“Para se reinventar, o PT precisa sair do poder”
Entrevista com Daniel Aarão Reis
Professor do curso de História na Universidade Federal
Fluminense (UFF) e estudioso da esquerda
Débora Melo
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DANIEL AARÃO REIS Historiador e pesquisador sobre a esquerda política |
Com a
proximidade da votação do pedido de impeachment
na Câmara, a presidenta Dilma Rousseff negocia com a base as condições para
evitar que aliados desembarquem do governo.
Para o
historiador Daniel Aarão Reis, que
colaborou com a fundação do PT e hoje é crítico ao partido, a cláusula
constitucional que permite o impeachment
é “essencialmente antidemocrática”, mas a
presidenta precisa esclarecer de que forma pretende continuar conduzindo o
País. “A grande questão é a seguinte: Dilma quer se manter no poder para que,
exatamente? Ela não está fazendo o tipo de política com a qual se
comprometeu no segundo turno. Vai fazer agora?”, questiona.
Em entrevista a
CartaCapital, o historiador defende
que, diante de um cenário de perda de identidade política, uma “cura de oposição” faria bem ao PT.
Professor do
curso de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), Aarão Reis afirma
que a corrupção está na essência do
sistema político e só poderá ser combatida a partir de uma profunda reforma
política. “Um mínimo de isenção nos
leva a concluir que o nosso sistema político acoberta e incentiva a corrupção
em escala industrial”, diz.
Leia a íntegra
da entrevista, concedida por e-mail:
CartaCapital:
Na sua avaliação, a presidenta Dilma Rousseff tem condições de escapar do impeachment?
Daniel Aarão Reis: Em tese, sim, sobretudo acionando a capacidade de
articulação do Lula. Embora desgastado, o homem tem notórias habilidades. Outro
aspecto favorável é a divisão do PMDB, com a rivalidade entre Renan [Calheiros
– Presidente do Senado] e [Michel] Temer. Recorde-se que, mesmo que a Câmara
considere admissível o impeachment,
será necessário ter maioria no Senado. Nesta altura, a definição do PMDB parece decisiva. Se rachar, a Dilma mantém chances.
Se se colocar como um bloco, as chances do impeachment
crescem bastante.
CC: Para
escapar do afastamento, a presidenta precisa de apoio no Congresso. A forma
como o PT conseguiu esse apoio ao longo dos anos foi um dos fatores que nos
trouxe à atual condição. Como, então, buscar esse apoio?
D.A.R.: Essa cláusula constitucional de “impedir” um
presidente eleito pelo povo por meio do Congresso é essencialmente
antidemocrática. A instituição
democrática para esses casos é o “recall”, ou seja, você convoca novamente o
eleitorado para decidir. Acontece que a cláusula do impeachment pelo Congresso foi usada – e abusada – pelo PT
anteriormente. Assim, o PT e o governo estão fragilizados para fazer a defesa
da ilegalidade do impeachment.
O PT construiu uma tradição de maiorias obtidas por
cargos e favores, quando não, através de meios heterodoxos. Numa situação política crítica como a que vivemos,
essas benesses vão perdendo a capacidade de atração, inclusive porque os
sucessores de Dilma podem oferecer – e já estão oferecendo – benesses tão ou
mais tentadoras.
Já estão transbordando nos jornais as articulações
entre Aécio, Serra, Temer e companhia. Dividem cargos e programam um futuro pós-Dilma. Pode ser que tudo volte
atrás, pode ser que se aprofunde. Vai
depender muito de como agirão os aliados do governo e de como se comportarão as
pessoas nas ruas. Com o PMDB não há alianças sólidas. As alianças com o PMDB são "infinitas enquanto duram",
enquanto duram os postos e os cargos. São sempre alianças com o governo...
CC: O governo
está abalado, entre outras coisas, pela Operação Lava Jato. Ao nomear para a
Casa Civil o ex-presidente Lula, que está no foco das investigações, a
presidenta não traz a crise ainda mais para o centro do governo?
D.A.R.: Penso que foi muito infeliz a nomeação do Lula. Ele
poderia acionar sua capacidade de articulação mesmo sem ser ministro. No
limite, se fosse preso, porque a hipótese não podia mesmo ser descartada,
sairia como um mártir, tal a arbitrariedade, nas condições atuais, de uma
decisão como essa. Dilma e Lula, e os
demais dirigentes do PT, às vezes parecem sem a serenidade e o sangue frio que
exige a situação crítica atual. As gravações os mostram muito nervosos e
tendo comportamentos erráticos. Não são atitudes adequadas para enfrentar os
perigos que enfrentam.
