A revolução de Francisco em um mundo aos pedaços
Balanço da caminhada de três anos de pontificado
Entrevista
com Massimo Borghesi
Professor titular de Filosofia Moral da
Universidade de Perugia (Itália)
Luca
Marcolivio
Zenit
12-03-2016
Um pontífice que coloca as cartas sobre a mesa, que
dribla todos os esquemas ideológicos e que, precisamente, por isso é
profundamente admirado ou asperamente criticado
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PAPA FRANCISCO Um Papa que une fé e calor humano! |
No
entanto, em apenas três anos de pontificado o Papa Francisco não fez mais que colocar novamente no centro a dimensão do
encontro entre Deus e o homem, do qual surgem numerosas e evidentes
consequências tanto em nível de magistério e de pastoral como de ação
diplomática da Igreja.
Massimo Borghesi foi, nos últimos três anos,
um dos mais agudos “hermeneutas” do
pontificado de Bergoglio, colocando em relevo suas características
“proféticas”. Ao mesmo tempo, Borghesi explica por que o papa argentino é tão
incômodo para muitos, sobretudo entre os próprios católicos.
Eis
a entrevista.
Três
anos após ser eleito, o Papa Francisco segue sendo um grande quebra-cabeça para
muitos intelectuais, mas sobretudo para os acérrimos defensores das ideologias
do século XX. Ele não é de esquerda nem de direita. Sua pastoral e sua
linguagem acessível colocam-no mais perto do povo do que das elites eclesiais
ou laicas. Você, como filósofo, como interpreta sua personalidade?
Massimo Borghesi: Tudo o que você disse é
verdade. Desde o princípio do seu pontificado, o Papa Bergoglio fez entrar em
crise os comentaristas e analistas por esse seu estilo completamente novo.
Comentaristas e analistas que se esforçam para encontrar as “raízes” do Papa
latino-americano para compreendê-lo, e em muitos casos para poder criticá-lo e
deslegitimá-lo. Sobretudo, certa corrente conservadora que nos anos de Bento
XVI já tentou, sem sucesso, ajustar a imagem do Papa Ratzinger ao seu gosto, e
agora acusa o Papa Francisco de ser populista, peronista, partidário da
Teologia da Libertação etc. Também o acusaram de “duplicidade jesuítica”,
desempoeirando as armas de um velho laicisimo, que curiosamente hoje é
empunhado pela direita católica.
Tudo isto demonstra uma boa
dose de ignorância e de preconceito. O Papa Bergoglio nunca foi filo-marxista.
Simplesmente nunca foi de direita. Sua Teologia
do Povo nasce no contexto da Argentina dos anos 70 como resposta “católica” à
teologia da revolução. Não se trata de uma concepção ideológica, mas que a
fé se arraiga na mística popular, em uma tradição cristã viva, histórica, que a
Igreja Institucional não pode desconhecer sem correr o risco de tornar-se
abstrata e formalista. O sensus fidei do povo crente é um “lugar
teológico”, assim como os pobres são os prediletos, aqueles que Deus ama de uma
maneira especial. A Teologia do Povo é uma resposta às posturas ideológicas, de direita ou de esquerda, ao elitismo de marca iluminista ou ao gnosticismo que reduz a fé à “doutrina”.
De
tudo isto se desprendem consequências importantes. A primeira é uma concepção “carnal”, “física”, do
cristianismo. Um povo nasce de uma relação viva, real, não de uma proposta
abstrata. O cristianismo, por natureza,
comunica-se na situação concreta do ver-ouvir-tocar-abraçar. A isto se deve
a simplicidade da linguagem evangélica,
cheia de exemplos e de convites, que não
se limita a instruir, mas que quer envolver o coração. Quer construir uma
relação real entre Deus e aqueles que o escutam. Um Deus que o coração pode sentir: isso é o cristianismo para Bergoglio.
Um
fator controverso é a suposta descontinuidade de Francisco com seus
predecessores, pelo menos em nível pastoral. Esta é, na sua opinião, uma
leitura correta?
M. B.: Não. Na realidade, há um fio condutor que une Bergoglio com
Ratzinger e consiste na percepção de que o cristianismo, em um mundo cada vez
mais neopagão, só pode voltar a ocorrer se constituir um “encontro”. Assim
o afirma a Evangelii Gaudium no n. 7,
retomando o ponto n. 1 da Deus caritas
est, que diz: “Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma
grande ideia, mas pelo encontro com um
acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso,
uma orientação decisiva”. É um ponto de convergência importante, porque tanto
na vida como na fé, o ponto de partida decide tudo.
