5º Domingo da Quaresma – Ano C – Homilia
Evangelho:
Jo 8,1-11
Naquele tempo:
1 Jesus foi para o monte das Oliveiras.
2 De madrugada, voltou de novo ao
Templo. Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los.
3 Entretanto, os mestres da Lei e os
fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério.
Colocando-a no meio deles,
4 disseram a Jesus: «Mestre, esta
mulher foi surpreendida em flagrante adultério.
5 Moisés na Lei mandou apedrejar tais
mulheres. Que dizes tu?».
6 Perguntavam isso para experimentar
Jesus e para terem motivo de o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, começou a
escrever com o dedo no chão.
7 Como persistissem em interrogá-lo, Jesus
ergueu-se e disse: «Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe
uma pedra.»
8 E tornando a inclinar-se, continuou a
escrever no chão.
9 E eles, ouvindo o que Jesus falou, foram
saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a
mulher que estava lá, no meio do povo.
10 Então Jesus se levantou e disse: «Mulher,
onde estão eles? Ninguém te condenou?».
11 Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Então
Jesus lhe disse: «Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não
peques mais.»
JOSÉ ANTONIO
PAGOLA
REVOLUÇÃO IGNORADA
Apresentam
a Jesus uma mulher surpreendida em adultério. Todos conhecem o seu destino:
será lapidada [apedrejada] até a morte segundo o estabelecido pela lei. Ninguém
fala do adúltero. Como acontece sempre em uma sociedade machista, condena-se a
mulher e desculpa-se o homem. O desafio feito a Jesus é frontal: «A lei de Moisés manda-nos apredejar as
adúlteras. Tu, que dizes?».
Jesus
não suporta aquela hipocrisia social alimentada pela prepotência dos homens.
Aquela sentença de morte não vem de Deus. Com simplicidade e audácia
admiráveis, introduz ao mesmo tempo verdade, justiça e compaixão
no julgamento da adúltera: «aquele que
estiver sem pecado, que atire a primeira pedra».
Os
acusadores se retiram envergonhados. Eles sabem que são os mais responsáveis
pelos adultérios que se cometem naquela sociedade. Então, Jesus dirige-se à
mulher que acaba de escapar da execução e, com ternura e grande respeito, lhe
diz: «Tampouco eu te condeno». Em
seguida, anima-a para que seu perdão se converta em ponto de partida de uma
vida nova: «Vai, e daqui em diante não peques mais».
Assim
é Jesus. Até que enfim, houve sobre a
terra alguém que não se deixou condicionar por nenhuma lei nem poder opressivo.
Alguém livre e generoso que nunca odiou nem condenou, nunca devolveu mal por
mal. Em sua defesa e em seu perdão a esta adúltera há mais verdade e justiça
que em nossas reivindicações e condenações ressentidas.
Nós,
cristãos, não temos sido capazes ainda de extrair todas as consequências que
encerra a atuação libertadora de Jesus frente à opressão da mulher. A partir de uma Igreja dirigida e inspirada
majoritariamente por homens, não aceitamos a tomar consciência de todas as
injustiças que continua padecendo a mulher em todos os âmbitos da vida.
Algum teólogo falava há alguns anos da «revolução
ignorada» pelo cristianismo.
O
certo é que, vinte séculos depois, nos países de raízes supostamente cristãs,
continuamos vivendo em uma sociedade onde, com frequência, a mulher não pode
mover-se livremente sem temer o homem. O estupro, o abuso e a humilhação não
são algo imaginário. Ao contrário, constituem uma das violências mais
arraigadas e que mais sofrimento causa.
Não
deve o sofrimento da mulher ter um eco mais vivo e concreto em nossas
celebrações, e um lugar mais importante em nosso trabalho de conscientização
social? Porém, sobretudo, não devemos estar mais próximos de toda mulher
oprimida para denunciar abusos, proporcionar defesa inteligente e proteção
eficaz?
O ÚNICO QUE NÃO CONDENA
Sempre
me surpreendeu a atuação de Jesus, radicalmente
exigente ao anunciar a sua mensagem, porém, incrivelmente compreensivo ao
julgar a atuação concreta das pessoas. Talvez, o caso mais expressivo é seu
comportamento diante do adultério. Jesus fala de maneira tão radical ao expor
as exigências do matrimônio indissolúvel,
que os discípulos opinam que, em tal caso, «não
convém casar-se». E, no entanto, quando
todos querem apedrejar uma mulher surpreendida em adultério, é Jesus o único
que não a condena.
No
entanto, quem conhece quanta escuridão reina no ser humano e a facilidade que é condenar os outros para
assegurar-se a própria tranquilidade, sabe muito bem que nessa atitude de
compreensão e de perdão que adota Jesus, inclusive contra o que prescreve a
lei, há mais verdade que em todas as nossas condenações estreitas e
ressentidas.
Aquele
que crê descobre, ademais, nessa atitude de Jesus, o rosto verdadeiro de Deus e escuta uma mensagem de salvação que se
pode resumir assim: «Quando não tens
ninguém que te compreenda, quando os homens te condenam, quanto te sentes
perdido(a) e não sabes a quem recorrer, deves saber que Deus é teu amigo. Ele
está do teu lado. Deus compreende a tua debilidade e até o teu pecado».
Essa
é a melhor notícia que podiam escutar os seres humanos. Frente à incompreensão,
as acusações e condenações fáceis das pessoas, o ser humano sempre poderá
confiar na misericórdia e no amor insondável de Deus. Aonde termina a compreensão dos homens, segue firme a compreensão
infinita de Deus.
Isto
significa que, em todas as situações da vida, em toda confusão, em toda
angústia, sempre há saída. Tudo pode
converter-se em graça. Ninguém pode impedir-nos de viver apoiados no amor e
na fidelidade de Deus.
Por
fora, as coisas não mudam. Os problemas e conflitos continuam lá com toda a sua
crueza. As ameaças não desaparecem. Há que seguir enfrentando as cargas da
vida. Porém, há algo que muda tudo: a
convicção de que nada nem ninguém poderá nos separar do amor de Deus!
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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