D E S C R É D I T O ! ! !
É hoje o dia. Ou não
Dora Kramer
É grande, mas relativo o peso das manifestações no
destino do governo
Já
começo pedindo licença para nadar contra a corrente. Seja qual for a quantidade
de gente que vá às ruas hoje protestar contra governo e o PT, não são os
protestos o fator determinante para os destinos da presidente Dilma Rousseff e
seu partido. Não se trata de excluir as manifestações do rol desses fatores,
mas de ponderar que o peso é relativo.
De
2013 para cá, sempre que ocorreram protestos houve também a expectativa de que
“as ruas” comandassem o rumo dos acontecimentos. O fato de a sociedade se
manifestar pesou. Deu vozes e rostos à crescente insatisfação popular captada
pelas pesquisas de opinião. Mas o tamanho ou a intensidade dos atos não foi o
que determinou o desenrolar dos acontecimentos nesse período.
O
último deles, por exemplo, realizado em dezembro do ano passado, teve uma
participação aquém das expectativas dos organizadores a despeito de já contarem
com a adesão dos políticos e partidos de oposição. Interpretou-se, na ocasião,
que a adesão menor que das anteriores significava um alento para o governo e
sinalizava a perda de força da possibilidade de impeachment.
Depois
disso o que se viu foi uma verdadeira derrocada nas condições objetivas de
sustentação do governo, pautada pelo avanço das investigações do Ministério
Público, ações da Polícia Federal e decisões do Poder Judiciário. Nesse meio
tempo, entre dezembro e março, não houve protestos de rua e o processo do
impeachment esteve paralisado no Congresso por determinação do STF. No entanto,
a situação se deteriorou.
E
pelo andar da carruagem continuará nesse ritmo de ladeira abaixo independentemente
da vontade de quem quer que seja: detratores ou defensores do governo. O
processo agora é completamente diferente daquele que levou à queda de Fernando
Collor, de cunho eminentemente político e, portanto, dependente do respaldo da
sociedade. Ainda que por hipótese absurda ninguém aderisse às manifestações
convocadas para hoje, o Planalto nem de longe poderia sentir-se aliviado.
As
ruas, cumpre reiterar, são importantes. Mas hoje determinantes são as delações
premiadas dos representantes de empreiteiras, o curso da Lava Jato de um lado
e, de outro, as investigações que envolvem Lula da Silva, bem como as decisões
que vier a tomar o ministro Teori Zavascki no Supremo. Seja em relação a
determinações judiciais de primeira instância ou aos detentores de foro
especial, dito privilegiado.
Golpes de mão
Qualquer tentativa de mudar o regime de governo de presidencialista
para parlamentarista como solução para a atual crise é casuísmo. Golpe de mão.
Só há saída decente na lei em vigor: renúncia, impeachment ou cassação da chapa
por abuso de poder econômico na campanha eleitoral.
Vale
lembrar as excelências adeptas dessa via meia-sola, a existência de uma decisão
a respeito do assunto datada de 1993 e tomada em plebiscito popular que optou
pelo presidencialismo. Fora de qualquer contexto razoável meia dúzia de
parlamentares revogar posição assentada por milhões de cidadãos.
Se
for o caso de propor uma mudança de regime para melhorar o sistema que se faça
direito, com rito e tempo previstos.
Desse
critério de legalidade estrita foge a excêntrica ideia de nomear Lula para um
ministério com a finalidade de matar dois coelhos de uma vez: protegê-lo das
decisões judiciais de primeira instância e abrir espaço para que ele assuma uma
ofensiva governamental de recuperação. Em outras palavras, tomar a frente do
governo deixando a presidente em papel decorativo.
Um
autêntico golpe de mão no mandato de Dilma.
Fonte: O Estado de S. Paulo
– Política
– Domingo, 13 de março de 2016 – Pág. A6 – Internet: clique aqui.
Fiapos de esperança
Eliane
Cantanhêde
Todos os lados sabem que não dá mais para esperar, está
se tornando
uma questão de vida e morte – sobretudo para o País.
