AGONIA MORAL DE LULA
J. R. Guzzo
O ex-presidente Lula perdeu o bem mais precioso que
poderia ter:
a força decisiva para tornar-se alguém que valha a pena
como pessoa e como homem público
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LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA P E R D E U A SUA FORÇA MORAL E CAPITAL POLÍTICO ! ! ! |
O
EX-PRESIDENTE LULA perdeu a batalha mais importante de sua vida. Tem pela
frente, ainda, um demorado tiroteio nas altas, médias e baixas cortes da
Justiça Penal brasileira. Mas não tem
mais esperanças de sobreviver a uma doença para a qual não existe cura
conhecida: a destruição de sua força moral. Trata-se do conjunto de
atributos que realmente separa os homens, e mesmo as nações, em matéria de
sucesso ou fracasso, e ao qual se costuma dar o nome genérico de caráter.
Sabe-se desde sempre o que entra nesse conjunto. Entram aí o valor da palavra dada, a reputação, o respeito aos outros e
a si próprio, a capacidade de transmitir confiança. É a força que faz uma
pessoa falar e ser naturalmente acreditada. É a coragem para assumir
responsabilidades, enfrentar momentos adversos, não abandonar os amigos em
dificuldade. É o exercício da honestidade e da integridade comuns. Em suma, é o que na linguagem do dia a dia se
chama de "vergonha na cara" — ou honra pessoal. Muito mais que
fama, força ou riqueza, é o que realmente faz a diferença. Fará toda a
diferença para Lula. Sua batalha está
perdida porque ele perdeu o bem mais precioso que poderia ter — a força moral
decisiva para tornar-se alguém que valha a pena como pessoa e como homem
público.
Hoje, [Lula] vivendo acuado
num prédio de escritórios do bairro paulistano do Ipiranga, com suas despesas
pagas por magnatas, cercado não pela massa dos pobres que diz ter salvado, mas
por negociantes de "marketing", burocratas do PT, parasitas variados
e uma armada de advogados que pouquíssimos brasileiros poderiam pagar, Lula
está só. Do
povo, nem sinal. O homem que tanto menosprezou os adversários falando de sua
popularidade de 100% não pode ir a um campo de futebol — nem ao estádio do
Corinthians, em Itaquera, cuja construção impôs para a Copa do Mundo de 2014,
da qual não conseguiu assistir a um único jogo. Não pode ir jantar um frango com
polenta em São Bernardo. Não pode ir a uma loja, comer um pastel de feira ou
andar sem a proteção de um regimento de seguranças. Não pode ir ao infeliz
sítio de Atibaia que tanto frequentou até faz pouco, e no qual empreiteiros
amigos socaram uma fortuna em reformas — e muito menos a esse amaldiçoado
tríplex do Guarujá. Não pode, no fim das
contas, sair à rua — e, como se fosse um castigo, não pode gastar livremente no
seu próprio país os milhões de reais que ganhou fazendo palestras para
construtoras de obras públicas e outros colossos da elite empresarial
brasileira. Que líder de massas é esse? Aos 70 anos de idade, Lula veio acabar
metido na situação contrária à que Guimarães
Rosa descreve num conto particularmente genial de sua vasta coleção de contos
geniais, o Burrinho Pedrês. Como se
lembram os leitores da história, o modesto burrinho sabia uma coisa mais
importante que todas as outras, para quem, como ele, tinha sido sorteado com
uma vida difícil — jamais entrava em lugar algum de onde não soubesse como sair
depois. O ex-presidente entrou com tudo. Agora precisa sair, mas não sabe onde
está a saída.
É
certo que Lula não será ajudado, nessa procura por um caminho capaz de tirá-lo
do buraco, por nenhuma das manobras que vem utilizando há trinta anos para dar
a volta em seus problemas. A causa
verdadeira do colapso que vive hoje é o fato de ter entrado em estado de coma moral
— e isso não se resolve chamando um gerente de propaganda para bolar
comerciais de TV, da mesma forma que "imagem", por mais esperteza que
se empregue em sua criação, não substitui caráter. Também não adianta gastar
dinheiro com advogados que passam o tempo armando chicanas processuais e outros
truques destinados a impedir que se julgue o mérito real dos fatos alegados contra
ele; isso pode funcionar como estratégia de fuga, mas não cria valores em cima
dos quais se consiga construir uma reputação. Não é possível sair do lugar em que o ex-presidente se enfiou
distribuindo camisetas vermelhas, fretando ônibus e pagando diárias, sempre com
dinheiro público a milícias que se apresentam como “movimentos sociais”. Dá
errado, cada vez mais, continuar atirando em Fernando Henrique Cardoso – isso para
ficar apenas no alvo que se tornou sua ideia fixa – na esperança de provar que “todo
mundo é igual”; quanto mais tentam fazer a comparação, mais chocantes ficam as
diferenças de conduta entre os dois. Enfim: tem-se tentado de tudo, e nada dá
certo. Continuará assim, pois nada altera a pane central que existe nessa
história: Lula não é o homem que diz ser.
Também não é o que seus admiradores, de boa-fé ou por interesse, acham que
seja.
