito tempo, antes até de saber que, um dia, escreveria esse
livro.
E o senhor já trabalha em um novo
projeto?
Amós Oz: Sim, com
certeza, mas não posso falar nada ainda. Isso funciona como uma gestação, em
que a criação só diz respeito, naquele momento, à mulher.
Leia
um trecho do livro Judas:
“Eis aí uma história dos dias de inverno no final de 1959 e
início de 1960. Nesta história há erro e desejo, há amor frustrado e certa
questão religiosa que ficou aqui sem resposta. Em alguns prédios ainda se
reconhecem os sinais da guerra que há dez anos dividiu a cidade. Ao fundo dá
para ouvir o toque distante de um acordeão ou os sons nostálgicos de uma gaita
ao entardecer, por trás de uma persiana cerrada.
Em muitas residências de Jerusalém é possível ver na parede
da sala de estar o redemoinho de estrelas de Van Gogh ou a ardência de seus
ciprestes, e nos pequenos quartos ainda estão estendidas esteiras de palha, e
um exemplar de Iemei Tziklag ou de Doutor Jivago virado e aberto na beirada de
um colchão de espuma coberto com um pedaço de tecido de motivo oriental e um
monte de almofadas bordadas. Durante a noite inteira um aquecedor a querosene
arde com uma chama azul. De dentro de um cartucho de obus no canto da sala
cresce uma espécie de ramalhete estilizado feito de ramos de espinheiro.
No início de dezembro Shmuel Asch interrompeu seus estudos
na universidade e pretendia ir embora de Jerusalém, por causa de um amor
frustrado, devido a uma pesquisa que empacou e principalmente porque a situação
econômica de seu pai despencara e Shmuel se via obrigado a procurar algum
trabalho”.
L
I V R O :
Título: JUDAS
Autor: Amós Oz
Tradução: Paulo Geiger
Editora: Companhia das Letras (São Paulo)
Ano de publicação no Brasil: 2014
Páginas: 368
Preço de capa: R$ 44,90
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Caderno 2 – Literatura Estrangeira – Sábado, 6 de dezembro de 2014
– Pg. C4 – Internet: clique aqui.
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