Lava-Jato será série de TV - Diretor é o mesmo de "Tropa de Elite"
«É caso de polícia»
Entrevista
com José Padilha
Cineasta carioca
Marcelo Marthe
O diretor de “Tropa de Elite” diz que não há nada de
propriamente político na corrupção: é crime, ponto. E critica a
intelectualidade de esquerda que vive em estado de negação quando confrontada
com fatos levantados na Lava-Jato.
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JOSÉ PADILHA Cineasta brasileiro |
O
cineasta carioca José Padilha, de 48
anos, tem se dedicado a expor a violência e o crime que permeiam a sociedade
brasileira. Foi o que fez no documentário Ônibus
174 e nos dois Tropa de Elite,
fenômenos de bilheteria que consagraram um anti-herói nacional, o Capitão Nascimento. Também responsável
pela série Narcos, do Netflix,
Padilha vive nos Estados Unidos com a mulher e o filho de 12 anos. E anda
atento a outra modalidade de crime bem conhecida dos brasileiros: a corrupção. Ele anuncia que um de seus
próximos trabalhos para a TV internacional será sobre a Operação Lava-Jato. Por telefone, falou do projeto e dos escândalos
que o inspiraram.
Como
será sua série de TV sobre a Operação Lava-Jato?
José Padilha: O objetivo é narrar a
operação policial em si e mostrar inúmeros detalhes esclarecedores que a
própria imprensa desconhece. Como se trata de um projeto bancado por dinheiro
internacional, o título será em inglês. Estamos chamando a série
provisoriamente de Jet Wash. Mas o
escândalo oferece tantas possibilidades de título que é até difícil escolher.
Poderia ser Solaris, não?
O
senhor tem estudado escândalos como o mensalão e o petrolão?
José Padilha: Conheço os dois a fundo. Li
grande parte das sentenças do Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do
mensalão. E também conheço bem o petrolão, pois comprei os direitos de um livro ainda inédito que traz
entrevistas até com envolvidos que estão na cadeia - a obra será uma das bases
da série. Após uma leitura atenta dos fatos, não dá para ignorar que o PT e as empreiteiras montaram uma quadrilha
para lesar os cofres públicos, sim. Também não dá para fingir que a
campanha eleitoral da presidente Dilma Rousseff não foi irrigada com dinheiro
da corrupção. Sejamos francos: é bem provável que outras campanhas tenham sido
irrigadas também.
O
que a futura série dirá sobre a tese tão alardeada pelo PT de que a Lava-Jato
tem viés político?
José Padilha: Não tem viés político
nenhum. É uma operação policial, ponto.
Para entender o que está ocorrendo hoje no Brasil, é preciso tirar a cortina de
fumaça que nubla os fatos. Existem três
processos históricos distintos andando em paralelo e se retroalimentando:
1º)
A combinação de mal-estar com a economia,
2º)
revelações da Lava-Jato e
3º)
a atuação de uma imprensa livre e
combativa.
Tudo
isso produziu algo inédito no país: o
andar de cima ficou vulnerável à aplicação da lei. É o que está acontecendo
de concreto. Em torno disso, tem muita espuma: a tentativa de transformar um
fenômeno de natureza policial e legal num embate político. Toda vez que alguém
fala dos indícios avassaladores contra Lula, um petista diz que o PSDB também
rouba. Tenta-se transformar tudo numa
questão ideológica. Mas tudo é caso de polícia.
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OPERAÇÃO LAVA-JATO Um caso de polícia envolvendo empresários, funcionários públicos e políticos, e ponto final! |
No
que a corrupção do governo petista se diferencia da que se via antes?
José Padilha: A política no Brasil - nas
esferas municipal, estadual e federal - sempre funcionou assim: os partidos
elegem seus representantes e indicam pessoas para cargos-chave com poder de
contratar serviços públicos. Depois, superfaturam as obras e embolsam um pedaço
do dinheiro, que vai para pessoas físicas e o financiamento de campanhas. O PT
fez isso em volumes muito maiores - vide a compra da Refinaria de Pasadena. E o caso do PT também é pior porque o roubo
sistêmico se soma a um enorme cinismo. Lula,
antes, fazia o discurso da ética e da moralidade. Mas, quando chegou ao
poder, não só montou seu esquema como levou ao limite da sustentabilidade o
assalto a empresas estatais e órgãos públicos. Um político assim só poderia
chamar para si mais ódio do que os outros, obviamente.
