DOIS PRESIDENTES, DUAS HISTÓRIAS, DUAS GRANDES LIÇÕES
A inabalável popularidade de Putin
GILLES LAPOUGE
Paris
País sofre com
inflação alta, sanções e preços de petróleo e gás em queda, mas líder russo
ainda é visto como um visionário por seu povo
![]() |
Vladimir Putin - Presidente da Rússia |
Os russos assistem a uma disparada nos preços do pão, da
carne e das maçãs. O petróleo e o gás, as duas "tetas" da
prosperidade russa, fraquejam. As sanções que o Ocidente adotou para punir os
maus modos de Vladimir Putin na
Ucrânia e outros lugares exauriram de tal forma o país que o Kremlin se viu
obrigado a controlar até o preço da vodca.
Sacudido por todos esses ventos perversos, era de se achar
que o comandante da Rússia, impassível, viril, enigmático e brutal Putin,
tivesse perdido o amor de seus súditos. Não. Putin goza de uma popularidade que
a maioria dos chefes de Estado ocidentais (com exceção da alemã Angela Merkel,
talvez) ficaria encantada em ter.
Como explicar isso? Há algumas pistas aqui e ali. Por
exemplo, essa curiosa nota do Russki
Journal: "Mais de cem personalidades políticas e econômicas russas
sofrem sanções individuais. São gente próxima de Putin. Fazer parte 'dos que
são punidos pelos EUA' constitui uma verdadeira distinção, um certificado de
devoção absoluta a Putin. Algumas pessoas até ficaram decepcionadas por ficarem
fora dessa elite."
No povo russo, o que alimenta a popularidade intacta de
Putin é o "patriotismo". Pela primeira vez desde o fim da URSS,
viu-se assomar o espectro de uma guerra de envergadura. E essa guerra
"nacional" fascina os jovens. O
Ministério da Defesa anunciou uma forte elevação do número de alistamentos
voluntários. A população está engajada na "defesa cívica" como nos "bons velhos tempos". O antiamericanismo está no auge. A TV russa rende homenagem a esses
jovens que saem em socorro da pátria.
Putin aproveitou a tensão atual para modificar os mecanismos
do governo. Até agora, os recursos do poder eram, ao menos na aparência, os
mesmos que no Ocidente, com ministros, deputados etc. Depois de anexar a
Crimeia, uma nova instância foi instalada: o Conselho de Segurança.
A propaganda de Moscou respondeu às insinuações do Ocidente
com a análise cruel das fraquezas
europeias. Dezenas de jornalistas e especialistas russos usaram os
microfones para explicar que a Europa está em estado avançado de decadência ou
até de decomposição. Ao criar a União Europeia, os 28 países consentiram na
perda das próprias soberania, identidade, história, geografia, passado e
orgulho.
E tudo isso para quê? Para ficar sob a influência dos EUA e
colecionar crises econômicas dramáticas. Tal é o resultado mais chocante, mais
injusto e mais paradoxal da situação de forças atual. Aos olhos dos russos, Putin
ficou sendo aquele que expôs o declínio europeu.
TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Internacional – Sábado, 27 de dezembro de 2014 – Pg. A6 – Internet:
clique aqui.
Desconstrução de um presidente em seis anos
WHITNEY EULICH*
THE
CHRISTIAN SCIENCE MONITOR
Ascensão brilhante de
Obama ao poder contrasta com resultados práticos obtidos, apesar da pouca culpa
em parte disso
![]() |
Barack Obama - Presidente dos Estados Unidos da América |
Ao ser eleito pela primeira vez presidente dos Estados
Unidos, em 2008, Barack Obama foi considerado uma nova personalidade política
envolvente. Em 2014, a queda persistente de sua popularidade e o fato de ter
sido virtualmente abandonado por seu próprio partido no segundo mandato são em
grande parte uma decorrência do primeiro fenômeno: as expectativas foram
superiores à realidade.
É importante destacar, no entanto, que a realidade mudou - e
em muitos aspectos. Obama não fracassou
como presidente. De fato, foram várias suas realizações em circunstâncias
consideradas praticamente impossíveis.
Nos dois primeiros anos de sua presidência, quando seu
Partido Democrata controlava ambas as Casas do Congresso, ele adotou muitas medidas para conter a mais grave crise econômica
desde a Grande Depressão. Do mesmo modo, conseguiu a aprovação da histórica reforma no sistema de saúde do país,
a lei que define a proteção ao paciente e o cuidado acessível.
Mesmo agora, apesar da oposição dos republicanos e de
grandes grupos de interesses, ele conseguiu direcionar a política energética
para atender à questão das mudanças climáticas e da redução dos gases do efeito
estufa.
O presidente também deu
passos importantes para assegurar os direitos das mulheres e das minorias
sexuais e usou seu poder de governar por decreto para abrandar as restrições à imigração impostas às famílias durante um
período de paralisia do Congresso.
A avaliação da presidência de Obama não deve se concentrar
apenas nele, mas também na hostilidade
sem precedentes dos republicanos. Antes mesmo de ele assumir o cargo, os
líderes republicanos tramavam se opor a todas as suas propostas para que ele
não pudesse reivindicar o apoio dos dois partidos. Nenhum republicano votou a
favor de sua lei da saúde, embora tenha sido formulada com base em planos que
tiveram o apoio de alguns representantes republicanos e de destacados grupos de
pesquisa.
O truque mais
astucioso dos republicanos foi a utilização de recursos de natureza
processual para impedir que projetos de lei chegassem ao Senado para ser
votados, a fim de que o eleitorado acabasse atribuindo a Obama "o impasse
em Washington". Quando os índices de aprovação da presidência começaram a
cair, chegando a pouco mais de 40%, os democratas cometeram o erro tático de
dar-lhe as costas. Os eleitores concluíram que ele estava sendo abandonado pelo
próprio partido e sua popularidade caiu ainda mais.
