Três anos de Papa Francisco, “coerência entre o que prega e o que vive”
Edison Veiga
Jornal consultou as maiores autoridades do catolicismo
no Brasil:
espontaneidade e carisma do pontífice foram destacados
![]() |
PAPA FRANCISCO Há três anos governando com misericórdia e coerência evangélica a Igreja Católica |
Faz três anos neste domingo,
13 de março, que o argentino Jorge Mario Bergoglio se tornou o 266º papa da
Igreja Católica, adotando o nome de FRANCISCO. Desde então, o mundo não se cansou de ser
surpreendido por seus espontâneos sorrisos, sua simplicidade e seu jeito
carismático de ocupar o tradicional “trono de Pedro”.
Ao
longo da última semana, a reportagem d’O Estado
de S. Paulo ouviu cardeais, arcebispos, bispos, provinciais e outras
autoridades do catolicismo brasileiro, com o objetivo de buscar o que seria a síntese, até o momento, deste
pontífice – o primeiro sul-americano a ocupar o posto – que, mesmo com tão
pouco tempo à frente do Vaticano, já intermediou mudanças como a volta das
relações entre os Estados Unidos e Cuba e trouxe para o centro da Igreja a
preocupação com o meio ambiente – graças à encíclica Laudato Si’, publicada em junho do ano passado.
“O papa Francisco tem
ajudado muita gente a se aproximar de Deus e da Igreja. Um dos fatores mais
importantes é o seu testemunho fiel, a sua coerência entre o que prega e o que
vive. O testemunho é fator de credibilidade. Ele ensina por meio de gestos
concretos”,
avalia dom
Sergio da Rocha, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil (CNBB) e arcebispo metropolitano de Brasília. “Além disso, a sua ênfase na misericórdia e no acolhimento faz com que
muitos se sintam carinhosamente abraçados por ele e, através dele, pela Igreja.”
O
presidente da CNBB frisa a “simplicidade” e a “misericórdia” nas palavras e nos
gestos de Francisco. “A simplicidade do Papa Francisco, isto é o seu jeito simples e espontâneo, assim
como a sua ênfase na misericórdia, tem repercutido bastante no modo de ser
Igreja, hoje, especialmente na ação pastoral. Com a ajuda do Papa
Francisco, a Igreja tem se apresentado como Mãe misericordiosa e acolhedora,
como casa de portas abertas”, explica o arcebispo.
Carisma
“É
difícil resumir num exemplo as mudanças promovidas pelo papa Francisco na
Igreja, mas creio que a principal delas é representada pela sua própria pessoa, com seu carisma, sua capacidade de comunicação, sua simplicidade
e a constante busca de autenticidade
e verdade”, comenta o cardeal dom Odilo Pedro
Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo. “Ele tem um jeito
muito próprio e é papa desse jeito… E todos percebem facilmente essa mudança.”
Para
o cardeal Scherer, Francisco “é a pessoa
providencial” para este momento da História. “Ele está ajudando a Igreja a estar mais voltada para Jesus Cristo e o
Evangelho”, acrescenta o purpurado.
“O
papa não busca ter uma imagem popular; ele é o que é. Acostumado a viver no
meio do povo, quando vivia em Buenos Aires; acostumado a ser direto nos
assuntos de que trata, ele levou esse seu jeito para a Igreja”, afirma dom Murilo
Sebastião Ramos Krieger, arcebispo metropolitano de São Salvador da
Bahia e primaz do Brasil, vice-presidente da CNBB. “A resposta do povo, e não
só católico, tem mostrado que todos querem isso mesmo. Com isso, todos os setores da Igreja sentem-se
chamados e motivados a serem, também, mais diretos, objetivos e transparentes.”
O
vice-presidente da CNBB reconhece em Francisco um papel didático: o daquele que
ensina “a importância do serviço”.
“A Igreja está a serviço do povo; ela o serve apresentando-lhe a palavra do
Evangelho. Os cargos e títulos são para
o exercício desse serviço, e não em função da própria pessoa”,
contextualiza d. Murilo. “Esse serviço deve ser feito com simplicidade, indo ao
encontro do povo mais distante e sofrido. Portanto, servir significa ter um espírito missionário.”
![]() |
REVISTA TIME - UMA DAS MAIS IMPORTANTES DO MUNDO destaca Papa Francisco como "O Papa do povo" e afirma que ele está "redefinindo o papado com humildade e ternura". |
Ele ri
“Há uma mudança de paradigma quando um
chefe da Igreja se aproxima das pessoas e fala em seu nome e, por conseguinte,
em nome de toda a instituição”, diz o provincial dos jesuítas do Brasil, padre João Renato
Eidt. “Por outro lado, as pessoas se sentem reconhecidas ao saber
que ele sabe como vivemos… Um papa que
ri despretensiosamente com uma jovem ao falar sobre futebol; um papa que
pede insistentemente pela paz no mundo; um papa que interfere em conflitos
entre nações que estão no ‘centro’ e outras que estão nas ‘periferias’; um papa
que busca aproximar igrejas por meio de ideais comuns de fraternidade e
comunhão; um papa que reconhece as
‘doenças’ dos membros da Igreja e, ao mesmo tempo, oferece ‘antibióticos’ para
a cura; um papa que beija, abraça e se aproxima dos mais simples.”
“A
voz quase que solitária do papa Francisco vem denunciando uma situação de
desconfiança que se instalou em meio ao mundo conturbado em que vivemos. É uma
denúncia de pastor, mas com exortação de pai misericordioso, o que nos faz
despertar a nós mesmos e ao outro, num gesto firme de que há esperança na
humanidade”, acrescenta dom Matthias Tolentino Braga, abade do Mosteiro
de São Bento de São Paulo. “Com objetivo
claro e simples, mas não ingênuo, busca reunir os cristãos e os não cristãos a
um ativo combate contra os males que assolam a atualidade – o terrorismo, as
guerras e a indiferença.”
Mudança
“Destacaria
(como consequência do trabalho de
Francisco) a mudança na forma de a
Igreja se comunicar e a passagem de uma linguagem institucional e teologicamente
precisa, para um discurso mais espontâneo e informal”, ressalta monsenhor Vicente
Ancona Lopez, vigário-regional do Opus Dei no Brasil. “Dessa forma, o papa tem reaproximado e resgatado amplos
setores da Igreja e da sociedade que eram hostis e refratários à hierarquia da
Igreja e ao próprio papado.”
“(Francisco promove) uma Igreja que não se contenta em esperar que os fiéis ou não fiéis
a procurem, mas que se coloca em um
estado de missão, indo ao encontro das pessoas, levando-lhes a mensagem da
salvação”, salienta dom Antônio Carlos Rossi Keller, bispo de
Frederico Westphalen. “Trata-se de um princípio missionário, uma atitude de
missão permanente que visa sair ao
encontro da humanidade enferma, marcada fortemente pelo pecado e seus
devastadores efeitos, tanto no âmbito pessoal como também no social.”
Comentários
Postar um comentário