Domingo de Ramos da Paixão do Senhor – Ano C – Homilia

Evangelho da Procissão: Lucas 19,28-40 e

Evangelho da Missa: Lucas 22,14–23,56

(Para ler os dois textos evangélicos, clique aqui)

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

Que faz Deus numa cruz?

Segundo o relato evangélico, os que passavam diante de Jesus crucificado sobre a colina do Gólgota escarneciam dele e, rindo-se da sua impotência, diziam-lhe: «Se és o Filho de Deus, desce da cruz». Jesus não responde à provocação. Sua resposta é um silêncio carregado de mistério. Justamente por ser Filho de Deus permanecerá na cruz até a sua morte.

As perguntas são inevitáveis: Como é possível acreditar num Deus crucificado pelos homens? Damo-nos conta do que estamos dizendo? Que faz Deus numa cruz? Como pode subsistir uma religião fundada numa concepção tão absurda de Deus?

Um «Deus crucificado» constitui uma revolução e um escândalo que nos obriga a questionar todas as ideias que nós humanos fazemos de um Deus a quem supostamente conhecemos. O Crucificado não tem o rosto nem os traços que as religiões atribuem ao Ser Supremo.

O «Deus crucificado» não é um ser onipotente e majestoso, imutável e feliz, alheio ao sofrimento dos humanos, mas um Deus impotente e humilhado que sofre conosco a dor, a angústia e até a mesma morte. Com a Cruz, ou termina a nossa fé em Deus, ou nos abrimos a uma compreensão nova e surpreendente de um Deus que, encarnado no nosso sofrimento, nos ama de maneira incrível.

Diante do Crucificado começamos a intuir que Deus, no seu último mistério, é alguém que sofre conosco. A nossa miséria lhe afeta. O nosso sofrimento lhe macula. Não existe um Deus cuja vida transcorra, por assim dizer, à margem das nossas penas, lágrimas e desgraças. Ele está em todos os Calvários do nosso mundo.

Este «Deus crucificado» não permite uma fé frívola e egoísta em um Deus onipotente a serviço dos nossos caprichos e pretensões. Este Deus coloca-nos a olhar para o sofrimento, o abandono e o desamparo de tantas vítimas da injustiça e das desgraças. Com este Deus encontramo-nos, quando nos aproximamos do sofrimento de qualquer crucificado.

Os cristãos continuam a dar todo tipo de voltas para não se encontrarem com o «Deus crucificado». Temos aprendido, inclusive, a levantar o nosso olhar para a Cruz do Senhor, desviando-a dos crucificados que estão diante dos nossos olhos. No entanto, a maneira mais autêntica de celebrar a Paixão do Senhor é reavivar a nossa compaixão. Sem isto, dilui-se a nossa fé no «Deus crucificado» e abre-se a porta a todo o tipo de manipulações. Que o nosso beijo no Crucificado nos coloque sempre a olhar para quem, próximo ou afastado de nós, vive a sofrer.

Nestes dias da Semana Santa, podemos olhar para Jesus Crucificado. O que você sente ao vê-lo sofrer?

Ele sabe muito bem o que é estar mal e o que é sentir-se impotente. Ele está, bem próximo, te acompanhando, também agora, quando sofres. Ele está sempre acompanhando os que sofrem.

Rezemos, a partir de nosso íntimo, ao nosso Deus crucificado:

Senhor, confio em ti,
tu estás sofrendo comigo.
Eu não sei quando, não sei como,
porém um dia conhecerei a paz contigo
e conhecerei, finalmente,
a Vida definitiva contigo,
Cristo já, ressuscitado.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: MUSICALITURGICA.COM – Homilías de José A. Pagola – Segunda-feira, 14 de março de 2016 – 12h23 – Internet: clique aqui.

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