Brasil em recessão ! ! ! Há saídas ? ? ?
“Fora um milagre, crescimento não voltará”
Entrevista
com José Alexandre Scheinkman
Economista e Professor na Universidade
Columbia (Estados Unidos)
Luiz Guilherme
Gerbelli
Para Scheinkman, economia brasileira precisa de
reformas
para conseguir crescimento sustentável
JOSÉ ALEXANDRE SCHEINKMAN Economista brasileiro e Professor na Universidade de Columbia (EUA) |
O
economista José Alexandre Scheinkman
vê problemas de diferentes horizontes para a economia brasileira. Ele defende
que a economia do País precisa de
reformas e aumentar a produtividade para voltar a crescer. “Sem resolver
essas questões, vai ser praticamente impossível um crescimento continuado.
Vamos continuar na chamada armadilha da renda média, de que em um determinado
momento pareceu ser possível escapar”, disse Scheinkman, professor da
Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. A seguir os principais trechos da
entrevista concedida ao jornal O Estado
de S. Paulo.
Como
o sr. analisa o quadro da economia?
Scheinkman: Há problemas de diferentes
horizontes no Brasil. No curto prazo, eu diria que é sobre a
chamada nova matriz econômica. Foram medidas econômicas que causaram muitos
problemas para a economia brasileira. Algumas das ideias já começaram a ser
desmontadas, como o controle do preço da gasolina. O segundo problema está
relacionado com o déficit de curto prazo. O governo hoje tem um déficit
primário e nominal muito alto. Um terceiro problema tem a ver com o
processo automático de aumento de despesas incompatível com o tamanho da
economia brasileira. E isso só pode mudar com reformas estruturais de longo
prazo.
E
quais os riscos de o País não resolver essas questões?
Scheinkman: O desmonte da nova matriz
econômica é uma condição necessária para retornar ao crescimento. Sem isso, a
gente só vai voltar a crescer se, de repente, houver um milagre – se o preço do
barril do petróleo for a US$ 200 ou a China voltar a crescer 10% ao ano. Fora
um milagre, vai ser difícil voltar a crescer.
E
as questões fiscais de médio prazo?
Scheinkman: Precisamos de um Banco Central
com mais credibilidade para que a política monetária seja mais independente e
efetiva. Se o País não fizer isso, a inflação vai continuar acima da meta.
E
no longo prazo?
Scheinkman: As questões de longo prazo
são ainda mais importantes porque o Brasil não vai conseguir manter um
crescimento sustentável com a situação fiscal que se desenha. Também é incrível
a ineficiência dos programas brasileiros. Sem resolver essas questões, vai ser
praticamente impossível um crescimento continuado. Vamos continuar na chamada
armadilha da renda média, de que em um determinado momento pareceu ser possível
escapar.
Além
das questões fiscais, quais os outros desafios da economia brasileira?
Scheinkman: A produtividade brasileira
não acompanha a produtividade das economias avançadas. Os países que
conseguiram mudar de patamar de desenvolvimento se aproximaram da produtividade
da fronteira, no caso, da dos Estados Unidos, o país mais produtivo do mundo. Desde
a década de 80, nesse período todo, a produtividade do Brasil cresceu menos do
que a americana. É claro que, sem esse crescimento de produtividade, nós não
vamos conseguir sair do nível de renda que temos hoje em dia.
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SOMENTE COM UM SÉRIO E EFICAZ INVESTIMENTO EM EDUCAÇÃO HAVERÁ DESENVOLVIMENTO DURADOURO NO PAÍS |
O
que fazer para melhorar a produtividade do Brasil?
Scheinkman: É preciso um programa de
reformas enorme, com melhoria da
educação. O Brasil também tem muitas empresas
pequenas e precisamos passar por um processo que traga uma melhoria da
produtividade para essas companhias. Por fim, é preciso criar uma legislação que atraia investimentos em infraestrutura. Na
contramão, o governo Dilma atrapalhou o processo de concessões.
Essa
agenda é do governo?
Scheinkman: O atual ministro da Fazenda
está muito envolvido na criação dessa matriz. E existem pressões de economistas
ligados ao PT. É difícil ser superotimista e achar que tudo isso vai acontecer.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Economia –
Sexta-feira, 4 de março de 2016 – Pág. B5 – Internet: clique aqui.