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O ex-presidente Lula foi levado pela Polícia Federal ao Aeroporto de Congonhas para prestar seu depoimento nesta sexta-feira, dia 4 de março de 2016. Foto: Marcos Bizzotto / Raw Image |
A desmontagem da estrutura
ética do ex-presidente está sendo feita unicamente através de FATOS, não de
alegações;
e são fatos que não precisam mais ser provados, pois todas as provas já foram
exibidas e confirmadas. Mais: nenhum
deles, até agora, foi apresentado ao público brasileiro pela oposição, que
se limita a acompanhar sua divulgação na imprensa e fazer o mínimo possível de
comentários.
A
derrota, enfim, não veio por causa de nenhuma batalha dessas que fazem tremer a
terra – nada de Waterloo, ou de invasão da Normandia no Dia D. Tudo veio acabar
em mesquinharias e pequenez, nas miudezas miseráveis da reforma de um sítio de
segunda linha, nas 200 caixas de mudança da “transportadora Cinco Estrelas”,
nos desvãos de uma arapuca imobiliária que lesou 3000 famílias com um golpe na
praça. Não houve a discutir, nessa demolição, uma única questão de princípio,
filosofia política ou consciência – ficou tudo exclusivamente numa conversa de
fim de feira sobre quem é o dono do tríplex na cooperativa falida, quem pagou a
cozinha Kitchens, quem mora de graça
na casa de quem. Mais que qualquer outra coisa, ficou uma palavra-guia, a palavra que não pode mais calar na biografia
de Lula: empreiteira, empreiteira, empreiteira. É aí, na hora da verdade, que ele encontrou de
fato sua perdição.
Nada destruiu tanto a
autoridade moral de Lula quanto seu convívio com as empreiteiras de obras
brasileiras, durante e depois de seus dois mandatos. Nunca antes, em toda a
história do Brasil, houve um presidente da República com tantos e tão íntimos
amigos entre os empreiteiros. Alguém é capaz de citar outro? Em apenas quatro anos,
de 2011 a 2014, momento em que a casa começou enfim a cair, Lula recebeu 27
milhões de reais para fazer palestras encomendadas pelos gigantes da construção
pesada no país. Foi presenteado, também, com contribuições
milionárias para sustentar as despesas do seu Instituto Lula — isso e mais
viagens de jatinho, uma antena de celular a 100 metros do sítio que utiliza em Atibaia,
e as obras de reforma nesse mesmo e malfadado sítio, que agora atormentam sua
vida. Os presentes não vieram apenas das empreiteiras, certo, mas isso não
melhora sua situação em nada — vieram de fontes mais sombrias ainda, como um
consórcio de estaleiros que vivem de contratos com a Petrobras, o Banco BTG
Pactual, um "centro de estudos" de Angola. Através da francesa GDF Suez,
há traços até da inesquecível Astra Oil,
que vendeu à Petrobras o ferro-velho da refinaria americana de Pasadena, algo
tão parecido com uma negociata em estado puro, mas tão parecido, que até hoje
não foi possível descobrir a diferença. Ganhar dinheiro fazendo palestras para
essa gente está dentro da lei? Está. Está dentro da moral comum? Não está, e é
aí que começa e acaba o problema. Um
ex-presidente da República não pode, simplesmente não pode, aceitar dinheiro de
empresas que dependem do Tesouro para sobreviver. É isso, e ponto final.
Como
seria possível confiar na imparcialidade, na palavra e na integridade de
valores de alguém que anda em tais companhias, ainda mais quando se sabe da
influência que exerce no governo que está aí? Lula recebeu dinheiro das empreiteiras porque foi presidente do Brasil
por oito anos, e não por seus conhecimentos em matéria de viadutos, ferrovias e
usinas hidrelétricas; ninguém lhe daria um tostão furado se tivesse sido
apenas presidente de sindicato. Lula diz o tempo todo que só chegou ao comando
da nação porque os pobres votaram nele. Mas não vê nenhum problema no ato de
transformar em dinheiro vivo, agora, o apoio que recebeu dos humildes — a quem
deve tudo, inclusive sua transformação em milionário. O ex-presidente, de
tempos em tempos, diz que tem o direito de ser rico. Tem, mas não tem. Não pode
botar no bolso, sem se desmoralizar, 27 milhões de reais de empreiteiros — nem
ser seu amigo íntimo, prestar-lhes serviços, permitir que lhe paguem despesas,
aceitar que sejam sócios de um dos seus filhos e sabe-se lá ainda o que mais. Um homem público como ele não pode, nessas
coisas, ser igual aos demais cidadãos. Tem de abrir mão de uma porção de
confortos; é o preço a pagar para manter inteira a sua moral. Se achar injusto,
bastará deixar a vida pública; ninguém é obrigado a ser presidente da
República.
Lula acostumou-se a achar
que tem direito a tudo, e não está sujeito a nada. Imaginou que pudesse ser o
mais querido entre as empreiteiras — e que isso não iria lhe trazer problema
algum. Achou que seus dois filhos
pudessem ganhar milhões fazendo negócios com empresas que dependem do governo.
Não viu nada de mais em meter-se com uma quadrilha que vendeu apartamentos na
planta a bancários, roubou o dinheiro que recebeu deles e foi à falência sem
entregar os prédios. Com exceção, claro, de um ou outro que foi concluído por
uma empreiteira, mais uma, e reservado aos amigos — entre eles o que abriga o
tríplex do Guarujá. O que Lula, que nem bancário
é, estava fazendo no meio dessa gente? As histórias vão adiante e adiante;
o que apareceu escrito aqui está muito longe de ser tudo. Mas é o suficiente.
Este é um combate que claramente chegou ao fim.
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