O cenário do pós-Dilma: nada de otimismo!
Casamento mal-arranjado
José Roberto
de Toledo
Há grande desconfiança na gestão do PMDB em caso de
impedimento
de Dilma, e incertezas sobre o desfecho das crises
política e econômica
![]() |
MICHEL TEMER, DILMA ROUSSEFF E LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA Na cerimônia de posse como Presidente da República de Dilma |
O impeachment de Dilma Rousseff segue
favorito na Câmara, apesar do regateio do PP e assemelhados com o PT por cargos
e verbas. Mas o otimismo sobre o que
pode ser o pós-Dilma parece estar em refluxo. A perspectiva de:
* interinidade demorada de Michel Temer até o julgamento final da
presidente pelo Senado,
* a chance de cassação de ambos pelo Tribunal Superior Eleitoral e,
principalmente,
* o cheiro de pizza no ar - para safar a cúpula do PMDB na Lava Jato –
sugerem
meses de crise política e econômica, agora sob nova administração.
Não
é apenas aos olhos de atores políticos que o pós-Dilma está ganhando tons de
cinza. A população em geral não está
propriamente entusiasmada com a ideia de um governo Temer - embora apoie por
ampla maioria o impedimento de Dilma pelo Congresso. É o que mostra
pesquisa inédita feita pelo Ideia
Inteligência na segunda e terça-feiras, e que será divulgada hoje durante
debate promovido pelo Brazil Institute,
no Wilson Center, em Washington (EUA).
A maioria absoluta dos
entrevistados (51%) espera uma gestão apenas “regular” por parte do atual vice. Entre os demais, o
pessimismo é quatro vezes maior do que o otimismo: 39% preveem um governo ruim ou péssimo. Só 10% acreditam que, com o
PMDB à frente da administração federal, a gestão será boa ou ótima. Ainda mais
relevante, 55% dizem preferir novas
eleições a um governo Temer (12%) - um a cada três não soube responder. O Ideia entrevistou 10 mil pessoas, pelo
telefone, em 82 cidades.
O
resultado é compreensível se levarmos em conta o histórico. Afinal, o PMDB tem sido sócio e avalista da
gestão petista desde 2004. Daquele ano até 2012, a fatia peemedebista na
administração federal só cresceu, inclusive na Petrobrás - a vaca leiteira que
amamentou os esquemas de corrupção revelados pela Lava Jato. Foi em 2007 que o PMDB encontrou sua chance
de ouro para engordar sua fatia de poder na gestão da estatal [Petrobrás].
Em
novembro daquele ano, o governo Lula se comprometeu a patrocinar a entrada da
Venezuela no Mercosul. Mas a ratificação do acordo empacou na Comissão de
Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. O PMDB aproveitou para barganhar: trocou a entrada da Venezuela no
bloco econômico pela nomeação de Jorge Luiz Zelada para a Diretoria
Internacional da Petrobrás. Oito anos depois, Zelada seria condenado a 12
anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro enquanto exercia o cargo.
![]() |
JORGE LUIZ ZELADA Foi indicado à Diretoria Internacional da Petrobrás pelo PMDB com a tarefa de captar dinheiro para o partido |
Apesar
dos conflitos inerentes à relação entre os dois maiores partidos políticos
brasileiros, a parceria PMDB-PT vicejou
durante anos. O auge ocorreu em 2010,
quando o próprio Lula arranjou Temer
como vice de Dilma na chapa à Presidência. Foi o ex-presidente que abençoou
a união dos dois. Após a eleição, a relação presidente e vice nunca deixou de
ser fria. As tensões aumentaram após a “faxina” de Dilma no seu ministério em
2011. E viraram conflito durante as eleições municipais de 2012.
O PMDB se convenceu de que
enquanto o PT ganhava eleitoralmente com a parceria, a sigla encolhia. Petistas e peemedebistas
protagonizaram o maior número de coligações nas eleições de prefeito de 2012 e
- ao mesmo tempo - o maior número de confrontos diretos entre dois partidos.
Como resultado, o PT saiu das urnas maior do que entrou, e o PMDB, menor.
A ressaca veio em 2013. À eleição de Eduardo Cunha
como líder do PMDB na Câmara em fevereiro seguiu-se o soluço da economia e a
avalanche de manifestações de junho que solapou a popularidade do governo
petista. Nem a renovação dos votos de casamento de Dilma e Temer na eleição de
2014 conseguiu salvar a relação.