Marcha à ré
Celso Ming
O desastre do PIB não é consequência da crise externa;
é obra do governo Dilma, que praticou uma política
econômica errada
Em
2014, quando as Contas Nacionais revelavam fracasso do Produto Interno Bruto
(PIB = soma de tudo aquilo que o país
produz em um ano), o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, dizia que
não se podia olhar pelo retrovisor, que era preciso olhar para a frente, pelo
para-brisa. Era puro papo-furado, porque o que veio depois é o que vemos. Desta
vez, esse tipo de conversa nem pode ser retomada. Já se sabe que o que vem pela
frente é ruim ou até pior do que aconteceu em 2015.
O
recuo do PIB, dentro do previsto, ficou nos 3,8% em relação ao nível de 2014. O brasileiro ficou mais pobre porque a
renda média (renda per capita) caiu 4,6% em relação à de 2014, com a
agravante de que o pobre e o cidadão de classe média devem ter perdido mais
renda do que o das classes favorecidas, porque este tem mais condições de se
defender da inflação e do estrago provocado pela recessão.
O
governo continua dizendo que esse tombo é consequência da crise externa.
Engolir essa história é acreditar em duendes. Só a Rússia (-3,8%) e a
Venezuela (-4,5%), dois grandes
exportadores de petróleo, apresentaram números parecidos com os do Brasil. Esse desastre é obra nossa; é do governo
Dilma, que praticou uma política econômica errada.
Três
são os números mais relevantes entre os apresentados nessa quinta-feira pelo
IBGE.
1º)
O primeiro deles é o novo naufrágio da
indústria: 6,2%, em comparação com
2014. Mas, se for tomado o segmento da indústria
de transformação, o afundamento é ainda maior: 9,7%; e o da construção
civil, grande empregador de pessoal, 7,6%.
Mais uma vez, salvou-se a agropecuária (crescimento de 1,8%), mas este é um
setor que pesa cerca de 5,0% no PIB.
2º)
O segundo é o Consumo das Famílias,
segmento festejado em anos anteriores como grande propulsor do crescimento
econômico e da renda nacional. O tombo,
de 4,0%, mostra que o poder aquisitivo foi ralado pela inflação e pelo
desemprego. Desta vez, o consumo externo (exportações) foi bem (aumento de
6,1%), mas é uma conta que também pesa pouco no PIB, coisa de 13,0%.
3º)
E o terceiro número mais relevante tem a ver com o investimento, que tecnicamente leva o nome e sobrenome de Formação Bruta de Capital Fixo. A queda em relação a 2014 foi de 14,1%.
Esse desempenho foi especialmente desastroso porque investimento de hoje é produção de amanhã. Se a semeadura se retrai
dessa forma, é inevitável o impacto sobre a safra futura. E essa é uma das
razões por que olhar a paisagem pelo retrovisor não entusiasma ninguém (veja
ainda abaixo).
O forte recuo de 2015
funciona como embalo negativo para 2016. Qualquer recuperação terá de suplantar a atual
velocidade da marcha à ré. Esse é um dos motivos pelos quais as projeções sobre
o comportamento do PIB de 2016 não são muito diferentes do resultado de 2015. O
Boletim Focus, por exemplo, que
registra a expectativa de cerca de 100 consultorias, bancos e departamentos
econômicos de empresas, aponta para este
ano novo recuo do PIB de 3,45%. O próprio Banco Central passou a trabalhar
com queda do PIB de 3,0%. Se um número dessa ordem se confirmar, em dois anos a
economia brasileira terá se esvaziado em cerca de 8%.
O gráfico abaixo mostra como
investimento e poupança deslizam ladeira abaixo.
POUPANCINHA
O
Brasil consome demais pelo que quer crescer. Sobra pouca coisa para a poupança. Esse é um dos fatores que
seguram o avanço. Só para comparar, o padrão asiático é poupança de 30% a 35%
do PIB, mais do que o dobro do brasileiro. O da China é superior a 50%. Quando o governo estimula ainda mais o
consumo, com crédito subsidiado, como aconteceu quando prevaleceu a Nova
Matriz Macroeconômica, o baixo
crescimento passa a ser opção de política econômica.
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