Se
causou espanto o pedido de prisão preventiva de Lula por três promotores de São
Paulo, não é menos surpreendente o
procurador Rodrigo Janot pedir a abertura do sétimo inquérito contra o
presidente do Senado, Renan Calheiros, justamente na sexta-feira à noite.
Terá sido por acaso? Ou confirma o desespero de quem sabe que o governo não tem
mais jeito?
Mesmo
ministros do Supremo, tão escaldados, estranharam a oportunidade do pedido de
Janot, horas antes da convenção em que o
PMDB colocaria o pé fora do governo e dois dias depois do jantar em que
pemedebistas e tucanos selaram um pacto de união para tocar o País após a queda
de Dilma Rousseff – considerada favas contadas.
Dilma
afundava na Câmara e contava com Renan no Senado, mas até essa boia furou,
quando Renan concluiu que ela não tem condições de concluir o mandato. Daí a
entrada em campo dos profissionais da política, no PMDB e no PSDB, para não
deixar o País cair no vácuo. Pode até
ser injusto, mas a leitura em Brasília é que Janot parece dar um aviso a Renan:
se ele se “comportar bem”, a pressão continua só em cima de Eduardo Cunha, mas,
se ele abandonar Dilma no oceano da ingovernabilidade, aí tem troco.
É
mais um lance para confirmar a situação crítica de Dilma, que se agarra a boias
furadas e a fiapos de esperança para tentar se segurar no mandato até 2018. Renan é a boia furada e o ex-presidente
Lula é o fiapo de esperança, numa falsa escolha de Sofia. Se Dilma não
nomear Lula para “primeiro-ministro”, seu governo acaba. Se nomear, acaba
também.
Dilma,
Lula e o PT, portanto, entram na fase do desespero, enquanto o País mantém a
interrogação e o mundo político começa a preparar a resposta para essa
interrogação. Todos os lados sabem que
não dá mais para esperar, está se tornando uma questão de vida e morte –
sobretudo para o País.
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MANIFESTAÇÃO NA AVENIDA PAULISTA - SÃO PAULO Em todo o país, estima-se em, ao menos, 5 milhões de manifestantes nas ruas pedindo o afastamento da Presidente Dilma! |
É por desespero que a
presidente da República faz algo raiando ao patético: chama a imprensa para
negar que vá renunciar! Quem não imaginava a possibilidade passou a considerá-la. Assim como
atraíra antes para dentro do Planalto a palavra “impeachment”, Dilma agora carimba na sua testa o termo “renúncia”.
É
uma forma elementar de autoenfraquecimento e com um detalhe que piora tudo:
ares de soberba. “Testemunharam que não
tenho cara de renúncia?”, disse aos jornalistas, de nariz em pé, ironizando
a versão – dada pelos seus próprios assessores, diga-se – de que esteja “resignada”
com o triste fim da primeira mulher eleita presidente no Brasil. Um desastre.
Presidente de um país
afundado em crises, à frente de um governo que não governa, rechaçada pelo PT,
abandonada pelo PMDB e o PSB, rejeitada pela sociedade, em confronto aberto com o
Congresso, amparada melancolicamente por Jaques Wagner e José Eduardo Cardozo –
que não têm alternativa –, resta a Dilma
agora jogar a toalha, resignada ou não, e ceder a cadeira e o comando para Lula.
Mas...
se não se pode subestimar o carisma e a genialidade política de Lula, também
não se deve superestimar um ex-presidente que sacoleja, desengonçado, dentro de
um lava-jato: depoimento de horas à PF, condução coercitiva determinada pela
Justiça, até um atrevido pedido de prisão preventiva feito por promotores
estaduais.
Que
Dilma está acabada, não há dúvida. Mas será que Lula tem condições de virar o
jogo, recuperar o respeito do Congresso, a confiança do empresariado, a
idolatria da maior parte da população e fazer o ajuste fiscal, salvar o
governo, a própria pele e, enfim, o País?
Tem
muita gente boa acreditando que sim, mas há controvérsias, porque a única coisa
visível nesse movimento mirabolante é o desespero de quem não tem saída, o derradeiro esperneio antes da, digamos,
“resignação”. É muita mágica para um mágico tão combalido. E com o povo na
rua!
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