QUANDO A IGREJA RENUNCIA À BELEZA
Vito Mancuso
La Repubblica (Roma – Itália)
17-12-2014
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Interior de uma catedral católica em estilo gótico |
Quais são os argumentos que levam a considerar como
verdadeira uma afirmação? O fato de que corresponde ao efetivo estado das
coisas, é a resposta que surge na mente espontaneamente. De fato, se eu posso
verificar a correspondência entre o enunciado (está chovendo) e a realidade (a
chuva que cai), estou indubitavelmente na presença de um enunciado verdadeiro.
É a clássica
definição de verdade como adequação
entre realidade e mente, adaequatio
rei et intellectus, que de Aristóteles passa para Tomás de Aquino e para
toda a tradição ocidental. O cristianismo
fez grande uso dela no passado, para se apresentar como verdade definitiva.
O cristianismo é a verdade, defendia-se, porque a Bíblia e o
Magistério da Igreja dizem como as coisas são realmente sobre a origem do
mundo, a existência de Deus, o aparecimento do homem, a natureza da alma e
todas as outras questões capitais da vida; nem se deixava de salientar que os
eventos narrados ou preditos na Bíblia, da arca de Noé até o iminente fim do
mundo, tiveram ou terão logo uma pontual confirmação na realidade atual das
coisas.
O progresso do conhecimento humano esvaziou tal abordagem,
porque fez emergir, de modo irrefutável, a não correspondência entre muitas
afirmações bíblicas e a realidade; pense-se, por exemplo, na origem do mundo.
Se somarmos a isso a evolução da consciência moral e a
superação do princípio de autoridade (segundo o qual um enunciado é verdadeiro
pela autoridade de quem o sustenta), compreende-se como as tradicionais
apologias cristãs tornaram-se armas sem ponta, e o cristianismo, necessitado de
refundação.
É o que já intuía o nobre contrarrevolucionário François-René de Chateaubriand
(1768-1848), que se refugiou em Londres a fim de evitar a guilhotina durante os
anos do Terror e um fervoroso católico. Uma vez de volta à França, depois da restauração,
a intuição o levou a publicar, em 1802, Gênio do cristianismo, obra hoje
reproposta na coleção Millenni Einaudi,
com uma edição organizada por Mario
Richter.
A novidade do livro está toda no título completo: Gênio do cristianismo ou a beleza da
religião cristã. Enquanto, por séculos, a fim de mostrar a fundamentação da
fé cristã, a apologética insistira na verdade do cristianismo, com
Chateaubriand, pela primeira vez, ela se baseia na beleza, sustentando que o cristianismo vem diretamente de Deus e,
portanto, é a verdade, pela sua capacidade de produzir beleza.
Trata-se de uma tese fundada? Na sua abordagem de fundo,
sim, mesmo a epistemologia contemporânea afirma que, entre os critérios de
veracidade de uma teoria científica, além da simplicidade, capacidade de prever
e poder unificante, há justamente elegância ou beleza.
E, por muitos
séculos, o cristianismo soube produzir beleza e teve poder unificante sobre as
vidas dos homens. Pense-se nas obras-primas da arquitetura que são as
igrejas românicas e as catedrais góticas; pense-se nos ícones bizantinos, em
Cimabue, Giotto, Fra Angelico, Simone Martini, Piero della Francesca,
Michelangelo e Caravaggio que, sem o cristianismo, seriam impensáveis; pense-se
na mais alta criação poética da literatura italiana, a Comédia de Dante; pense-se no esplendor do canto gregoriano.
Pense-se nas muitas outras criações das quais testemunham as
nossas cidades e os nossos pequenos vilarejos, e aproximem-se das formas de
vida concreta que o cristianismo do passado sabia produzir por ser dotado de um
forte poder unificante sobre o caos da existência: eremitas do deserto,
beneditinos, cluniacenses, cistercienses, camaldulenses, cassinenses,
valombrosanos, olivetanos, cartuxos, trapistas, franciscanos, dominicanos, trinitários,
mercedários, servitas, agostinianos e muitos outros, sem falar da galáxia ainda
mais extensa da vida religiosa feminina.
Mesmo a partir disso
parecia que o cristianismo era verdadeiro, pela sua capacidade de geração de
múltiplas formas de vida.
Mas hoje de que saúde goza a intuição de Chateaubriand de
ligar a verdade do cristianismo à beleza? Em nível teórico, são dois os principais
teólogos que se encarregaram de aprofundá-la, o suíço Hans Urs von Balthasar (1905-1991), com a obra em sete volumes Glória.
Uma estética teológica, e o alemão Christoph
Theobald, nascido em 1946, com a obra em dois volumes O cristianismo como estilo.
Mas quando está em jogo a verdade, na sua capacidade
estética, bem antes de conceitos que falam à mente, fala-se de formas que encantam os sentidos, de
cores, sons, arquiteturas, e fala-se de vidas concretas tão fascinadas pela
mensagem cristã a ponto de deixar todas as outras coisas.
E, a partir desse ponto de vista, acredito que se deva
destacar uma preocupante insuficiência
do cristianismo contemporâneo. A entrada em qualquer uma das nossas igrejas
raramente gera na alma uma experiência de beleza, ainda mais durante as funções
litúrgicas, quando as músicas e as vozes são muitas vezes aproximativas e
amadoras, enquanto a nova arquitetura sacra, muitas vezes, propõe edifícios
frios e intelectualísticos, e a pintura se refugia em uma servil repetição dos
ícones. As diversas formas de vida religiosa, por sua vez, definham por falta
de vocações, que quase preanuncia a sua extinção.
Tudo isso leva o cristianismo
contemporâneo a viver entre dois extremos:
·
de um lado, um tradicionalismo sombrio e inseguro, que só sabe reproduzir gostos e
palavras de um mundo que não existe mais;
·
de outro, uma frenética corrida atrás das tendências de hoje, que quase não sabe
mais distinguir entre a canção entre amigos da cantada sagrada à glória de
Deus, um edifício sacro de um comum, uma vida consagrada com o seu hábito
distintivo de uma existência totalmente laica.
No fundo é a própria ideia de apologética que mostra toda a
sua fragilidade e, com isso, se repropõe com urgência a pergunta sobre o quanto
ela induz a mente a considerar como verdadeiro o cristianismo, ou qualquer
outra religião: quais são os argumentos
que levam a considerar como verdadeiro um sistema de enunciados que pretende
abraçar nada menos do que o sentido do mundo e se apresentar como verdade?
Desmoronada a ideia de uma demonstração racional da verdade
cristã, a capacidade de gerar beleza
também nunca poderá ser enquadrada em um sistema de pensamento, ainda mais
se ele for funcional ao poder político e religioso, como a obra de
Chateaubriand era funcional à restauração e à aliança trono-altar.
O resultado é que não
há e nunca haverá nenhuma garantia para a fé cristã de poder se demonstrar como
"verdade", apesar do dogma e do consequente anátema para quem o
nega, declarado pelo Vaticano I.
Resta somente a vida das testemunhas sinceras, alheias a
toda lógica de poder, para constituir o ponto de apoio: são elas o verdadeiro
"gênio do cristianismo", só delas poderá brotar aquela humilde
beleza, nada genial, mas, eu diria, austera na sua simplicidade, já na origem
das bem-aventuranças evangélicas e do Cântico das Criaturas de Francisco de
Assis.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 18 de dezembro de 2014 –
Internet: clique aqui.
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