Se você acha que a crise atual é "invenção", "exagero" e "golpe" em cima do Governo, leia estes números...
Olhar para os juros.
E para o lado de fora
Washington
Novaes
Jornalista
Se nada mudar, diz José Alves Filho (Adial Brasil),
“o País quebra até o fim do ano”
![]() |
WASHINGTON NOVAES Jornalista |
Quaisquer
que sejam os números usados, concordam jornais e televisões que as manifestações de rua no último domingo
[13 de março] foram “as maiores da
História” no País – sem tumultos em qualquer parte. Mas com informações
surpreendentes, como a de alguns jornais para os quais 70% dos participantes tinham nível superior de educação.
Que
quererá dizer tudo isso? Que consequências terá? Dizem alguns que não haverá
mais como escapar ao impeachment da
presidente da República, ainda mais com as complicações que cercam o
ex-presidente Lula e o PT. Outros acreditam que, após renúncia da presidente,
fatalmente iremos para o parlamentarismo ou para um regime misto. E vêm
palavras muito duras de empresários como José
Alves Filho, presidente da Associação
Brasileira Pró-Desenvolvimento Sustentável (Adial Brasil): “O custo do
financiamento está 71% mais caro. Temos que reposicionar a política monetária.
E se não cair a ficha, nós vamos quebrar (...). O custo do financiamento está 71% mais caro para as pessoas o dinheiro
do trabalhador não se multiplica nessa velocidade (...). No ano passado, 41% dos apartamentos foram
devolvidos” (O Popular, 15/3).
É
curioso, entretanto, que raras análises
se refiram a aspectos como a influência dos fatores externos na situação
brasileira, principalmente taxas de juros bancários, altíssimos lucros do
sistema financeiro internacional e nacional e os rendimentos que ele
proporciona a uma parcela estrita como a dos grandes aplicadores. A empresa Ipiranga, o principal negócio
do Grupo Ultra – um dos considerados “privilegiados” (O Estado de S. Paulo, 14/3) –, por exemplo, teve alta de 12% na
receita, que chegou a R$ 75,7 bilhões, com lucro de R$ 1,2 bilhão (mais 21%). O
Grupo JBS (Friboi), faturou no
terceiro trimestre do ano passado R$ 43 bilhões, quase 40% mais que em igual
período de 2015; o lucro subiu 214%, para R$ 3,4 bilhões.
![]() |
JOSÉ ALVES FILHO (à direita) Presidente da Associação Brasileira Pró-Desenvolvimento Sustentável |
Quem
se apega apenas a esse setor parece não considerar as projeções dos institutos
de pesquisa econômica segundo as quais o produto
interno bruto brasileiro (PIB) em 2016 deve cair pelo terceiro ano consecutivo.
Em 2015 foram fechados 114 mil postos de
trabalho para pessoas com nível superior de educação (O Estado de S. Paulo, 6/3) – ao contrário dos anos 2004 a 2014,
quando o PIB subiu 7,6% e foram abertas 306 mil ocupações nesse nível. Só as perdas em 2015 anularam os ganhos de
2012-13.
Agora,
os números são inquietantes. O de desempregados
sobe 41,5% em um ano e chega a 9,1 milhões, diz o IBGE (UOL, 19/2), 8,5% mais que no ano
anterior. A renda média do trabalhador
em janeiro, na média, estava em R$ 1.944, ou 7,4% abaixo da de um ano atrás.
Em seis regiões metropolitanas o desemprego pode chegar 10% – mas em 3.500
municípios pode elevar-se até 13%. Até o
fim do ano, a recessão será a pior já medida no País (Folha de S. Paulo, 14/3). Com a projeção do PIB de 2016 estimada
para cair pelo terceiro ano consecutivo (O
Estado de S. Paulo, 6/3), admite-se que também poderá ser negativa em 2017.
O crédito ao consumidor foi 7,7% menor
em janeiro do que há 12 meses – e esse crédito irriga 60% do PIB.
Mais
pessimista ainda é a projeção do Instituto
Internacional de Finanças (representantes dos 500 maiores bancos e
instituições financeira), que espera
contração de 4% a 4,5% no PIB brasileiro para o ano. “A incerteza é a única certeza no
Brasil”, diz um de seus membros (O
Estado de S. Paulo, 9/3). “A crise política está aprofundando o panorama
(...). Estrangeiros aplicam o maior volume de recursos nas bolsas brasileiras –
e a situação pode piorar com a saída da presidente Dilma”. Já o Banco Mundial avalia que crescimento no
Brasil só no ano que vem, com 1,4% (O
Estado de S. Paulo, 7/1), quando já
este ano a economia mundial evoluirá 2,1% e mesmo a da América Latina crescerá
2%. O superciclo mundial das commodities
desacelerou-se, assim como a economia da China, lembra a economista Maria da
Conceição Tavares (O Estado de S. Paulo,
12/12/05) – trazendo para a discussão mais um fator externo, já que o mercado
mundial de commodities é controlado
por um cartel de empresas internacionais. E a Standard & Poor’s rebaixa o
Brasil para uma “perspectiva negativa”. Principalmente o setor de serviços, que decresceu 5% nos últimos 12 meses – e ele
influi em 70% do PIB.
![]() |
PEDRO ALVES DE OLIVEIRA Presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás |
Pedro
Alves de Oliveira, presidente da Federação
das Indústrias de Goiás, depois de lembrar que “os três maiores bancos privados do País em 2015 tiveram lucros
bilionários de R$ 47,16 bilhões” (O
Popular, 11/3), acrescenta que em três anos foram R$ 117,94 bilhões – ao mesmo tempo que o valor médio da hora de
trabalho caía 10,3%, o faturamento industrial baixava 8%, o nível de emprego
reduzia-se em 6,1% e a massa salarial em 6,7%. E sentencia: “As taxas de juros são
um pesadelo; a média dos juros
no cheque especial vai a 287% ao ano, os mais altos desde 1995; nos cartões de crédito, a média é de 431,4%
(...). Estamos sugados por um sistema financeiro perverso, beneficiando
práticas equivalentes, e com a taxa Selic permanecendo em 14,25%”.
E
assim vamos. O Brasil é o segundo maior
devedor do mundo (O Estado de S.
Paulo, 11/1), com US$ 322 bilhões,
menos que a China apenas (US$ 1,1 trilhão). A desvalorização do real diante do dólar e o acúmulo de dívidas de
empresas brasileiras em moeda norte-americana podem levar a economia brasileira
a “parar”, segundo alerta dos bancos centrais reunidos na Suíça. Ao final
de 2015, um total de US$ 9,8 trilhões estava emprestado ao setor empresarial,
fora dos Estados Unidos. Empréstimos a
empresas brasileiras triplicaram para US$ 206 bilhões. A
Petrobrás é a maior devedora. Para conter a dívida bruta o Brasil
precisa de superávit primário de 6% do PIB nos próximos três anos, quando já
enfrenta sua pior recessão. O comércio exterior está em período difícil, e os melhores resultados, na exportação de commodities, mostram preços em queda.
Se nada mudar, diz José Alves Filho, “o
País quebra até o fim do ano”.
Muitos
avisos.
Comentários
Postar um comentário