Disse tudo ! ! !
Cada dia uma agonia
Fernando
Gabeira
Jornalista
Não há futuro para o governo.
Toda a sua energia se consome na defesa do impeachment,
no medo da Lava Jato
FERNANDO GABEIRA Jornalista |
Pensei
que esta seria uma semana de trégua. E é, de certa forma, no plano nacional. Na
verdade, o atentado em Bruxelas mostrou a face covarde da guerra. Ao
considerá-la assim, uma semana de trégua, lembrei-me de uma grávida que
entrevistei num bairro infestado de mosquitos em Aracaju: “Graças a Deus, o que tive foi chikungunya”.
Os
fatos da semana passada não me permitiram tratar de escutas telefônicas. Tenho
experiência disso. Nas eleições de 98, um repórter ouviu ligação minha e
divulgou uma frase em que dizia que uma deputada estadual era suburbana. Isso
num contexto sobre implantação de aterros sanitários, que, para mim, deveriam
ter um enfoque metropolitano. Reclamei de forma, mas não me detive nisso porque
havia algo mais importante a tratar: o conteúdo.
O
adversário na época, Eduardo Paes, fez uma grande campanha em torno disso.
Vestiram camisetas com a inscrição Sou suburbano com muito amor. Ainda hoje as
fotos me fazem rir.
A reação de Dilma e seus
defensores foi dissociar a FORMA do CONTEÚDO e discutir só aquela. A tentativa
de explicar o diálogo gravado foi ridícula, segundo o [jornal] The New York Times. Patética para
outros, que observam o fluxo dos últimos acontecimentos. No caso, não se trata de
um grampo, mas de levantar o sigilo de um processo. Moro investigava Lula e o
conjunto das gravações indicava a busca de um ministério para escapar do
processo. O último áudio apenas foi uma espécie de CQD.
A
Lava Jato é, para mim, a maior e mais bem-sucedida operação realizada pela
polícia brasileira. Sua atuação é espetacular, mas, se comparamos com o
futebol, é possível jogar uma partida magnífica e ainda assim cometer algumas
faltas.
No
meu entender, elas estão no levantamento do sigilo de áudios que tratam de
assuntos pessoais, sem importância real no processo. Eu deparo com esse
problema no trabalho cotidiano. Outro dia entrevistei uma cozinheira e ela
disse que se casou com o primo por falta de alternativa. Minutos depois me
procurou para que apagasse esse trecho da entrevista. Atendi imediatamente. Que
interesse teria isso para a história que estava para contar? Nenhum.
O
que é irrelevante para o público pode ter enorme repercussão na vida da pessoa.
Uma frase mal colocada, absolutamente inócua para o espectador, pode desatar
inúmeros dramas familiares, suspeitas, rancores.
Com escritores, juristas,
tanta gente de talento defendendo Dilma, ninguém trata do conteúdo do processo levado por Moro, o que, na verdade, interessa
mais ao povo.
Falam em defesa da democracia, mas ignoram
o mensalão, o escândalo na Petrobrás, dois ataques violentos à própria
democracia.
Fui
deputado alguns anos e me sinto enganado por ter de discutir com parlamentares que foram comprados pelo
governo. Não há debate real. As posições foram pagas no guichê do palácio. Para mim, isso é a real negação do processo
democrático. E os dados estão aí: a Petrobrás foi arrasada, apenas em 2015
teve um prejuízo de R$ 43,8 bilhões; só a Operação Lava Jato conseguiu bloquear
R$ 800 milhões no exterior.
Que tipo de democracia é
esta em que você compete com campanhas milionárias sustentadas com grana
roubada de empresas estatais, via propinas das empreiteiras?
As
delações premiadas da Andrade Gutierrez e de Marcelo Odebrecht vão demonstrar
tudo isso. No caso de Odebrecht, é preciso ver ainda o que tem a falar, porque
sua resistência acabou provocando um avanço da Lava Jato sobre os segredos mais
guardados da empresa.
Outra
discussão que reservei para a semana de trégua: a condução de Lula. Tenho
amigos que a criticam, na verdade, tenho amigos que até são contra o
impeachment. A Lava Jato, a esta altura,
fez 130 conduções coercitivas. Mas Lula estava disposto a depor, dizem. E
os outros, se chamados, também não estariam dispostos? O que determina a medida
é análise dos fatos, a lógica da investigação.
Outros lembram: Lula é um
símbolo. Respondo que a lei vale para todos. Está escrito na Constituição.
Teríamos de redigir a emenda: a lei vale para todos, menos para os símbolos.
Aliás,
o termo símbolo é muito vago. Eventualmente um homem desconhecido pode se
tornar símbolo de algo. O pedreiro Amarildo transformou-se num símbolo. Um
jovem negro assassinado os EUA vira símbolo do conflito racial.
