Bons tempos em que todos eram contra a corrupção!
Alvos errados
Eliane
Cantanhêde
Petistas e tucanos centram fogo contra a Lava Jato,
que é mais solução do que problema
Não
sei se vocês repararam, mas petistas e tucanos parecem estar falando exatamente
a mesma língua quando se trata de (criticar a...) Operação Lava Jato. Não governadores, senadores e deputados do
PT e do PSDB, ou não apenas eles, mas principalmente uma imensa militância bem
informada que frequenta restaurantes, bares, shoppings e tem opinião sobre
tudo.
Desde a ditadura, petistas e
os quadros do PMDB que viriam formar o PSDB em 1988, a partir da dissidência dita
ética do PMDB, alimentaram o discurso contra a corrupção, a impunidade, os
políticos que sobrevivem à custa de trambiques milionários para todo o sempre. O lógico, portanto, seria
que petistas e tucanos soltassem fogos a favor da Lava Jato, mas o que se vê é
uma crítica ácida a métodos, a meios, a abusos de autoridades – procuradores,
delegados, agentes e o juiz Sérgio Moro.
Como
dizem advogados e ecoam cidadãos e cidadãs de maior escolaridade, nenhuma
autoridade pode se arvorar Deus, se sentir acima da lei, praticar ilegalidades
em nome da lei ou injustiças em nome da justiça. Daí as críticas ao PowerPoint
de procuradores tentando mostrar o ex-presidente Lula como “comandante máximo”,
“general”, “chefe” e “maestro” da “propinocracia”, à condução coercitiva de
Lula e a prisões como a de Guido Mantega. A
advertência é que, se as instituições e a sociedade aplaudirem ou assistirem
passivamente a excessos de agentes públicos, inclusive da Lava Jato, estaremos
todos e cada um sujeitos à arbitrariedade, numa escalada imprevisível.
Ok. Tudo isso é verdade, e a ira coletiva contra a
violência urbana e a impunidade histórica dos poderosos não pode se transformar
em linchamentos reais, nas ruas, ou morais, em investigações e processos. Até
porque a Justiça brasileira comporta dezenas de recursos e – por mais aplausos
que a Lava Jato mereça da maioria da sociedade, que não é petista nem tucana –
qualquer deslize técnico ou jurídico pode resultar em... nulidade no Supremo. Mas vamos convir que nossa prioridade não é
criticar a Lava Jato, mas aplaudir a tentativa de impedir a impunidade.
Enfim!
O
ministro Gilmar Mendes está entre os
que criticam excessos e apoiam um endurecimento da Lei de Abuso de Autoridade, mas sua amiga Cármen Lúcia faz ressalvas. Ela admite que leis são mutáveis e
deixa implícito que não seria mau uma revisão dessa do abuso, mas questiona: “É o momento para isso?”. Talvez não seja, com o Congresso fortemente
contaminado pela corrupção e investigado pelos mesmos procuradores e delegados
que estariam entre os alvos das mudanças. Mexer na lei agora seria para
proteger os implicados e limitar os investigadores.
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CÁRMEN LÚCIA Ministra e atual Presidente do Supremo Tribunal Federal: "É o momento para isso?" - Pergunta-se a ministra sobre aprovar uma nova lei de "Abuso de Autoridade" |
Cármen
Lúcia e Michel Temer, aliás, trocaram telefonema no domingo, acertando um
megaencontro na sexta-feira, no Itamaraty, para selar um “pacto nacional pela segurança pública”. Convidados os presidentes
dos três poderes (incluindo Senado e Câmara), os ministros da Defesa e da
Justiça, os três comandantes militares, o diretor-geral da PF, o presidente da
OAB e o CNJ. E, ontem, Cármen Lúcia conversou com o delegado José Mariano
Beltrame. Esse espectro engloba crime organizado, fronteiras, tráfico de armas,
papel das polícias e o controle das prisões pelo PCC.
Pode
ser só mais um evento e não dar em nada, mas tomara que produza resultados e
ações eficazes, porque a agenda do
Brasil não se limita à corrupção e Lava Jato, mas inclui a gravíssima crise
econômica e um descaso pela vida humana equiparável às mais cruentas guerras.
Todas essas coisas, aliás, terminam sendo uma só. A Lava Jato e seus agentes não são perfeitos, mas convenhamos que esse
não deve ser o nosso alvo. Aliás, é o contrário: que tal criar uma super
Lava Jato para limpar o Brasil em todas essas frentes? [A proposta é bem intencionada, mas ingênua! Jamais limparemos a
sociedade, inteiramente, da corrupção e da maldade! Afinal, estamos lidando com
seres humanos... Essa será uma luta e vigilância permanentes!]
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