Há
mais de um ano que segmentos cada vez mais numerosos do PMDB trabalham pela
separação litigiosa de Dilma e do PT. Esta semana, simularam sair de casa, mas,
na verdade, estão é empurrando o cônjuge para fora. Jamais largariam o poder.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Quinta-feira, 31 de março de 2016 – Pág. A6 – Internet: clique aqui.
Começar de novo
Dora Kramer
Se a provável interrupção do governo Dilma não resultar
numa proposta firme e séria de recomeço, o impeachment
não terá valido de coisa alguma.
![]() |
EDUARDO CUNHA (presidente da Câmara dos Deputados), MICHEL TEMER (vice-presidente da República) e RENAN CALHEIROS (presidente do Senado): Todos do PMDB - O Brasil ficará, ainda, nas mãos deles? |
O PMDB ontem encerrou um capítulo da
longa narrativa da crise ao confirmar a retirada
de seu apoio ao governo e, com isso, aproximar o Brasil da possibilidade de
ver interrompido o segundo mandato presidencial no espaço de pouco mais de 20
anos.
O
epílogo dessa história, no entanto, ainda está por ser escrito. Caso venha
mesmo a ocorrer o impeachment da
presidente Dilma Rousseff, essa tarefa caberá ao conjunto das forças políticas
– se possível com o PT incluído – em aliança com a sociedade e as demais
instituições. O País não aguenta mais o
atual governo, é verdade.
A
hipótese do fim antes do tempo regulamentar propicia um horizonte de alívio
imediato, embora não represente a solução para os males que nos assolam nem
significa o fim do caminho. Ao contrário: marca a urgente necessidade de um recomeço, pois o Brasil tampouco aguenta mais
conviver com a incúria, a corrupção e o cinismo na forma de fatores
imprescindíveis ao exercício do poder.
A luta, portanto, continua,
vai além do ciclo do PT. É muito maior que a montagem de um governo de transição “surpreendentemente bom”, conforme as
palavras do senador José Serra, espectador e interlocutor privilegiado do
episódio atual e daquele que resultou na queda de Fernando Collor há 24 anos. Se a provável interrupção do governo Dilma
não resultar numa proposta firme e séria de recomeço, o impeachment não terá valido de coisa alguma.
Suas
excelências estejam atentas: trocar seis
por meia dúzia não vai angariar a simpatia do público escaldado e temente até
de água fria. O governo de Itamar Franco cumpriu seu dever de transição.
Serviu a uma alteração de paradigmas logo de imediato, mas não se prestou à
extinção das velhas e viciadas práticas. Apesar disso, construiu algo ao
resultar no Plano Real que estabilizou a economia e preparou o País para o
crescimento.
Se
for o caso de Dilma ser substituída, a quem vier a assumir no lugar dela – o
vice ou um novo eleito – caberá dar início a um processo de demolição de uma
obra podre e, ato contínuo, a reconstrução
de um Brasil em alicerces fincados em valores segundo os quais incúria,
corrupção, cinismo, demagogia não sejam regra e passem a ser exceção.
Disposição
transitória
Os
tucanos, inclusive aqueles favoráveis à participação do PSDB em eventual
governo de transição presidido por Michel Temer, defendem como premissa para
qualquer acordo o compromisso do vice de
não se candidatar a presidente em 2018.
No
ano passado, quando as conversas sobre o tema consideravam o afastamento de
Dilma como hipótese ainda remota, o tucanato chegou a propor a Temer a
apresentação de uma emenda ao capítulo das Disposições Transitórias da
Constituição, cujo texto contemplaria essa condição.
Na
época, Temer rechaçou a proposta.
Para
concluir
A
título de mero registro: dos ministros e
ex-ministros do Supremo Tribunal Federal que já se pronunciaram em prol da
legalidade do processo de impeachment,
repudiando a tese do “golpe”, cinco foram indicados em governos do PT:
* Luis Roberto Barroso,
* Antônio Dias Toffoli,
* Cármen Lúcia,
* Carlos Ayres Britto e
* Eros Grau.
Isso
sem contar a Ordem dos Advogados do
Brasil (OAB), que durante os últimos anos esteve entre a omissão e a
ponderação no tocante a críticas ao governo, que não apenas respalda como acaba de apresentar novo pedido de impeachment contra a presidente Dilma
Rousseff.
Evidência
de que, no caso em tela, a espada é a lei.
Comentários
Postar um comentário