Um cardeal pronuncia-se sobre o momento atual do mundo e do Brasil
Perguntas a respeito do bem e do mal
Dom Odilo
Pedro Scherer
Cardeal-arcebispo
de São Paulo – SP
Não é mais possível ir adiante com esquemas corruptos
na política e na administração pública resultado de
uma longa e profunda crise moral
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D. ODILO PEDRO SCHERER Cardeal-arcebispo de São Paulo - SP |
Na
vida, há decisões e comportamentos acertados, que merecem reconhecimento e
aplauso e proporcionam paz à consciência, enquanto outras despertam a repulsa e
a reprovação das pessoas e deixam o coração intranquilo.
No dia 5 de março correu a notícia do assassinato de quatro freiras por um
terrorista, no Iêmen. Duas eram de Ruanda, uma da Índia e uma do Quênia.
Eram Missionárias da Caridade, uma
congregação fundada por Madre Teresa de Calcutá para se dedicar aos mais pobres
entre os pobres; e era bem isso que as religiosas católicas assassinadas faziam
no Iêmen, um pequeno país muçulmano: cuidavam
de pessoas abandonadas, idosas ou com vários tipos de deficiência.
O ato violento foi
qualificado como brutal, vil e diabólico; o mínimo bom senso leva a concluir que em atos
semelhantes não há nada de nobre e belo que enalteça a qualidade humana de quem
os praticou. Talvez até houvesse motivações políticas, sede de vingança ou
desejo de chamar a atenção de potências interessadas na guerra civil daquele
país; talvez tenha sido por fanatismo xenófobo e religioso, só porque aquelas
religiosas católicas estrangeiras faziam algo de bom num contexto social
caótico e de violência generalizada.
Elas estavam ali
simplesmente por amor ao próximo, sem fazer proselitismo religioso, sem intenções
políticas ou econômicas, nem mesmo tinham a pretensão de salário; viviam em
pobreza voluntária, compartilhando a vida dos pobres e rejeitados do lugar. Estavam cientes do perigo
que corriam, pois meses antes sua pequena capela já havia sido incendiada.
Continuavam lá por escolha, para servir ao próximo nas situações extremas de
abandono e insegurança, em que cada um tenta salvar-se como pode e os que não
podem são abandonados e esmagados pelo rolo compressor da violência.
A
atitude delas foi heroica? Talvez. Mas elas não pretendiam ser heroínas, nem
mulheres de ferro, corajosas a ponto de enfrentarem qualquer risco. Eram
frágeis como os pobres e rejeitados assistidos por elas. O que faziam tinha uma única motivação: a prática do bem, por amor a Deus
e ao próximo.
Cabe
ainda alguma dúvida sobre o que foi mais belo e louvável: o ato insano de quem
descarregou seu ódio e sede de vingança ou a atitude das missionárias
assassinadas? É difícil imaginar que alguém louve a ação violenta e reprove a
atitude das Missionárias da Caridade.
A prática do bem e da virtude enobrece
quem a faz e recebe o reconhecimento das outras pessoas. O bem é belo e
enobrece. A prática do mal é moralmente feia, merece a reprovação e deixa
marcas depreciativas em quem o faz.
Parece
que estou dizendo o óbvio, mas é bom que nos perguntemos se isso ainda vale. Ou nem sabemos mais o que é bem e o que é
mal? O certo e o errado? Talvez seja este um dos problemas do nosso tempo:
nada vale e tudo vale. O que é visto como um bem por uns é interpretado como um
mal por outros.
O
que faz com que uma ação seja boa ou seja má? Embora a questão não seja
totalmente objetiva e no julgamento das ações concorram muitos fatores, é certo
que o bem e o mal permanecem contraditórios.
Nada pode ser bom e mau ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista. Temos
ainda parâmetros para chamar de bom o que é bom? E de mau o que é mau?
Passemos
a outro cenário. O Brasil vive diversas
crises ao mesmo tempo: política, econômica, social... A meu ver, esta situação de crise é resultado,
sobretudo, de uma longa e profunda crise moral. Há tempos vivemos uma
ambiguidade ética na vida pública e privada e chegamos agora a um momento
crucial, em que se faz necessário rever
algo na cultura que vamos edificando. Não é mais possível ir adiante com
esquemas corruptos na política e na administração pública. Além disso, o exemplo que vem de cima tende a ser
padrão de referência para comportamentos e decisões privadas dos cidadãos.
Necessária é uma séria avaliação e uma tomada de consciência, para uma nova
atitude.
A
presente geração tem a oportunidade de realizar uma mudança nos padrões de
comportamento no que se refere à:
* honestidade pública,
* à lisura na administração do bem comum,
* à sensibilidade em relação aos sofrimentos do próximo.
A
crise econômica, misturada com a crise política e moral, acaba pesando mais
duramente sobre as pessoas que já sofrem e são deserdadas do bem comum.
Os serviços públicos de
saúde, educação, saneamento básico e segurança pública sofrem imediatamente as
consequências negativas da crise econômica. E a perda do emprego acaba empurrando mais
gente para a angústia, a pobreza e a miséria.
Voltemos
às perguntas: é belo e louvável acumular
riqueza desonesta? Desviar dinheiro público para o benefício privado? Isso
não mexe em nada na consciência? Dorme
tranquilo quem se apropria de bens que não lhe pertencem? Que são do
Estado, destinados a promover o bem comum? Consegue olhar para as filas de
doentes, rostos sofridos, nos consultórios do SUS, sem sentir calafrios e dores
na alma, quem se apropriou de recursos públicos, que deveriam atender aos
serviços básicos de saúde da população?
Haverá,
talvez, quem continue a achar que é bobo quem tem a ocasião e não a
aproveita... Será que esta lógica do jeitinho maneiro merece louvor e
aprovação, mais que a administração honesta e conscienciosa do bem alheio?
Parece
que temos certa timidez para chamar honesta a ação honesta e desonesta a que é
desonesta. Os pequenos desvios morais
abrem as portas à grande corrupção. Não seria hora de nos perguntarmos
sobre o que é belo no agir humano e o que é reprovável? De chamar bem o que é
bem e mal o que é mal? Ou se corrompeu
também o nosso senso moral?
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