Sono dos adolescentes: por quê? Consequências...
Tá com sono?
Jairo Bouer
Psiquiatra
Adolescentes necessitam de, no mínimo, 9 horas diárias
de sono para manter a atenção
Com
a volta às aulas de milhões de alunos nas últimas semanas em todo o País, as cenas de adolescentes bocejando, dormindo
sobre as carteiras e com dificuldade de prestar atenção nos professores
tornaram-se frequentes. Mais: os pais também devem ter percebido a
sonolência, irritabilidade e mau humor crescente nos filhos em casa. Por que tudo isso?
Segundo
uma série de trabalhos atuais, a “revolução”
dos hormônios que se inicia na adolescência tem outro alvo além das
espinhas, do crescimento acelerado e do maior desejo sexual. Há um impacto importante no ritmo
circadiano (que controla, entre outros circuitos, o nosso ciclo de sono).
Assim, haveria um atraso natural no
início da fase de sonolência dos jovens. Trocando em miúdos, dificilmente eles conseguem ir para a cama
cedo, antes das 23 horas, e acordar antes das 8 horas.
Some-se
a esse marcador biológico a invasão
recente que a tecnologia provocou na vida e nos quartos dos adolescentes e
a confusão está armada. Sem sono e com centenas de estímulos à disposição
(jogos, redes sociais, vídeos, músicas, aplicativos etc.) é cada vez mais complicado “pegar” no sono.
Bom
lembrar que as pesquisas científicas reforçam que, além de terem mais
dificuldade em dormir cedo, os adolescentes precisam de, no mínimo, nove horas
diárias de sono para equilibrar hormônios, crescimento, saúde e capacidade de
manter a atenção. As notas melhoram
quando eles dormem bem e problemas como diabete e obesidade diminuem.
Outras
linhas de pesquisa ainda afirmam que a luminosidade emitida pelas telas de
televisão, computadores, tablets e celulares teria um efeito direto no cérebro
dos jovens, tornando ainda mais complicada a chegada daquele “soninho”. Para os cientistas, o ideal seria desligar
os aparelhos cerca de uma hora antes de ir para a cama. Algum filho
consegue fazer isso?
Baseada
nessas evidências, a Academia Americana
de Pediatria recomendou, já em 2014, que as aulas dos jovens começassem
mais tarde. Alguns especialistas chegam
a dizer que escola para adolescentes deveria funcionar só depois do almoço.
Em uma série de cidades dos Estados Unidos, as redes públicas se reorganizaram
para iniciar as aulas mais tarde. Seattle mudou de 7h50 para 8h45 o começo das
atividades no último semestre. Mas, de um modo geral, para a maior parte dos
municípios a alteração ainda é complicada.
Há
um impacto direto na vida das famílias, já que muitas têm filhos mais novos,
que continuam a ter aulas às 7h. O
horário adiado pode atrapalhar a rotina dos pais. Para as escolas, começar
mais tarde significa, também, acabar mais tarde, o que pode comprometer as escalas e outras ocupações
dos professores, as atividades extracurso dos alunos e a prática regular de
atividades esportivas, que boa parte dos jovens americanos faz no período da
tarde.
Maior
carga, mais problemas?
Outro
estudo, da Universidade de Miami e
publicado no periódico médico Jama
Pediatrics, sugere relação entre a maior prevalência hoje do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade
(TDAH) e a crescente demanda a que as crianças são submetidas na escola.
Pesquisadores
avaliaram a educação infantil desde 1970 e perceberam que o tempo gasto para
ensinar letras e números a crianças de 3 a 5 anos aumentou 30% de 1981 a 1997.
Já o número de crianças em tempo integral saltou de 17%, em 1970, para 58% em
2000 e o tempo gasto com lição de casa dobrou para as crianças de 6 a 8 anos. Essa maior carga acadêmica pode ter um peso
no aumento de diagnósticos de TDAH.
Para
pensar: que tal a gente começar a rever o trabalho dos menores de 7 anos na
escola e pensar em qual seria o melhor horário de aulas para garantir mais
rendimento e saúde para os adolescentes?
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Metrópole / Saúde – Domingo, 6 de março de 2016 – Pág. A22 – Internet: clique aqui.
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