ALERTA: TECNOLOGIAS AFETAM A SAÚDE!
Um cérebro que muda
Jairo Bouer
Psiquiatra
Usuários de
smartphones podem sofrer alterações em partes do cérebro
Um dos temas mais abordados por esta coluna ao longo de 2014
foram os impactos que as novas
tecnologias podem ter na saúde e no comportamento das pessoas, sobretudo
das mais jovens. Assim, o último artigo deste ano traz duas novas pesquisas que
ajudam a pensar no tamanho do problema.
Um trabalho da Universidade
de Zurique, na Suíça, publicado no periódico Current Biology e divulgado na semana passada pelo jornal inglês Daily
Mail, mostra que usuários de smartphones podem estar sofrendo
alterações na forma e na função de partes do seu cérebro. Eles estariam desenvolvendo mais uma área conhecida como córtex
somatossensorial, responsável pela integração de estímulos táteis com
alguns tipos de movimento.
Ao usar diariamente tecnologias com telas sensíveis, como
celulares e tablets, os jovens estariam
demandando um controle cada vez mais fino do movimento de suas mãos e dedos.
Essa exigência inédita na história da evolução humana estaria moldando novas
funções. Como se sabe, nosso cérebro é
um órgão bastante plástico, podendo se modificar e se adaptar a novas demandas.
De acordo com a pesquisa, quanto maior e mais frequente é o
uso das telas interativas, maior o tamanho dessa área cortical, o que mostra uma conexão mais intensa do cérebro
com as mãos. Assim, sensibilidade motora e tempo de resposta ao estímulo
ficaram bem mais rápidos. O problema é
que muitas dessas alterações podem levar, no futuro, a problemas como
distúrbios motores (distonias), espasmos
e dores crônicas.
Já outra pesquisa, uma análise de 80 estudos globais sobre
uso de internet, que avaliou 31 países distintos, mostra que 6% dos usuários de internet no mundo podem
estar dependentes, apresentando dificuldade para pegar no sono e sinais de
ansiedade quando ficam desconectados.
Os pesquisadores da Universidade
de Hong Kong, na China, combinaram resultados dessas pesquisas com dados
como PIB (Produto Interno Bruto, um dos indicadores de atividade econômica dos
países), número de usuários e penetração da internet. As taxas de dependência mais altas foram encontradas no Oriente Médio
(Israel, Líbano, Turquia e Irã), na ordem de quase 11%. As mais baixas estão no Norte e no Oeste da Europa, com 2,5%. A
América do Sul não foi avaliada.
O resultado do trabalho foi publicado na revista
especializada Cyberpsychology, Behavior
and Social Networking e divulgado na semana passada também pelo jornal Daily
Mail.
Os dois trabalhos reforçam a percepção de que, com o uso
cada vez mais frequente das novas tecnologias pela população, principalmente
pelos mais jovens (que têm maior dificuldade de controle de impulsos e de tempo
de uso), pode se tornar mais importante
discutir limites e possíveis estratégias de intervenção em caso de excessos.
Se os benefícios da tecnologia são inegáveis, eventuais
riscos para a saúde e o comportamento podem acompanhar esses ganhos. Um
trabalho emblemático deste ano sugere que jovens
que interagem muito tempo nas redes sociais podem ter maior dificuldade de
identificar emoções quando se encontram com amigos e familiares na vida real.
Da mesma forma que durante o ano trouxemos inúmeras
pesquisas que mostram que educação e
prevenção são necessárias nos comportamentos ligados ao consumo de álcool,
cigarro e sexo, com o uso de tecnologia se caminha para uma posição semelhante.
Sem trabalhar esses conceitos, cada vez mais pessoas podem se atrapalhar e
enfrentar problemas em sua vida.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Metrópole – Domingo, 28 de dezembro de 2014 – Pg. A15 – Internet:
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