O que significa Lula ministro da Casa Civil?

Acabou o governo de Dilma, recomeça
aquele de Lula

Eliane Cantanhêde

O ex-presidente Lula superestimou a sua força e subestimou a gravidade da situação ao tentar uma manobra radical para tentar salvar, ao mesmo tempo, a própria pele e o mandato de Dilma Rousseff.
PRESIDENTE DILMA ROUSSEFF
Discursa na cerimônia de posse de Lula como Ministro-Chefe da Casa Civil
Palácio do Planalto (Brasília - DF), 16 de março de 2016

Lula, que sempre achou que podia tudo, avaliou que assumiria, de fato, o lugar de Dilma, reverteria o jogo e voltaria ao poder, de direito, nos braços do povo. Deu tudo errado.

Se pecou pela ousadia sem limite, a nomeação de Lula para um terceiro mandato indireto – ou “mandato tríplex”, na irreverência de Brasília – foi também de uma inoportunidade irritante: apenas três dias depois de milhões de pessoas saírem às ruas contra Lula, Dilma e PT. Elas gritaram “fora Lula” e Dilma fez o oposto, botou Lula para dentro do Planalto, desdenhando da Justiça e das investigações da Lava Jato.

Os manifestantes reagiram voltando às ruas, cercando o próprio Palácio do Planalto e reacendendo o temor de confrontos. O juiz Sérgio Moro não deixou por menos: retaliou liberando gravações comprometedoras de Lula e a conversa entre ele e Dilma em que falam do “termo de posse”, para ser usado “se necessário”. É considerado prova.

As gravações mostram como ele e Dilma arquitetaram a artimanha para fugir de Moro e cair no ambiente bem mais aconchegante do Supremo Tribunal Federal. Se isso não é tentativa de obstrução da Justiça, é o quê? O anúncio da volta de Lula era para ser um fato espetacular, mas foi um tiro n’água.

A hipótese de Lula nos braços do povo parece cada vez mais distante, lembrando a melancólica reação de Jânio Quadros quando desembarcou em São Paulo depois da renúncia. Olhou para um lado, olhou para o outro e indagou na sua solidão: “Cadê o povo?” Lula, como ele, pode não estar notando, ou acreditando, o quanto a sociedade lhe virou as costas.

A mirabolante nomeação de Lula foi recebida não só com fortes protestos nas ruas, mas resistência até mesmo dentro do governo. Enquanto o presidente da CUT alardeava que, com Lula, o governo “vai mudar radicalmente e dar uma guinada à esquerda” (populista e gastadora), o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, entrincheirava-se em defesa dos fundamentos econômicos e de uma política responsável.

A primeira ação do novo “superministro” Lula foi tentar dobrar o PMDB, enroscando-se com o já tão enroscado presidente do Senado, Renan Calheiros, e nomeando o peemedebista Mauro Lopes para a Aviação Civil quatro dias depois de a convenção nacional do PMDB proibir os membros do partido de aceitar cargos no governo. Foi uma provocação ostensiva, uma declaração de guerra contra o vice Michel Temer e a cúpula do fundamental PMDB.

Ou seja: ao renunciar na prática em favor de Lula, Dilma:
* pôs uma pá de cal no seu mandato moribundo,
* irritou os manifestantes de domingo,
* cutucou as onças da Lava Jato com vara curta,
* abriu uma guerra com o PMDB,
* acendeu um sinal de alerta nos economistas e nas estatais e bancos públicos.

E para quê? Foi tudo um tiro n’água, como já dito aqui, ou pior: um tiro no pé. Nunca o impeachment pareceu tão palpável quanto ontem à noite.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Política / Análise – Quinta-feira, 17 de março de 2016 – Pág. A8 – Internet: clique aqui.

