Igreja cometeu "erros enormes" sobre pedofilia, diz cardeal
Edison Veiga
George Pell reconheceu que em vários
casos não se acreditou nas
crianças e que padres eram transferidos de uma
paróquia a outra
![]() |
CARDEAL GEORGE PELL Australiano e Prefeito da Secretaria de Economia do Vaticano |
Um
dia depois de o Oscar de melhor filme ter ido para Spotlight: Segredos Revelados
- que retrata uma investigação jornalística sobre crimes de pedofilia
praticados por padres -, o cardeal
australiano George Pell foi recebido, nesta segunda-feira, 29 de fevereiro,
em audiência reservada pelo papa Francisco. No domingo, Pell prestou depoimento a uma comissão de investigação da
Austrália e admitiu que, em casos de pedofilia, “a Igreja cometeu erros
enormes”.
Não
foi revelado o conteúdo da conversa entre o sumo pontífice e o cardeal, que é o
atual prefeito da Secretaria de Economia do Vaticano e já foi arcebispo de
Melbourne e de Sydney. Quando chegou ao Hotel
Quirinale para mais um depoimento
via videoconferência, ele afirmou que tinha total apoio do papa Francisco.
Em seu depoimento no domingo, realizado via videoconferência de Roma à Comissão Real da Austrália sobre a Resposta
Institucional ao Abuso Sexual Infantil, ele afirmou que o padre Gerald Ridsdale, acusado por
dezenas de casos, “foi transferido de
paróquia em paróquia em vez de ser denunciado à polícia pelos crimes”. Na avaliação do cardeal, a medida teria
sido “catastrófica”.
Pell
também afirmou que, muitas vezes, faltou
acreditar no que diziam as crianças e que a Igreja teria feito “besteiras”.
Ele, entretanto, negou que tivesse qualquer conhecimento das práticas de
pedofilia de Ridsdale na diocese de Ballarat - ali, eles foram colegas entre
1973 e 1983. Também no depoimento, o cardeal admitiu que havia boatos de que
outro sacerdote, John Day, abusava
de menores na mesma diocese. A Igreja, segundo Pell, “estava fortemente
propensa” a desmentir qualquer acusação. “Não estou aqui para defender o
indefensável”, afirmou o cardeal. “A
Igreja cometeu erros enormes e causou graves danos em muitos lugares,
desiludindo fiéis. Mas está trabalhando para remediar.”
O depoimento de Pell durou quatro horas -
ele repetiu diversas vezes que sua “frágil memória” não lhe permitia recordar
datas precisas dos fatos. O cardeal, que tem 74 anos, não pôde viajar à
Austrália por motivos de saúde. Sobre
ele, vale ressaltar, não pesa nenhuma denúncia de que tenha cometido abusos -
seu depoimento tem como objetivo determinar as práticas e respostas adotadas
pelas instituições católicas australianas diante das denúncias de pedofilia
entre os anos 1970 e 1980 no país. Antes, Pell já havia se desculpado duas
vezes pelos abusos cometidos por outros sacerdotes católicos. Padre Risdsdale foi condenado pela Justiça
australiana por 138 crimes contra 53 menores.
Vencedor
da estatueta principal do Oscar no domingo, Spotlight:
Segredos Revelados, de Thomas
McCarthy, mostra uma investigação jornalística justamente sobre a prática
da Igreja de transferir padres suspeitos de pedofilia para outras dioceses, com
o intuito de abafar as denúncias.
Os
abusos sexuais cometidos por membros da Igreja vieram à tona em 2002, quando se
descobriu que bispos da área da cidade
norte-americana de Boston transferiam os estupradores de uma paróquia a outra
em vez de expulsá-los. Desde então foram revelados escândalos semelhantes
em todo o mundo, e dezenas de milhões de dólares já foram gastos em
indenizações.