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ATO DE FUNDAÇÃO DO PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT): Colégio Sion - São Paulo (SP), 10 de fevereiro de 1980 |
CC: Caso Dilma
reaja e sobreviva, como o senhor enxerga o futuro do governo? O que a
presidenta pode propor, o que ela pode salvar?
D.A.R.: Dilma enfraqueceu-se muito com a guinada à direita
que deu logo depois de eleita. Criticou contundentemente os adversários como
candidatos de “banqueiros”. Ora, basta
ver a sua prestação de contas entregue ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral)
para ver como os bancos e as empreiteiras contribuíram para sua campanha.
Por outro lado, escolheu como ministro da Fazenda um grande banqueiro – que acabou
não aceitando, indicando o triste Joaquim Levy...
As políticas adotadas por ela configuram um
estelionato eleitoral.
Trata-se de algo que já vai virando uma tradição na República pós-ditadura:
Sarney, Collor e FHC o praticaram alegremente. Mas Dilma, ao reiterar o comportamento, fragilizou-se muito perante
suas bases sociais e eleitorais. Imaginou que isso “sossegaria” as
oposições. Não surtiu efeito. Assim, ela não conseguiu apoio das elites e
perdeu suas bases. Ficou numa situação muito complicada.
Muitos
manifestantes contra o impeachment
estão deixando claro que não são pró-Dilma, mas é uma posição também difícil de
ser defendida. A grande questão é a
seguinte: Dilma quer se manter no poder para que, exatamente? Para fazer
que tipo de política? Ela não está
fazendo o tipo de política com a qual se comprometeu no segundo turno. Vai
fazer agora? Se esse é o caso, precisaria esclarecer. Mas ela manteria o
apoio de Sarney e de Renan? É um mato sem cachorro...
CC: Em um
eventual impeachment, qual seria o
papel do PT como oposição? Ou o PT não seria oposição?
D.A.R.: Bem, se o impeachment
for aprovado, não parece razoável imaginar o PT apoiando um governo fruto do impeachment. Teria que ir para a
oposição, certamente. E isso poderia fazer bem ao partido. Tendo-se lambuzado no poder, como disse o Jacques Wagner, uma “cura de
oposição” faria bem ao PT.
Eu diria que, para se reinventar, o PT precisa sair do
poder. Como já aconteceu com muitos partidos populares na história, e mesmo
na história do Brasil, participar do
poder apenas para gerenciar a ordem dominante é receita certa para perder a
identidade política. E o que é mais importante para um partido político do
que manter sua identidade?
CC: Ainda
pensando em um eventual cenário de impeachment,
há risco de radicalização do PT, caso o partido e a militância acreditem que
foram afastados do governo por um processo não legítimo?
D.A.R.: A rigor, a
radicalização está aí, já instalada. Como disse o (escritor Luis Fernando)
Veríssimo, estamos esperando o primeiro morto. As direitas parecem-me, aliás,
bem mais radicalizadas e agressivas do que as esquerdas, insultando e batendo
em pessoas nas ruas, nos restaurantes e até em hospitais. O triste é que essa radicalização não se dá em torno de plataformas programáticas, mas em torno
da questão da corrupção.
Ora, um mínimo
de isenção nos leva a concluir que o
nosso sistema político acoberta e incentiva a corrupção em escala industrial.
O PT, neste caso, foi o último a aderir, embora não lhe tenha faltado gula. A
luta pela corrupção deve continuar, evidentemente. Mas o nó da questão é a reforma política, em profundidade, do atual sistema.
Enquanto esse sistema estiver aí, teremos corrupção em grande escala.
CC: Que
previsão o senhor faz para o futuro da esquerda brasileira? Independentemente
do desfecho, como a herança do PT será absorvida?
D.A.R.: O PT, com suas políticas de conciliação, foi
responsável por alguns avanços notáveis, enquanto durou a conjuntura de grande
prosperidade. A inclusão social e uma série de políticas de defesa e
“empoderamento” das camadas populares, das maiorias negras e pardas e dos mais
pobres tiveram resultados apreciáveis.
Ao mesmo tempo,
contudo, o PT estabeleceu relações
carnais com as grandes empresas, os bancos e as empreiteiras, e isso
representou uma perda muito grande para as esquerdas brasileiras, em geral,
porque o PT, inegavelmente, tornou-se o maior e o mais representativo partido
das esquerdas brasileiras.
Resta às forças
alternativas, inclusive àquelas que ainda estão no interior do PT, formular
plataformas de reforma política. Crises
podem enfraquecer e até serem fatais. Mas podem ser também “janelas de oportunidade”.
A ver se as esquerdas alternativas estarão à altura dos grandes desafios que a
crise tem apresentado.
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