Falando em escravidão e em cotas para negros nas universidades...
Crise de gerações tem uma cara racial
José de Souza
Martins*
A Universidade não existe para fazer caridade nem para
adestrar
seus estudantes nos truques e técnicas da ascensão
social
Abrindo
a temporada de caça na universidade, com o início das aulas na USP, um grupo invadiu um dos auditórios do
prédio de Geografia e História. Ali estava sendo ministrada a aula magna de abertura dos cursos da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas deste ano. Eram jovens,
recitavam um bordão alusivo ao quilombo de Palmares, exigiam cotas raciais e acusavam os presentes na conferência de serem
brancos e racistas. A USP já tem um programa de inclusão, que concede um
bônus de 15% sobre a nota obtida na primeira fase por alunos oriundos da escola
pública, mais 5% para os que são negros. Depois
de uma hora de bate boca, a aula inviável teve que ser cancelada.
O
grupo tinha maioria de moças, vários eram brancos, muitos mulatos e alguns
pretos. Queria que a aula magna fosse sobre cotas raciais. Diversos não são
alunos da Faculdade e outros ainda não são universitários. Entraram porque encontraram aquela porta aberta. Na classe média, a
crise de gerações tem, neste momento, uma cara racial.
Teriam
conseguido facilmente viabilizar sua demanda se tivessem dirigido, em tempo,
uma sugestão nesse sentido à Congregação da Faculdade. Na impossibilidade óbvia
de enegrecer um dos professores brancos da escola, para atender a exigência de
que fosse negro o orador, a Congregação poderia convidar um de seus professores
propriamente negros, que os há, ao contrário de tudo que foi gritado.
O
próprio docente impedido de realizar a conferência, conhecedor do tema que é,
poderia fazer fundamentada exposição sobre
as três diferentes escravidões da história do Brasil, e não apenas a negra,
suas características e suas sequelas, acentuando a escravidão por dívida, a chamada peonagem, que se estende até os
dias de hoje, geralmente de brancos e pardos, raramente negros. Nos anos 1970, só na Região Amazônica, o
Brasil teve ao menos 200 mil cativos, comprados e vendidos, sujeitos a tronco e
chibata, eventualmente, até à morte, em caso de fuga e captura. Ele poderia
ter falado, ainda, sobre sua experiência nas Nações Unidas, na Junta de Curadores do Fundo Voluntário da
ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão. Há hoje, no mundo, cerca de 27 milhões de escravos, principalmente na
Ásia e na África, mas também na América Latina. É um dos grandes e
rentáveis negócios da economia contemporânea. Poderia falar da persistente escravidão na África, em que
etnias negras ainda capturam negros de outras etnias, para escravizá-los.
O
orador poderia narrar sua experiência como coordenador que foi da comissão
federal que, na Secretaria dos Direitos
Humanos do Ministério da Justiça, preparou em 2002 o Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil e Escravo. É um
conjunto de propostas de emendas constitucionais e leis para acabar com a
escravidão no Brasil e punir devida e severamente traficantes e beneficiários
do trabalho escravo.
Teria
sido um modo de ajudar os manifestantes a superaram as palavras de ordem
estereotipadas e sem fundamento histórico. Aliás, a Faculdade de Filosofia da
USP tem uma história de dedicação aos estudos sobre relações raciais e
preconceito entre nós, nos trabalhos marcantes de Roger Bastide e de Florestan
Fernandes e de seus discípulos e sucessores.
A
produção científica da Universidade sobre o tema não chegou aos principais
interessados, os negros. Tampouco chegou ao conjunto da população, numa
sociedade marcada por preconceitos diversos, dos quais o de cor é apenas um. Os manifestantes exibiram claro
desconhecimento de sua própria história e de um conjunto extenso de fatos e
estudos relativos às adversidades de mais de século na emancipação do negro.
Os manifestantes não invadiram a sala para ouvir, mas principalmente para não
ouvir, para calar e desaprender.
A USP, a Unesp e a Unicamp
vem se empenhando em recrutar negros e outros estudantes oriundos da escola
pública. O
fato mais auspicioso é que negros, por seu próprio esforço, têm aumentado sua
presença nas Universidades. No vestibular da Unesp, de dois anos atrás, negros
que recorreram ao benefício das cotas foram aprovados com notas que lhes teriam
permitido o ingresso na Universidade mesmo que tivessem recorrido ao regime
normal. Esse é o resultado de uma
história social de valorização da escola pública, laica e gratuita. A opção
pela gratuidade e pelas ações afirmativas assegura que essas Universidades
possam recrutar e acolher talentos e inteligências das diferentes camadas da
sociedade e de seus diferentes grupos sociais e étnicos, que é o que interessa.
A
Universidade não existe para fazer caridade nem para adestrar seus estudantes
nos truques e técnicas da ascensão social. A
função da Universidade é preparar mulheres e homens, brancos, negros,
indígenas e os mestiços que somos, pobres e ricos, de talento, dando ao País um
elenco numeroso de cientistas, educadores e profissionais do conhecimento de que a nação carece para se desenvolver,
econômica, social e politicamente, até para ser justa com todos.
*
JOSÉ DE SOUZA MARTINS é sociólogo, membro da Academia
Paulista de Letras, escreveu, entre outros livros, Uma Sociologia da Vida Cotidiana (Editora Contexto).
Comentários
Postar um comentário