![]() |
Cardeal George Pell dá depoimento por videoconferência à Comissão Real da Austrália sobre a Resposta Institucional ao Abuso Sexual Infantil Hotel Quirinale - Roma, 28 de fevereiro de 2016 |
Segundo
dia
Na noite desta segunda
horário de Brasília, manhã de terça-feira na Austrália, o purpurado depôs pela
segunda vez à comissão de Justiça australiana. Foi duramente questionado sobre como ele
poderia não ter sabido que padre Ridsdale estava abusando de crianças, uma vez
que eram da mesma diocese.
Em
determinado período, Pell atuou como consultor do bispo de Ballarat, Ronald Mulkearns - e nesta condição,
ele tinha reuniões periódicas com a autoridade, chegando a aconselhá-lo sobre a
movimentação dos sacerdotes entre as paróquias de sua jurisdição. De acordo com a comissão, em uma reunião de
1982, na qual Pell estava presente, o bispo Mulkearns afirmou ter conhecimento
dos abusos de Ridsdale. Foi nesta reunião que ficou decidido que o padre
seria transferido, pela sexta vez, de paróquia.
Pell
manteve sua versão. Afirmou que apesar do "conhecimento generalizado"
do comportamento de Ridsdale, a ele nada foi dito e ele nada sabia. O purpurado
enfatizou esse desconhecimento, mesmo confirmando que foram colegas de paróquia
e viveram sob o mesmo teto, em Ballarat. "Nunca soube que ele estava abusando de crianças", afirmou
Pell.
Em
um dos momentos mais controversos do depoimento, Pell disse à comissão que o
comportamento criminoso de Ridsdale era "uma
história triste e sobre a qual nunca me interessei muito".
O
cardeal disse que não acredita que pessoas que desconheçam abusos, como é o
caso dele, devam ser responsabilizadas por não proteger as crianças, rebatendo
assim a afirmação da comissão de que ele
estava "se excluindo das responsabilidades".
Pell
também negou aceitar qualquer responsabilidade pelo fato de que Ridsdale foi
transferido de uma paróquia para a outra em vez de ser banido da Igreja. Quando
foi colocada a situação de que era improvável que ele não soubesse que a razão
pela qual o sacerdote estava sendo transferido frequentemente de paróquia eram
os abusos sexuais que ele cometia contra crianças, Pell respondeu que a
colocação era "completamente non-sense".
George
Pell
Cardeal
desde 2003 e nomeado prefeito da Secretaria
de Economia do Vaticano - uma espécie de Ministro da Fazenda - em 2014, Pell já foi apontado como um dos principais
opositores do papa Francisco, adjetivo que ele nega. Membro do chamado C9,
grupo de cardeais consultores que colaboram com o sumo pontífice nas reformas
dentro da Vaticano, o australiano foi um dos signatários da carta enviada ao
papa dias antes da abertura do Sínodo dos Bispos sobre a Família, encontro da
alta cúpula da Igreja ocorrido em outubro, no Vaticano.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Metrópole ∕ Brasil – Terça-feira, 1 de março
de 2016 – Pág. A16– Internet: clique aqui.
Bispos convidam a assistir
"Spotlight: segredos revelados".
Entrevista
com Hans Zollner
Padre jesuíta, membro da Pontifícia
Comissão para a Proteção dos Menores e presidente do Centro de Proteção de Menores
da Gregoriana
Fabio
Colagrande
Rádio
Vaticano
![]() |
HANS ZOLLNER Padre jesuíta alemão membro da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores |
"Papa Francisco, está
na hora de proteger as crianças e restaurar a fé". Assim se expressou Michael Sugar, produtor do "Spotlight, segredos revelados", vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2016,
recebendo a estatueta, no palco da Academy
Awards. O filme é dedicado a jornalistas do jornal Boston Globe, que há 14 anos
revelaram inúmeros casos de abuso contra menores cometidos por sacerdotes.