Este
é o ponto que Ratzinger e Bergoglio compartilham com dois grandes mestres e
educadores cristãos do século XX: Romano
Guardini e Luigi Giussani. Se o
cristianismo, hoje assim como há dois mil anos, recomeça a partir de um
“encontro”, e não da organização, da militância, da dialética, etc., então o testemunho vem em primeiro lugar. A re-presentação de Cristo no mundo é,
tanto para Bento como para Francisco, a tarefa essencial da Igreja no contexto
histórico atual, esse aspecto fundamental que o clericalismo esquece
dando-o como evidente.
Isso
quer dizer que o enfoque pastoral de
ambos os papas é o mesmo. A diferença, em todo caso, está no estilo. A
reserva e timidez de Bento XVI são diferentes do abraço físico de Francisco.
Esta dimensão de Bergoglio não é um dado que o caracteriza, mas o resultado de
uma maneira de entender a fé que nasce do espetáculo do povo crente na
geografia espiritual da América Latina. É o que dizia antes. A fé se alimenta dentro de um povo, de uma
comunidade viva, de uma proximidade real.
No
primeiro ponto da Evangelii Gaudium,
Francisco afirma: “O grande risco do
mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza
individualista”. Ou seja, o Ocidente
está afetado pela tristeza individualista. Neste sentido, sem dúvida há uma
diferença entre Francisco e Bento, porque há uma superação do enfoque
eurocêntrico que caracteriza a visão cultural do Papa Ratzinger. Com Francisco,
entra em cena a perspectiva de uma fé viva, atual, arraigada em um tecido
popular e solidário, que à senil Europa parece, pela influência iluminista, a
herança de um passado muito distante.
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PAPA FRANCISCO A evangelização compreendida como "encontro", como "experiência" com o Sagrado e não como mera assimilação de doutrinas e credos! |
Que
juízo merecem as reformas e inovações de Bergoglio (como o redimensionamento da
cúria, a sinodalidade, a atenção às “periferias” e a modernidade), à luz do
Concílio Vaticano II?
M. B.: São reformas que se inscrevem
na perspectiva aberta pelo Concílio Vaticano II. O redimensionamento da cúria –
a reforma mais difícil! – corresponde a uma política de economia e procede em
consciente oposição ao processo de
burocratização eclesial que imperou nas últimas décadas. A cúria deve
recuperar a sobriedade no desempenho de suas funções, evitando na medida do possível carreirismos e protagonismos que
prejudicam seriamente o ministério petrino. Neste sentido, a discrição que
caracteriza o atual secretário de Estado é um claro exemplo.
Outra
reforma refere-se ao exercício sinodal,
a forma que a autoridade deve assumir na
Igreja. Bento XVI já havia falado desse tema em uma entrevista concedida à
Rádio Vaticano de 5 de agosto de 2006, auspiciando um pontificado não
monárquico. O problema de superar a
forma “monárquica” e absolutista do papado é um ponto central de reflexão desde
o Vaticano II. Inclusive o diálogo com a Igreja ortodoxa, que acaba de
viver um momento culminante com o abraço entre Francisco e Kirill, requer uma
volta ao enfoque eclesial do primeiro milênio.
Quanto
ao encontro entre fé e modernidade, Bergoglio não tem dúvidas. Disse em várias
oportunidades: o Concílio Vaticano II
constitui o encontro entre a Igreja e o mundo moderno. É um ponto sem
retorno. Isso significa, em primeiro lugar, uma rejeição da teologia política, do uso político da religião. Com
respeito a Ratzinger, o matiz que distingue Bergoglio ao propor a relação entre
fé e modernidade consiste em que o moderno não é só europeu, mas também
latino-americano. A América Latina é um contexto onde a secularização não levou
à “privatização”, à solução individualista da fé.
Do
Iluminismo europeu resgata a clara distinção entre Igreja e Estado e o tema dos
direitos e liberdades. Ao contrário, rejeita
seu elitismo intelectualista, seu rosto não popular. Neste sentido, a perspectiva da “periferia” corrige a
perspectiva do centro. Mas trata-se de uma correção, de um ponto de vista
privilegiado, não de uma alternativa terceiro-mundista ao Ocidente. Quem interpreta
assim o Papa Francisco comete um grave erro. A visão de Francisco é “polar”, e uma polaridade fundamental é entre o
“centro” e a “periferia”.
No
magistério social, que ocupa uma parte importante do seu pontificado, a atenção
que o Santo Padre dá ao tema do meio ambiente e é sintetizado na Laudato si’, configura um espaço novo e
original. A ecologia passa a ser pela primeira vez objeto de interesse para a
Igreja ou neste sentido a encíclica é antes um ponto de chegada, embora seja
intermediário?