É surpreendente ver como
Lula se transformou, na realidade, num líder conservador: [ele é] a esperança dos corruptos de melar a Operação Lava Jato. Deixando de lado o machismo, que não é
novidade, suas falas gravadas mostram um
personagem típico: sabe com quem está falando? Seu ataque à autonomia da
Polícia Federal é simplesmente reacionário. Ainda mais, articulado com
frases em que condena a busca de autonomia em outros setores. “Só Dilma não
consegue governar, não tem autonomia”, diz ele.
Uma visão realmente política
não culpa a oposição pela imobilidade do governo. Seria o mesmo que Lenin,
derrotado num bar do Quartier Latin
[em Paris], afirmar que a revolução fracassou por causa dos mencheviques.
Dilma não consegue governar,
concordo com Lula. Mas o problema não está na oposição, está nela. Lula reconhece isso nos
seus discursos, pedindo que Dilma sorria pelo menos algumas vezes. Acho um
apelo inútil, como os que encontramos em algumas lojas: sorria, você está sendo fotografado.
Se Lula reconhece que Dilma
não é capaz de presidir, terá de reconhecer também que errou ao lançá-la. E toda essa imensa máquina
petista teria de compreender que não se inventa um quadro político, ele se faz
na história cotidiana, ao longo de mandatos, no fascinante jogo político, um
jogo tedioso para quem não gosta dele.
Isso
são reflexões de uma semana de trégua. Não
há futuro para o governo. Toda a sua energia se consome na defesa do
impeachment, no medo da Lava Jato. Cada dia que um projeto fracassado
consegue sobreviver é mais um dia em que o Brasil afunda. Isso parece não ter
nenhuma importância para eles. Lamento.
Fonte: O Estado de S. Paulo
– Espaço aberto – Sexta-feira, 25 de março de 2016 – Pág. A2 – Internet: clique aqui.
Na crise política, o governo comete
erro atrás de erro
João Domingos*
ANTÔNIO HENRIQUE DE CARVALHO PIRES Indicado pelo vice-presidente da República Michel Temer, para a FUNASA (Fundação Nacional de Saúde) foi demitido: a guerra entre Dilma e Temer prossegue acalorada e violenta! |
Só
a forte tensão da crise política que pode desembocar no impeachment da presidente Dilma Rousseff é capaz de explicar o
clima de barata tonta que tomou conta do governo. Pelo jeito, nem a presença do ex-presidente Lula está servindo para que
alguma coisa entre nos eixos por parte dos estrategistas do Planalto e do PT,
no momento em que o governo mais precisa dos partidos, principalmente do PMDB.
Só
uma articulação política sem rumo, mesmo que conte com Lula, pode explicar a
retaliação ao vice-presidente Michel Temer, explícita na demissão do presidente da Funasa, Antônio Henrique de Carvalho Pires
ontem. Tudo bem que a presidente Dilma, Lula e ministros tenham ficado
tiriricas com Temer, que se recusou a adiar a reunião do diretório nacional do
PMDB convocada para a próxima terça-feira. Mas dar o troco nessa hora é a pior
de todas as iniciativas. Quanto mais o
tempo passa, mais os integrantes do governo parecem perdidos e mais se
mostram dispostos a recorrer a uma estratégia de defesa estranha, baseada na
busca de ajuda de instâncias sabe-se lá quais e em que partes do Universo.
No
momento, todos eles estão empenhados em pedir socorro ao mundo, ao qual
denunciam o que consideram um golpe em marcha contra a democracia e o Estado de
Direito, a exemplo do que foi feito por um funcionário do Itamaraty. Nada do que está sendo feito contraria a
Constituição, diz a vice-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), CÁRMEN
LÚCIA, desde que as regras sejam respeitadas. Isso vale para o processo de
impeachment, para as investigações da Operação Lava Jato, para os processos no
Supremo. O próprio ministro DIAS TOFFOLI,
que foi empregado do PT antes de ir para a suprema Corte, afirma que o processo
de impeachment está dentro dos
conformes constitucionais.
É claro que a Câmara [dos Deputados Federais] é presidida por um deputado que está todo
enrolado na Justiça. É certo que a hora dele chegará. Mas o fato de Eduardo
Cunha ser presidente da Câmara não pode fazer com que o processo de impeachment seja comparado a um golpe, e
isso fica claro nos esclarecimentos dos ministros do Supremo. O processo de impeachment foi pedido por três advogados respeitados em todo o
País, nenhum deles golpista. A multidão de pessoas que tem ido às ruas
pedir a saída da presidente não é constituída de golpistas. Lá estão os
desempregados, empresários que perderam tudo ou que estão vivendo os efeitos da
crise, e a classe média que sempre votou no PT. E que agora perdeu a paciência.
* JOÃO DOMINGOS é coordenador do serviço Análise Política,
do Broadcast Político, serviço de
notícias em tempo real da Agência Estado.
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