Percebe-se
que certamente o produtor, como todos os que se envolveram na produção do
filme, esforçaram-se para transmitir essa mensagem, uma mensagem conexa com o
conteúdo narrado no filme, uma
repreensão para que a Igreja faça o que tinha sido encaminhado desde 2002,
exatamente no tempo dos eventos narrados. Desde o final dos anos 90, o Cardeal Ratzinger, prefeito da
Congregação para a Doutrina da Fé, tinha
percebido que a Igreja não podia mais tolerar esses abusos, nem tolerar a
cobertura dada pelos bispos. E assim, Joseph Ratzinger, depois como Papa Bento XVI, deu grandes passos no
sentido de tornar a Igreja transparente e comprometida na luta contra os
abusos. Depois dele, o Papa Francisco
continuou na mesma linha, reforçando ainda mais as leis da Igreja e criando a Pontifícia Comissão para a Proteção dos
Menores.
Algumas
medidas já foram postas em prática e aguardamos ulteriores desenvolvimentos
nesta mesma linha, certamente com uma clara mensagem de que a Igreja Católica,
em suas lideranças, percebe a gravidade da situação e quer, e precisa,
continuar na luta pela justiça e para que não haja mais vítimas.
Podemos
dizer, então, que desde os acontecimentos apresentados no filme até à data de
hoje, muita coisa foi feita pela Santa Sé e pelas Igrejas locais, em todo o
mundo, para a proteção dos menores?
Pe. Hans Zollner: Sim, o que a Santa Sé fez é
bastante evidente: temos outras normas, leis mais rigorosas, cartas encíclicas
da Congregação para a Doutrina da Fé pedindo a todas as Conferências Episcopais
seus projetos, suas linhas mestras traçadas com orientações de como encontrar
as vítimas, o que fazer com os abusadores e como trabalhar para prevenir os abusos.
Muito foi feito pela Santa Sé, e também por algumas Igrejas locais.
Por
isso, um filme como este, e até mesmo as
palavras ditas na cerimônia de premiação, certamente darão um novo impulso ao
trabalho que, por exemplo, iniciamos em 2012, aqui na Universidade Gregoriana, com uma conferência internacional, um Simpósio, “Rumo a cura e a renovação",
com a participação de 110 bispos de todas as Conferências Episcopais do mundo,
um primeiro passo, inclusive para as áreas da África e da América Latina, onde o
tema, naquela época, ainda não tinha chegado. Com a criação do Centre for Child Protection, o Centro para a Proteção de Menores,
queríamos trabalhar na construção, aos poucos, de uma jurisdição local, isto é,
pessoas que saibam reagir, criar espaços
seguros, para crianças e adolescentes...
![]() |
FILME GANHADOR DO OSCAR DE "MELHOR FILME" é recomendado a todos os cristãos, católicos, inclusive bispos e padres. |
Como
os clérigos que estavam - e estão - empenhados no combate aos abusos receberam
o filme?
Pe. Hans Zollner:
Uma voz
autorizada é aquela do Arcebispo de
Malta, Dom Charles Scicluna, por dez anos promotor de justiça, sempre
empenhado na perseguição dos crimes cometidos pelos padres. Ele disse publicamente, há poucos dias, que
gostaria de recomendar a todos, mesmo aos bispos, de assistirem ao filme. A
mesma coisa disse um bispo australiano... Portanto, há um grande apreço pelo filme e, é claro, um apreço pela mensagem e
pela forma como a mensagem é transmitida.
Estes
bispos recomendaram aos seus irmãos de assistirem ao filme, o que significa um forte convite a refletir e levar a sério
sua mensagem central, a saber, que a Igreja Católica pode e deve ser
transparente, justa e comprometida na luta contra o abuso, e que deve empenhar-se, a fim de que esses crimes
não voltem a se repetir. É importante compreender que temos que mudar nossa
atitude, que em italiano pode ser expressa na famosa palavra omertà [silêncio]. Não falar, querer resolver tudo varrendo pra debaixo do tapete,
esconder-se e pensar que tudo vai passar. É preciso entender que não
passará. Temos de compreender que, ou com muita coragem enfrentaremos as
coisas, olhando-as na cara, ou um dia, mais cedo ou mais tarde, estaremos sendo
obrigados a fazê-lo. É esta, penso eu, uma das mensagens centrais.
Traduzido do italiano por Ramiro Mincato. Acesse a versão
original desta matéria, clicando aqui.
Comentários
Postar um comentário