M. B.: A encíclica Laudato si’ [clique aqui para baixá-la e lê-la] é um documento que foi muito
criticado, mas pouco lido. Criticado pela direita liberal, sobretudo nos
Estados Unidos, porque interpreta o texto como um perigoso ataque contra a
doutrina do laisser-faire, contra a
doutrina do mercado acima de qualquer limitação ética ou jurídica. Na
realidade, a encíclica critica
severamente o “paradigma tecnocrático” que na era da globalização se impõe sem
limites. É o mesmo paradigma que leva a considerar os idosos, os embriões
com patologias, os doentes terminais, as pessoas com deficiências e os pobres
em geral como “descartados”, seres inúteis, não produtivos, pesos mortos para a
sociedade.
A
devastação ecológica de regiões inteiras do planeta é fruto de um modelo que
simultaneamente rejeita a humanidade débil e desprotegida. As correntes da
direita cristã que lutam contra o aborto e a eutanásia não captam este duplo
vínculo, e então são completamente liberais em matéria ecológica e ambiental,
subordinando-se aos interesses do neocapitalismo mundial. Como afirma a Laudato si’ no número 117: “Quando, na própria realidade, não se
reconhece a importância de um pobre, de um embrião humano, de uma pessoa com
deficiência – só para dar alguns exemplos –, dificilmente se saberá escutar os
gritos da própria natureza. Tudo está conectado”.
Em
sua análise do paradigma tecnocrático como módulo dominante na economia das
últimas décadas, Bergoglio se deixa guiar pela reflexão sobre o poder na era da
técnica desenvolvida por um de seus autores preferidos, Romano Guardini. A Laudato
si’ está cheia de citações de Guardini.
Por
último, observamos que a importância da questão ecológica como problema
planetário começa em Bergoglio de sua clara consciência de que os países da “periferia”, da África, da
América Latina, etc., se converteram no depósito de lixo do mundo. O que o
Ocidente protege para si mesmo, com a proteção da natureza e do meio ambiente,
é destruído nos países mais pobres, que
sofrem a exploração indiscriminada de seus recursos, o desmatamento, a
contaminação da água e do ar e a reciclagem de resíduos tóxicos. A questão
ecológica afeta diretamente as periferias, os subúrbios do planeta, não as
verdes campinas do mundo rico.
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PAPA FRANCISCO ABRAÇA O PATRIARCA RUSSO-ORTODOXO KIRILL Em Havana (Cuba) antes da viagem aos Estados Unidos Sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016 |
Com
relação à diplomacia vaticana. Um grande êxito de Francisco foi ter posto paz
entre Cuba e os Estados Unidos depois de 50 anos. Paralelamente, está
trabalhando na frente ecumênica ortodoxo-católica (é histórico o seu encontro
com o patriarca Kirill), e também para salvar o Oriente Médio do abismo e os
cristãos medio-orientais da perseguição. A que novo ordenamento geopolítico
poderia levar o trabalho diplomático do Papa?
M. B.: Sem dúvida há três questões
sobre o tapete. A primeira: apoiar o processo de distensão entre o Leste e o
Oeste, entre a Rússia e o Ocidente, para evitar um conflito cujos resultados
seriam catastróficos. O abraço entre
Francisco e Kirill tem um valor geopolítico enorme. Assim como teve, na sua
época, a mão que Francisco estendeu a Putin com sua oração em São Pedro pela
paz na Síria, para frear o projeto estadunidense de intervir diretamente na
guerra contra Assad. Sem avalizar os planos hegemônicos do Kremlin, o Papa contribuiu para que a Rússia pudesse
sair do beco sem saída em que perigosamente a haviam encurralado.
A
segunda questão está relacionada com a anterior. Trata-se de apoiar todos aqueles fatores que possam
favorecer processos de paz na Síria e no Oriente Médio, para proteger os
cristãos e os próprios muçulmanos. O respeito que Francisco mostra pelo Islã,
junto com a firme crítica contra o fundamentalismo religioso, tem como objetivo a convivência pacífica
dos povos. Sobretudo os que estão sendo desgarrados por trágicas guerras
civis. É o que a direita cristã não entende, aferrada ao cenário teocon [neologismo que une Theós = deus, em grego, com con de “conservadorismo”; portanto,
católicos de posições conservadoras] do enfrentamento entre o Islã e o
Ocidente.
A
terceira questão importante para o Papa é a China. O sonho de relações
diplomáticas plenas, que garantam a completa liberdade do catolicismo chinês,
é sem dúvida um dos grandes desejos de Francisco. Já foram dados passos
importantes e sinais de respeito recíproco. O futuro está nas mãos de Deus.
Também neste caso, uma relação plena ajudaria para o encontro entre o Ocidente
e o Oriente, que sempre redundaria em benefício da paz no mundo.