Qual
seria a melhor saída para a crise política desencadeada pelo petrolão?
José Padilha: Minha preferência, como
brasileiro, seria a cassação da chapa
Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Se o TSE tivesse a
coragem de olhar para as campanhas e impugnar as chapas que receberam recursos
ilícitos, tenho a impressão de que não sobraria nenhuma chapa relevante. Uma nova eleição seria o melhor caminho
para o Brasil. Mas não me parece que vá acontecer. Há muita ingerência
política no TSE.
Num
artigo recente, o senhor encontra uma explicação psicanalítica para tantos
artistas e intelectuais não aceitarem as evidências contra Lula e o PT. Por que
essas pessoas vivem, como o senhor diz, em negação?
José Padilha: É um fenômeno psicológico
que foi primeiro estudado pela psicanálise, por Freud e sua filha Anna. Quando
você constrói uma imagem pública em torno de uma ideologia e assume publicamente
posturas a favor de determinado grupo político - vai ao programa eleitoral do
PT, abraça o Lula, faz campanha para a Dilma - e depois descobre que estava
errado, há duas opções: aceitar seu erro ou fingir que nada aconteceu. A maioria dos artistas e intelectuais
preferiu fingir que nada de errado está ocorrendo com o partido e seus
dirigentes. É um mecanismo de defesa psicológica. Meus amigos são
cineastas, atores e escritores, muita gente da esquerda, enfim. E decidi
alertá-los: camaradas, acordem. Se
vocês valorizam suas crenças, afastem-se do Lula. No momento, curiosamente, já
detecto que a negação passou para outro
patamar.
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"No caso do PT, o roubo sistêmico se soma a um enorme cinismo. Lula (na foto) antes fazia o discurso da ética. Mas, no poder, levou ao limite da sustentabilidade o assalto às empresas estatais" |
Qual
seria?
José Padilha: Cada vez há menos negação
total. Agora, quando confrontados com o erro que foi acreditar que o PT é um
partido e não uma quadrilha, os artistas e intelectuais apelam para dois
subterfúgios. O primeiro é afirmar que a presidente Dilma não roubou "como
pessoa física", embora seja evidente
que a campanha eleitoral da Dilma foi beneficiada por um propinoduto -
disso a Lava-Jato não deixa a menor dúvida. Embora seja grave roubar para si
próprio, é ainda pior roubar para fraudar o processo democrático.
E
qual seria o segundo subterfúgio?
José Padilha: É a tática diversionista:
responder que o PSDB também roubou. Ora, se foi assim, vamos investigar o PSDB,
não livrar o PT. E olhe que não tenho motivo nenhum para defender o PSDB: no
dia anterior às eleições, escrevi um artigo no jornal explicando por que não
apoiava nenhum dos candidatos. Criticava especificamente Marcelo Freixo (PSOL),
um político que respeito, por ter apoiado a campanha do PT-PMDB após o
mensalão. E critiquei a Marina Silva por se associar a Aécio Neves. Outro dia,
a propósito, li um artigo do Fernando Henrique Cardoso em que ele diz que os problemas não são só Lula e Dilma, é o
arranjo político brasileiro que está ultrapassado. Infelizmente, tenho de
dizer: não é arranjo coisa nenhuma, é desvio de dinheiro público. Se o PSDB
também fez o que ele chama de “arranjo político”, está igualmente envolvido em
crimes.
A
intelectualidade brasileira perdeu a sintonia com os cidadãos?
José Padilha: As manifestações mostraram que
só os intelectuais estão divididos. O Brasil quer o PT e o PMDB fora do poder e
que a Lava-Jato continue até pegar os corruptos de todos os partidos. O que não
pode agora é haver um acordo entre PSDB e PMDB para substituir Dilma e só PT
ser punido significativamente. Os
corruptos do PMDB e do PSDB têm de ser pegos também. Delcídio do Amaral já deu o caminho [por meio de sua delação à Justiça]. Agora é puxar o fio da meada.
