A ruína do sistema eleitoral e partidário brasileiro
Uma mão suja a outra
José Roberto
de Toldedo
A ruína do sistema eleitoral e partidário está à vista
para quem quiser ver
A superplanilha da Odebrecht com nomes,
valores e apelidos associados a duas centenas de políticos brasileiros de
sabores sortidos está com a Lava Jato há um mês. Sergio Moro só a divulgou na terça, após PSDB e PMDB articularem um
grande acordo pós-Dilma, mas antes de senadores governistas representarem
contra ele no Conselho Nacional de Justiça, e de Teori Zavascki dar-lhe um pito
e requisitar as investigações da Lava Jato sobre Lula para o STF. O mundo é
mesmo aleatório. Até em Curitiba.
Nomes
e valores em uma planilha não provam nada, é fato. Mas se vierem recobertos com
calda de delação premiada de poderosos
executivos da maior empreiteira do País, tornam-se uma bomba calórica de
proporções atômicas. São capazes de alimentar uma crise política por muitos
outonos. Foi essa cobertura que Moro conseguiu nos últimos dias. E a cereja
veio terça, quando, seguindo seus súditos, o príncipe Marcelo Odebrecht
capitulou.
Não
adianta o juiz restaurar agora o sigilo da superplanilha. Cópias abundam. Elas solapam as fundações do sistema
político-eleitoral que empreiteiras como Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão,
UTC, OAS e Odebrecht se empenharam em construir ao longo das últimas décadas.
Fazem ruir o alicerce de doações
interesseiras que sustentavam campanhas de PT, PMDB, PSDB, DEM, PP e de quase
toda a sopa de letrinhas partidárias do Brasil - e cujo cimento vinha de contratos públicos
superfaturados.
Haverá
escoramentos. Políticos tentarão segurar as paredes e o teto que lhes caem
sobre a cabeça. Alguns dirão que aquele dinheiro nunca existiu. Outros, que foi
legalmente declarado. É previsível que uns escapem do desabamento, mas a ruína
do sistema eleitoral e partidário está à vista para quem quiser ver. É impossível erguer algo sólido e duradouro
sobre essas pilastras apodrecidas. A barragem de dejetos se rompeu e a
enxurrada de lama tóxica fará muitas casas caírem.
Umas
cairão mais rapidamente do que outras, porém. PT e governo podem se alegrar ao ver ferozes adversários serem tragados
para a torrente onde se afogam, mas essa alegria tende a ser fugaz. A
reação do PMDB, por exemplo, foi tentar apressar o impeachment de Dilma Rousseff, na esperança de levantar poeira e
não deixar exposto o tamanho do estrago. "Grego" voltou a andar no
passo de "Carangueijo" (sic).
"Cacique" está deixando "Atleta" para trás. E
"Nervosinho" deve estar fazendo jus ao apelido.
Inspirada
na operação italiana Mãos Limpas, a Lava Jato está transformando o Brasil
em uma grande Itália dos anos 90. O
esboroamento [desmoronamento] do
Poder Executivo é acompanhado da desmoralização completa do Legislativo. O
estágio final é a reação de políticos
que visa à perda de credibilidade do Judiciário. Ela se alimenta da
partidarização de alguns juízes e procuradores, e desemboca na tentativa de
criminalização da ação da magistratura.
Um
magistrado - que julgará o destino do governo que pretende substituir o que aí
está - levar a cúpula desse eventual futuro governo para passearem juntos em
Portugal é um grande avanço nessa direção. Mesmo que seja mera coincidência.
Todo
mundo só se lembra que a Mãos Limpas terminou com o empresário populista Silvio
Berlusconi no governo. Mas por que isso aconteceu? Os partidos que se alternavam no poder havia décadas sucumbiram, mas
nem todos os seus integrantes e satélites afundaram junto com eles. Muitos se
reciclaram.
O
eleitor italiano só queria saber do que parecia novo - mas não verificou se era
novo de fato, nem se tinha consistência. Assim, quem sobreviveu tratou de se imunizar com leis que desconcentraram a
corrupção e tornaram-na mais difícil de pegar. O maior risco da Lava Jato é
limpar apenas metade do sistema. O que
sobrar de sujeira tende a contaminar rapidamente o que foi limpo e deixá-lo
ainda mais resistente à investigação.
Comentários
Postar um comentário