A
informalidade deste Papa, seus frequentes discursos improvisados, a facilidade
com que dá entrevistas, também são objeto de polêmica. Em definitiva, que tipo
de linguagem utiliza?
M. B.: É uma linguagem simples
acompanhada pela linguagem do rosto, das mãos, do corpo. Em seu livro O sonho do Papa Francisco, o Pe. Antonio
Spadaro descreve muito bem este aspecto do testemunho papal: “Bergoglio – afirma Spadaro – ‘habita’ a palavra que pronuncia. Assim
como ele não é capaz de viver sozinho, mas necessita de uma comunidade, da
mesma maneira sua palavra tem necessidade de assumir uma forma para aqueles que
tem diante de si. Nunca é pronunciada porque é bela, mas porque é capaz de
construir uma relação com o Evangelho. A palavra de Bergoglio é filha do
sermão humilde de Santo Agostinho, porque quer
ser uma ‘palavra-casa’, bela, acessível e clara, ‘suave’. Por isso, sempre
se caracteriza pela oralidade, pelo diálogo, mesmo que esteja escrita. As
palavras tomam corpo”.
Com
relação à “informalidade” do Papa, Spadaro recorda que para Francisco ser “normal” é uma condição do ser cristão. Este
homem, que hoje se converteu em um ícone midiático mundial, rejeita todos os
clichês das “estrelas”, em primeiro lugar fazer alarde de distância e de
excepcionalidade. O Deus semper maior
[cada vez maior] entrou no mundo como um Deus absconditus [oculto], que participa plenamente da normalidade da
vida. Como a famosa imagem do Papa que sobe as escadas do avião levando ele
mesmo sua pasta preta.
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MASSIMO BORGHESI Filósofo italiano e Professor da Universidade de Perugia (Itália) - Entrevistado |
Nunca
um Papa recebeu tantas críticas precisamente no mundo católico. Na sua opinião,
são críticas puramente ideológicas ou nascem de interesses concretos que
Francisco coloca em discussão?
M. B.: As duas coisas. Não há dúvida de que as reformas e o estilo
de vida do Papa podem incomodar, momentaneamente, privilégios e carreiras
construídos em base a sólidos interesses. Na Igreja, o clericalismo e a burocracia
caracterizaram as últimas décadas. A desorientação diante de um Papa que
utiliza um carro comum é bastante grande. Neste caso, o melhor ataque é
acusá-lo de demagogia, de populismo, de buscar o aplauso das multidões. Na realidade, por trás das críticas não é
difícil entrever a busca de cargos e ambições. Por isso, muitos esperam
atrás de uma janela a passagem do ciclone [Francisco] e que tudo volte a ser
como era antes. Enquanto isso, [para alguns] é suficiente atualizar a linguagem
eclesiástica – as “periferias”, os “últimos”, a “misericórdia” – sem que nada
mude realmente.
Por
outro lado, é preciso entender que hoje
Francisco é a única voz relevante, em nível mundial, que se opõe
verdadeiramente à “ideologia” da globalização, ao dogma de um sistema econômico
que dissolveu a esfera política e criou antíteses profundas dentro e entre os
Estados. Diferenças que são a premissa para enfrentamentos, violências e
guerras futuras. Atenuar os contrastes
sociais é um imperativo para a paz no mundo; é isso que Francisco tem em
mente.
O liberalismo econômico, sem freios, não construiu a unidade do
mundo, mas todo o contrário. Na sociedade, criou a dupla
exclusão de idosos e jovens sem trabalho. Os dois polos da sociedade, os
idosos – que são a memória de um povo – e os jovens – que são seu futuro, sua esperança
–, são os excluídos, os “descartados” em um
mundo obcecado pelo seu próprio presente. Nisto consiste a atual decadência
do mundo, que já não tem uma visão de seu próprio futuro porque cortou as
raízes de seu próprio passado. Bergoglio não é um “progressista” iluminista. Sabe que não há progresso se não se
proteger a memória popular, a memória dos “avós”, que não devem ser
enxotados em casas geriátricas, mas que devem proteger os seus netos.
A direita católica,
subordinada à direita liberal, não compreende a riqueza deste enfoque. Acusam o Papa de ser
“modernista” e não compreendem que fazem
o jogo de um neocapitalismo
individualista e cínico, primeira causa da “revolução antropológica” que
hoje dissolve toda certeza moral. Esta incapacidade para identificar o
verdadeiro adversário é o ponto fraco de um pseudopensamento católico que
perdeu as coordenadas para compreender o mundo atual.
Traduzido do italiano por André Langer. Para acessar a versão
original desta entrevista, clique aqui e aqui.
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