Se a esquerda for inteligente, depois de pegos os seus corruptos, vai passar a
apoiar a Lava-Jato para pegar os dos outros.
Antes
do novo projeto sobre a Lava-Jato, o senhor buscou financiamento do BNDES para
um filme sobre o mensalão. Por que desistiu da ideia?
José Padilha: Na ocasião, uma comissão de
cineastas e executivos do banco julgava os projetos. Quando apresentei a ideia de um filme sobre o mensalão, o pessoal do
BNDES olhou para mim como se eu fosse um maluco. Na votação, meu filme
ganhou o direito de um financiamento de 1 milhão de reais. Mas, enquanto outras
pessoas que também ganharam aquele edital rapidamente começaram a assinar seus
contratos, o meu nunca saía. Ficou claro
que havia um esforço do governo para abafar o meu projeto. O próprio José
Dirceu ligava e botava pressão. No dia seguinte ao do anúncio do edital, um
executivo me ligou pedindo para mudar a sinopse do projeto. Eu falei: “Não
posso mudar. Seria uma fraude”. No fundo, foi uma ingenuidade minha. Por isso,
considero importante que minha série
sobre a Lava-Jato seja uma produção financiada com dinheiro internacional.
É uma garantia contra pressões.
Com
o conhecimento de causa de quem fez Garapa,
um documentário sobre os miseráveis, o senhor concorda com a alegação do PT de
que nenhum partido fez mais pelos pobres?
José Padilha: Discordo. Dois processos [na verdade, três] reduziram significativamente
a pobreza no Brasil:
1º)
O primeiro foi o fim da inflação,
com o Plano Real.
2º)
Depois, no primeiro mandato do Lula, surgiu a ampliação do Bolsa Família, que já existia no governo Fernando
Henrique Cardoso (FHC). Sempre entendi o Bolsa Família como uma forma de
reverter o dano histórico do processo inflacionário. Mas essas duas coisas só
foram viáveis por causa de uma terceira:
3º) o
controle das contas públicas,
basicamente montado nos governos do PSDB.
No
entanto, o segundo governo do Lula em diante, o PT começou a desmontar esses avanços. No fim do governo do PT, o
brasileiro vai estar de volta ao ponto em que estava quando o Lula foi eleito.
Se não estiver pior.
Para assistir ao documentário “Garapa” sobre a fome no
Brasil,
clique sobre a imagem abaixo:
O
senhor já declarou que o Brasil é “uma barbárie”. Em que medida isso pesou na
troca do Rio [de Janeiro] por Los Angeles?
José Padilha: Tenho visto muita gente se
mudar do Brasil para os Estados Unidos. Eu amo o Brasil, mas cada vez mais
ficou difícil para mim viver aí. Quando comecei a filmar no exterior, já
passava muito tempo fora do país e via pouco minha família. Basicamente, foi
por isso que me mudei para Los Angeles. Agora, quando percebi o rumo que o país
tomou, acelerei esse processo. Hoje, para andar de bicicleta na Lagoa Rodrigo
de Freitas, eu teria de botar uma roupa de samurai, para não levar uma facada
nas costas.
O
diretor de Tropa de Elite é, afinal,
de esquerda ou de direita?
José Padilha: Nem de esquerda nem de
direita. Minha trajetória no cinema reflete o que penso. Quando fiz Ônibus 174, contei a história de ponto
de vista de Sandro Nascimento, um menino de rua convertido em bandido. As
pessoas da esquerda adoraram o filme, mas fui criticado pela direita. Quando
abordei a violência do ponto de vista de um policial, em Tropa de Elite, fiz questão de chamar esse policial pelo mesmo
sobrenome de Sandro – Capitão Nascimento. O subtexto era: a violência no Rio de
Janeiro se explica pelo encontro desse tipo de policial com aquele tipo de
criminoso, e o estado está produzindo ambos. A direita adorou Tropa de Elite, e a esquerda me chamou
de fascista. Tenho bastante desconfiança
de qualquer ideologia totalizante. Não acho que exista um sistema de ideias
capaz de dar conta da complexidade dos processos sociais. Não compro nenhuma
ideologia.
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