“Todo homem procura um Deus envolvente. Deus pode morrer de tédio em nossas igrejas…”
Salvatore
Cernuzio
Primeiras meditações do Pe. Ermes Ronchi, durante os
Exercícios Espirituais de Quaresma com o Papa e a Cúria
Romana
em Ariccia, sobre o tema “As francas questões do Evangelho”
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PADRE ERMES RONCHI (de costas) prega o retiro espiritual da quaresma ao Papa Francisco e vários membros da Cúria Romana: Aricci, 6 a 11 de março de 2016 |
«Jesus então virou-se e, observando aqueles
que o seguiam, disse-lhes O que procurais?». A pergunta de Cristo, que ressoou
ontem na capela da Casa “Divino Mestre” de Ariccia, onde o Papa e a Cúria estão
reunidos desde domingo à tarde para os Exercícios
Espirituais de Quaresma.
Pe. Ermes Ronchi, sacerdote friulano da Ordem dos Servos de Maria, foi escolhido
(por telefone) pelo Papa para guiar as meditações até o próximo dia 11 de março
com o tema “As nuas perguntas do
Evangelho”. Perguntas – disse o religioso na sua primeira reflexão relatada
pela Rádio Vaticano – que devem ser “amadas” enquanto “já revelação”. São “o
outro nome da conversão”. Jesus, de
fato, educa para a fé através de perguntas, «muito mais do que através de
palavras assertivas.»
Mais
de 220 perguntas são relatadas nos Evangelhos, porque «a pergunta é a comunicação não violenta» – explica o sacerdote servita
– «que não cala o outro, mas relança o diálogo, o envolve e, ao mesmo tempo, o
deixa livre».
A proposta para estes dias de exercícios é,
portanto, «de parar para ouvir um Deus
de perguntas: não mais questionar ao Senhor, mas deixar-nos interrogar por Ele. E em vez de correr rápido para
buscar resposta, parar para viver bem as
perguntas».
O
próprio Jesus é uma pergunta, diz Ronchi: «A sua vida e a sua morte nos
desafiam sobre o sentido último das coisas, nós questionam sobre o que faz
feliz a vida». E «a resposta é ainda Ele» que «não pede antes de mais nada renúncias ou sacrifícios, não pede para
imolar-se sobre o altar do dever ou do esforço, pede em primeiro lugar reentrar no coração compreendê-lo, conhecer».
Procurar
a felicidade equivale, portanto, a buscar Deus, «um Deus sensível ao coração, que
faz feliz o coração, cujo nome é alegria, liberdade e plenitude». «Deus é belo. Corresponde-nos anunciar um
Deus belo, desejável, interessante; a paixão por Deus – acrescenta o
pregador – nasce precisamente de ter descoberto a beleza de Cristo».
«Deus me atrai não por ser
onipotente, não me seduz por ser eterno ou perfeito; Ele me seduz com o rosto e
a história de Cristo, o homem da vida boa, bela, beata, livre como ninguém,
amor como nenhum outro». Jesus «é a bela notícia que diz: é possível viver melhor, para todos.
E o Evangelho possuiu a chave».
No
entanto, nós «empobrecemos o rosto de
Deus, por vezes, o reduzimos à miséria, relegado a remexer no passado e no
pecado do homem». Um Deus, disse o
padre Hermes, «que é adorado e venerado»,
mas que não é aquele «envolvido, e
envolvente, que ri e brinca com os seus filhos».
Todo
homem, no entanto, concluiu o religioso, «busca um Deus envolvente: Deus pode morrer de tédio nas nossas
igrejas. Devolvamos-lhe o seu rosto solar, um Deus amável, desejável, querido.
Será como beber das fontes da luz, das bordas infinitas». A reflexão
concluiu-se, portanto, como começou, com uma pergunta: «O que procurais? Para
quem caminhais?». Ronchi deixa transparecer a primeira resposta desta semana de
meditações: «Procuro um Deus desejável,
caminho por alguém que faz feliz o coração».
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PAPA FRANCISCO encontra-se em retiro espiritual durante esta semana |
No segundo dia dos
exercícios espirituais o religioso focou nas duas palavras-chave: «medo
e fé» a partir da passagem da tempestade acalmada na qual Jesus pergunta aos
discípulos: «Por que tendes medo, ainda
não tendes fé?» (Mc 4,40). São «os dois antagonistas que disputam
eternamente o coração do homem», destaca o Pe. Hermes, «a Palavra de Deus, de
um extremo ao outro da Bíblia conforta e anima, repetindo várias vezes: não
temais. Não tenhais medo!».
Medo que não é tanto a falta
de coragem, mas «falta de confiança», de cair na ilusão de acreditar em «um Deus que
tira e não em um Deus que dá.» O erro que Adão e Eva cometem é que se deixam
persuadir pelo diabo e «acreditam em um
Deus que rouba liberdades, em vez daquele que oferece possibilidades; acreditam
em um Deus que se preocupa mais com a sua lei do que com a alegria dos seus
filhos; um Deus com olhar crítico, do qual deve-se fugir em vez de correr na
sua direção».
«Um
Deus, afinal, não confiável.»
E o
primeiro de todos os pecados – diz Ronchi – é o «pecado contra a fé» que nasce «da imagem errada de Deus» da qual,
por sua vez, nasce «o medo dos medos». «Do rosto de um Deus temível vem o
coração medroso de Adão», que é o mesmo coração amedrontado de todos nós quando
nos encontramos na tempestade: porque nos sentimos abandonados, porque «Deus
parece dormir» porque «queremos que intervenha rápido».
Mas Deus intervém. Ele «não age em nosso lugar – destaca o servita – não nos tira das tempestades mas nos apoia dentro das tempestades.
Como escrevia Bonhoeffer: “Deus não salva
do sofrimento, mas no sofrimento, não protege da dor, mas na dor, não salva da
cruz, mas na cruz … Deus não traz a solução para os nossos problemas, traz a si
mesmo e dando-se-nos nos dá tudo” E nos deu Jesus que veio para preencher
de luz, de sol».
«Talvez
– diz o padre Ermes Ronchi – nós pensamos que o Evangelho iria resolver os
problemas do mundo ou, pelo menos, que teria diminuído a violência e as crises
da história, mas não é assim. Na verdade o Evangelho trouxe consigo rejeição,
perseguições, outras cruzes: pensemos nas 4 irmãs mortas em Aden».
Mas
Jesus «nos ensina que só há uma maneira
de superar o medo: é a fé!». A missão da Igreja, também em seu interior, é,
portanto, libertar do medo que nos faz usar diferentes máscaras com aqueles que
nos rodeiam.
«Por um longo tempo – releva o pregador – a Igreja transmitiu uma fé cheia de medo
que girava em torno do paradigma culpa/castigo, ao invés de florescimento e
plenitude.»
Esse
medo tem produzido e produz «um cristianismo triste, um Deus sem alegria». Liberar do medo, então, significa «trabalhar
ativamente para levantar este manto de medo que está sobre o coração de tantas
pessoas: o medo do outro, o medo do estrangeiro. Passar da hostilidade, que
pode ser também instintiva, à hospitalidade, da xenofobia à filoxenia». E significa
«libertar os fiéis do medo de Deus, como fizeram ao longo de toda a história
sagrada os seus anjos: ser anjos que libertam do medo».
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