As consequências da pedofilia para a Arquidiocese de Boston
Cardeal de Boston divulga nota sobre Spotlight,
filme vencedor do Oscar
The Pilot
01-03-2016
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SEAN PATRICK O'MALLEY Cardeal-arcebispo de Boston (MA) - Estados Unidos |
O Cardeal Sean P. O’Malley divulgou a
seguinte nota depois de o filme Spotlight vencer o prêmio da
cerimônia do Oscar deste ano em Los Angeles. O filme descreve a investigação do
jornal Boston Globe sobre os abusos
sexuais de menores cometidos pelo clero na Arquidiocese de Boston e que levaram
a uma série de histórias publicadas em 2002.
Eis a nota.
Spotlight
é um filme importante para todos os que foram impactados com a tragédia dos
abusos sexuais clericais. Ao fornecer reportagens em profundidade sobre a
história da crise de abuso sexual clerical, a mídia levou a Igreja a reconhecer
os crimes e pecados de seus agentes e a começar a encarar os seus erros, o dano
feito às vítimas e suas famílias e as necessidades dos sobreviventes.
Numa democracia tal como a nossa, o
jornalismo é essencial. O papel da mídia em revelar a crise de abusos sexuais
abriu uma porta através da qual a Igreja caminhou nas respostas às necessidades
dos sobreviventes.
A proteção às crianças e a garantia de
apoio aos sobreviventes e suas famílias devem ser uma prioridade em todos os
aspectos da vida da Igreja. Estamos comprometidos com a implementação vigilante
das políticas e dos procedimentos no intuito de evitar a recorrência da
tragédia dos abusos infantis.
Estes incluem programas educacionais,
checagens obrigatórias de antecedentes e ambientes formativos seguros, relatar
e cooperar obrigatoriamente com as autoridades civis no tocante às acusações de
abuso, e o cuidado dos sobreviventes e seus familiares por meio do Office of Pastoral Support and Outreach,
órgão da Arquidiocese para o trabalho junto a estas pessoas.
A Arquidiocese de Boston fornece, de forma
consistente, serviços de aconselhamento e serviços médicos aos sobreviventes e
membros familiares que buscam ajuda, e permanecemos firmes neste compromisso.
Continuamos a buscar pelo perdão de todos
os que foram prejudicados pela tragédia dos abusos sexuais clericais e rezamos
todos dias para que o Senhor possa nos guiar no caminho em direção à cura e à
renovação.
Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa. Acesse a versão original desta matéria,
clicando aqui.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 2 de março de 2016 – Internet: clique aqui.
Efeito de "Spotlight" em Boston e nos
Estados Unidos: 4 bilhões de dólares
de indenizações.
Colapso da arquidiocese
Federico
Rampini
La
Repubblica (Roma – Itália)
01-03-2016
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FRANCESCO CESAREO Diretor da Universidade Agostiniana "Assumption College" |
Uma
verdadeira virada, depois das investigações. Nada será mais como antes. Ou:
Desastre econômico de 4 bilhões de dólares, mas insuficientes para extirpar os
abusos. O impacto da reportagem investigativa realizada pelo Boston Globe, e contada no filme “Spotlight”, sobre a Igreja Católica
americana, certamente houve.
Sobre os efeitos de
“Spotlight”, porém, existem duas versões
diametralmente opostas:
1ª)
Os vértices da Igreja dos Estados Unidos da América (EUA) afirmam ter virado a
página, ter tomado medidas drásticas para prevenir qualquer abuso contra
menores.
2ª)
Algumas associações de vítimas falam, ao invés, de “reformas de fachada”, operações
de Relações Públicas.
Ninguém
minimiza o papel da investigação do Boston
Globe, nem do filme que a reconstruiu, merecendo o Oscar. As próprias
autoridades eclesiásticas, no lançamento do filme nas salas americanas,
trataram-no com respeito, limitando-se a precisar que os acontecimentos
narrados são de 15 anos atrás, e, desde então, tudo mudou. “Os espectadores não devem pensar que ‘Spotlight’ descreva a situação
atual”, foi o comentário do site The
Catholic Free Press.