Como consequência, nas eleições legislativas de meio de
mandato, realizadas em novembro, os democratas desistiram de apoiar qualquer
medida que tivesse o respaldo de Obama e travaram uma campanha sem objetivo,
contribuindo para um baixo comparecimento dos eleitores do partido às urnas. Os
candidatos republicanos, que realizaram campanhas extremamente controvertidas
contra Obama, trucidaram seus adversários.
Fatores
Evidentemente, uma avaliação honesta da presidência de Obama
não pode ignorar o quanto sua raça influiu. De fato, o que se constata é que os
EUA estavam muito menos preparados para um presidente negro do que seus
partidários previam (ou esperavam), como demonstraram os virulentos ataques a
ele dirigidos, que ultrapassaram os limites do tolerável, tratando-se de um
presidente.
Além disso, a abordagem de Obama a questões que envolviam a
raça foi fortemente limitada pelo medo - que, aliás, ele expressou em seu
precoce livro de memórias Dreams From My
Father - de ser visto (até mesmo por sua mãe branca) como um "negro
revoltado". Devemos, no entanto,
creditar-lhe o mérito de ter tratado de maneira eficaz a intrincada questão
racial que emergiu após os acontecimentos em Ferguson, no Missouri,
transformando o assassinato de um adolescente desarmado no foco principal de
uma ação nacional para melhorar os métodos usados pela polícia.
A personalidade de Obama também contribui para seus
problemas. Em sua ascensão surpreendentemente rápida, ele esteve praticamente
sozinho - um democrata, mas não um produto do Partido Democrata, um político de
instintos progressistas, mas não um ideólogo. Como preço disso, a tendência a
isolar-se fez com que não tivesse a menor inclinação a estabelecer novos
vínculos e aliados em Washington, apoiando-se, pelo contrário, na família e nos
seus amigos mais próximos de Chicago.
Além disso, ele não costuma dar atenção a assuntos de menor
importância ou ao lado mais dúbio da política, e o desmedido orgulho de sua
inteligência excepcional o torna impaciente com as ideias dos outros.
Consequentemente, membros do Congresso, figuras exponenciais do mundo dos
negócios, entre outros, sentem-se desconcertadas na sua presença - e até mesmo
insultadas por sua frieza.
Blindagem
No plano mais geral, a estratégia de governo de Obama
contraria sua afirmação inicial de que pretendia criar uma "equipe de
rivais" que apresentasse visões opostas. Sua preferência por cercar-se de
pessoas de comprovada lealdade produziu uma Casa Branca considerada, até mesmo
por alguns membros do gabinete, pouco interessante. Por outro lado, essa equipe
exerce um rigoroso controle da linha política. Os próprios integrantes do
gabinete têm se irritado porque as suas propostas costumam ser submetidas a
demoradas revisões pelas comissões da Casa Branca, cujos relatórios
frequentemente são pouco claros.
A ênfase na lealdade é particularmente flagrante no campo da
segurança nacional. Susan Rice, sua
assessora nessa área, está com Obama desde 2008. Embora seja considerada uma
profissional inteligente, é desprovida de uma visão estratégica. Isso, com sua
declarada combatividade, comprometeu a formulação de políticas coerentes em
questões cruciais como a crise na Síria.
O ex-secretário da
Defesa Chuck Hagel não conseguiu atravessar a redoma construída em torno de
Rice. As divergências de Hagel em relação à Síria foram muitas vezes levadas
diretamente a Obama. Depois das eleições de meio de mandato, Hagel - o terceiro
secretário da Defesa de Obama em seis anos - tornou-se o bode expiatório de um
governo que demonstrava pouca coordenação. Nem mesmo lhe foi concedida a
dignidade de uma simples renúncia, sem que se deixasse afetar pelo vazamento de
comentários de funcionários da Casa Branca de que ele "não estava à altura
do cargo". Considerando a boa reputação de Hagel em Washington, a medida
refletiu mal no governo.
É improvável que Obama encontre conforto contra as lutas
internas no último reduto dos presidentes anteriores em fim de mandato: a
política externa. Obama não deveria ser culpado pelas dificuldades que os EUA
enfrentam nessa área. Não foi ele que criou o caos no Iraque e no Afeganistão e
não é sua culpa se a condução da política externa é mais difícil no mundo
fragmentado dos nossos dias do que durante a Guerra Fria. Tentar afirmar a
liderança global teria sido difícil para qualquer presidente. Na semana
passada, Obama anunciou a reaproximação com Cuba.
Embora Obama seja uma personalidade brilhante, tem-se
mostrado propenso a cometer erros estranhos. Com um John McCain aparentemente fora de controle na presidência da
Comissão do Senado para as Forças Armadas, a situação provavelmente ficará
ainda mais complicada.
À medida que a política americana se torna mais polarizada e
Obama luta para administrar os desafios decorrentes de históricos
desdobramentos globais, os grandes programas internos destinados a tratar da crescente desigualdade provavelmente
estarão fora do alcance do seu governo. E, apesar de não faltarem candidatos
para suceder-lhe em 2016, depois de sua experiência, nos perguntamos por que
alguém iria querer esse emprego.
TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA.
* WHITNEY EULICH É JORNALISTA E AUTORA DE “WASHINGTON JOURNAL: REPORTING WATERGATE AND RICHARD NIXON'S DOWNFALL”
[TRAD.: REPORTAGEM WATERGATE E A QUEDA DE RICHARD NIXON].
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Internacional / Visão Global – Sábado, 27 de dezembro de 2014 – Pg.
A7 – Internet: clique aqui.
Comentários
Postar um comentário