Como se decide o futuro!
Pensando sobre Trump
MOISÉS NAIM
Escritor
venezuelano e membro do Carnegie Endowment - Washington
Uma decisão sobre Hillary pode converter o FBI no
grande eleitor de novembro
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JAMES COMEY O atual diretor do FBI (a Polícia Federal dos Estados Unidos) poderá ter papel decisivo nestas próximas eleições presidenciais norte-americanas |
Terá o FBI nestas eleições
americanas o mesmo papel que teve a Suprema Corte nas eleições de 2000? Naquelas eleições, a
intervenção do tribunal determinando a suspensão da recontagem de votos na
Flórida levou George W. Bush à Casa Branca e mandou Al Gore para casa.
Dos
nove juízes da Corte, cinco votaram a favor da suspensão e quatro, contra, o
que deu a Bush a vitória naquele Estado e com os votos necessários para ganhar
de Gore nas eleições nacionais. Sabemos o que veio depois. Por um voto de
diferença na decisão da Suprema Corte.
Que tem isso a ver com as
eleições presidenciais deste ano? Se, em 2000, a Suprema Corte foi a instituição que
determinou na prática quem seria o presidente dos Estados Unidos, este ano o grande eleitor poderá ser o
diretor do FBI, James Comey.
Sua
organização está investigando se, como secretária de Estado, Hillary Clinton
comprometeu a segurança nacional ao enviar mensagens confidenciais do governo
por seu sistema particular de correio eletrônico. Se o FBI decidir abrir processo contra Hillary por esse motivo,
naturalmente, a desabilitará como candidata.
E, ocorrendo isso, é muito provável que Donald
Trump seja o próximo presidente dos Estados Unidos. Qual será a decisão de
Comey?
Obviamente,
uma vitória de Trump não se deverá apenas a que o FBI desqualifique sua rival,
mas também aos milhões de americanos que votam nele seduzidos por sua mensagem,
estilo e promessas. E também enganados por suas mentiras.
A
marcha aparentemente impossível de deter de Trump rumo à candidatura
presidencial pelo Partido Republicano disparou alarmes entre líderes
republicanos, como Mitt Romney, que já fez duros ataques ao empresário e
candidato.
Também
começam a se levantar vozes que chamam atenção sobre as falhas dos meios de
comunicação por não haverem sido mais diligentes no escrutínio do controvertido
passado de Trump, não exporem ante a opinião pública suas mentiras e não porem
em evidência a inviabilidade de suas políticas.
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HILLARY CLINTON tem grandes chances de tornar-se a candidata do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos, seria, também, a única capaz de vencer Donald Trump |
Philip Bennett, respeitado jornalista e
professor da Universidade Duke,
argumenta que a falha dos meios de
comunicação no caso de Trump só é superada pelo fracasso deles em investigar a
fundo se era certo que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa, como
afirmava o governo de George W. Bush para justificar a invasão do Iraque. “Essa
cegueira jornalística no caso de Donald Trump não deveria ocorrer na era da
internet, das novas tecnologias que permitem basear reportagens em grandes
bancos de dados ou motores de busca pelos quais se pode verificar uma afirmação
simplesmente teclando umas poucas palavras num computador”, afirma Bennett.
Entretanto,
e independentemente da falha da mídia ao permitir que milhões votem acreditando
em coisas que são claramente falsas, o certo é que o grande protagonista, nem bem compreendido nem bem conhecido desta
campanha não é Donald Trump. São os eleitores aos quais não parecem importar os
dados, informações, evidências e constatações inquestionáveis que põem em
dúvida a integridade ou a sinceridade de seu candidato.
As
explicações mais comuns descrevem os eleitores de Trump como “irritados”, “fartos dos políticos” e majoritariamente “brancos com baixo nível de
escolaridade”. Ainda que essas características dos simpatizantes de Trump
possam ter alguma base nas pesquisas, o certo é que também são claramente
superficiais e insuficientes. Os
eleitores de Trump são mais complexos que isso. Têm muito em comum, por
exemplo, com aqueles que apoiam os
movimentos populistas que ganharam força na Europa e outras partes – e são
encontrados tanto na esquerda quanto na direita.
O
mais interessante de Trump como produto político não é a excepcionalidade, mas
a forma comum com que ocorre nestes tempos de antipolítica. Os “terríveis simplificadores” proliferam
quando cresce a incerteza e a ansiedade social, tornando-se hoje uma tendência
global. Estão em toda parte. Mas Trump é a mais perigosa manifestação da
tendência. E isso não é excepcional.
Traduzido por Roberto Muniz.
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