Nova afronta aos brasileiros

Editorial

«No Brasil é assim: quando um pobre rouba, vai para a cadeia; mas quando um rico rouba, vira ministro» – Frase “profética” de Lula em 1998
LULA & DILMA ROUSSEFF
Comemoram após ambos assinarem o "Termo de Posse" de Lula como Ministro
Brasília (DF), 16 de março de 2016

Confirmada a nomeação de Lula para não importa qual Ministério, Dilma Rousseff estará abrindo mão, de fato, de sua condição de chefe do governo, como preço a pagar pela possibilidade de prorrogação do prazo de sobrevivência do PT no poder. Ao mesmo tempo, ao transferir o comando do País a seu padrinho – que no domingo passado, na forma do Pixuleco, foi um dos principais alvos das clamorosas manifestações de protesto que tomaram conta do País –, Dilma desmascara o apreço que o lulopetismo alega ter pela “voz das ruas”. Fazer de Lula ministro de Estado, neste momento, é afrontar os brasileiros. Mais uma vez.

Afirmar que, uma vez ministro, Lula passará a governar de fato o País não é exagero retórico, como certamente alegarão os petistas, mas o desfecho natural da escalada por meio da qual Lula exigiu que Dilma, nos últimos meses, moldasse o Ministério segundo suas preferências e conveniências. Assim, ela se livrou de ministros com os quais mais se identificava, mas foram condenados pelo PT:
* Pepe Vargas, da Secretaria de Relações Institucionais;
* Miguel Rossetto, da Secretaria-Geral da Presidência;
* Joaquim Levy, da Fazenda;
* Aloizio Mercadante, da Casa Civil; e
* José Eduardo Cardozo, da Justiça.

Finalmente, Lula e o PT se deram conta de que o problema não era a equipe, mas a própria Dilma. E, ao que tudo indica, o chefão do PT, docemente constrangido, acabará cedendo aos apelos da tigrada e assumirá o poder de fato como último recurso para salvar a si mesmo e a seu partido.

Estará sendo implantado no País, então, o tal semipresidencialismo que algumas sumidades lulopetistas passaram a defender nos últimos dias, numa versão que concentrará nas mãos de Lula o poder político e em particular o comando da política econômica, restando a Dilma Rousseff a pompa e circunstância necessárias para salvar as aparências. Poderá continuar pedalando todas as manhãs pelas vizinhanças do Palácio da Alvorada.

Não há o que lamentar sobre o futuro imediato que parece reservado a Dilma Rousseff. Ela já está e continuará pagando o preço de sua inacreditável incompetência política e gerencial, agravada pela teimosia, arrogância e prepotência que esconde sob o manto de uma falsa altivez.

Para Lula, tornar-se ministro é mais que voltar ao poder. É obter foro especial – no caso, a Suprema Corte – para os vários processos em que consta como investigado. E, se o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir adotar o mesmo procedimento do mensalão, o foro privilegiado estará estendido a todos os demais implicados nesses processos, inclusive o clã Da Silva. Não é desprezível o peso dessa implicação judicial na decisão de Lula de superar sua “hesitação” e “aceitar” um Ministério. Mas isso não significa que ele se livrará da cadeia. Que o digam os “guerreiros do povo brasileiro”, também conhecidos como mensaleiros.

É claro que uma vez ministro Lula colocará todo o peso de sua influência política na tarefa de impedir o impeachment de Dilma. E terá à sua disposição todo o aparelho estatal, que usará com a desfaçatez que demonstrou cabalmente nos anos em que exerceu a Presidência.

Mas isso não é tudo – o que significa que pode vir coisa mais cabeluda por aí. Foram apresentadas a Dilma como conditio sine qua non para a “aceitação” do cargo de ministro por Lula medidas que levarão a economia nacional para o subsolo da cova funda em que já nos meteram. Entende Lula, com o apoio do PT e das entidades que o partido controla, que é indispensável agir rápida e vigorosamente em duas frentes:
1ª) acabar com essa história de ajuste fiscal e
2ª) promover a abertura de farto crédito para a compra de bens de consumo e investimentos em infraestrutura. Dinheiro para tudo isso? Dá-se um jeito, nem que seja metendo a mão nas reservas internacionais.

Se tudo isso de fato acontecer, o Destino, além de deixar órfãos os brasileiros, comprovará que Lula é bom profeta. Pois foi ele quem disse, em 1998:No Brasil é assim: quando um pobre rouba, vai para a cadeia; mas quando um rico rouba, vira ministro”.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Notas e Informações – Quarta-feira, 16 de março de 2016 – Pág. A3 – Internet: clique aqui.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A necessidade de dessacerdotalizar a Igreja Católica

Dominação evangélica para o Brasil

Eleva-se uma voz profética