Sobre
o filme intervém, pela Igreja, o ítalo-americano Francesco Cesareo, historiador do Renascimento e da Reforma,
Diretor da Universidade Agostiniana
Assumption College, nomeado presidente do National Review Board, órgão consultivo da Conferência Episcopal
dos EUA, criado em 2002, exatamente para reagir aos escândalos de pedofilia
revelados no Boston Globe. No comentar “Spotlight”, Cesareo escreveu: “Para além da indenização das vítimas, depois
das revelações do Boston Globe, adotamos medidas abrangentes de proteção dos
menores, que se tornaram modelo para outras organizações voltadas para jovens”.
O
programa “Safe Environment Training”
– treinamento para um ambiente seguro
– foi lançado em junho de 2002. Segundo o National
Review Board, 98% dos adultos (quase 2 milhões), funcionários de paróquias
ou escolas católicas, seguiram esses cursos específicos, e 93% dos menores (4,4
milhões) foram treinados sobre como proteger-se, ou como denunciar os abusos.
A
referência de Cesareo ao papel que a
Igreja Católica pode hoje desempenhar em relação aos “outros”, é alusão aos
escândalos de pedofilia que atingiu os boy-scout
e algumas comunidades hebraicas.
Terry Donilon, porta-voz da arquidiocese
de Boston, é ainda mais categórico. Interpelado recentemente pelo Boston Globe, declarou que na Igreja de Boston, hoje, há “zero abusos”.
Certamente
as investigações do jornal trouxeram consequências enormes. As primeiras
revelações do Boston Globe
estimularam as vítimas a denunciarem abusos deixados no silêncio, até envolver 250 sacerdotes na arquidiocese.
Outros jornais seguiram o exemplo do Boston
Globe.
As investigações fizeram
emergir novos escândalos em 100 cidades americanas. Entrementes em Boston, o
Cardeal Bernard Law foi obrigado a demitir-se, substituído por Sean O’Malley. O Estado do
Massachusetts aprovou novas leis sobre a obrigação de denúncia de assédio
sexual por superiores hierárquicos.
O impacto econômico, avaliado pelo National Catholic Reporter, seria de 4 bilhões de dólares em nível
nacional, para indenizações e negociações várias (frequentemente cobertos
por cláusulas de segredo). A isto o Journal
of Public Economics acrescentou 2,36
bilhões de esmolas perdidas anualmente, como consequência das revelações na
comunidade dos fiéis. Só em Boston, a Igreja teve que vender muitas
propriedades, entre as quais a luxuosa residência cardinalícia de Lake Street.
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DAVID CLOHESSY Diretor da "Rede de Sobreviventes de Abusos Praticados por Padres" |
Mas
os escândalos não terminaram. Depois de
Boston, os casos mais graves foram descobertos em Philadelphia, em 2011, depois
em Kansas City e em Saint Paul-Minneapolis, no ano passado, isto é, pouco
antes que chegasse o Papa Francisco aos Estados Unidos.
Até
mesmo sobre a Arquidiocese de Boston o juízo é negativo, segundo David Clohessy, diretor da Associação
de vítimas, Survivors Network of those
Abused by Priests (SNAP) (Rede de sobreviventes de abusos praticados por
padres). Ao Boston Globe, Clohessy
disse:
“Com a chegada
do Cardeal O’Malley os procedimentos e os protocolos mudaram, mas tratava-se
simplesmente de uma operação de
Relações Públicas”.
Há
15 anos, todos os domingos, grupos de
vítimas continuam seu silencioso protesto na entrada da Missa, diante da
Catedral da Santa Cruz, no centro de Boston.
Traduzido do italiano por Ramiro Mincato. Acesse a versão
original deste artigo, clicando aqui.
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