27º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia
Evangelho:
Lucas 17,5-10
Naquele tempo:
5 Os apóstolos disseram ao Senhor: «Aumenta
a nossa fé!».
6 O Senhor respondeu: «Se vós tivésseis
fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: “Arranca-te
daqui e planta-te no mar”, e ela vos obedeceria.
7 Se algum de vós tem um empregado que
trabalha a terra ou cuida dos animais, por acaso vai dizer-lhe, quando ele
volta do campo: “Vem depressa para a mesa?”.
8 Pelo contrário, não vai dizer ao
empregado: “Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois
disso tu poderás comer e beber?”.
9 Será que vai agradecer ao empregado, porque
fez o que lhe havia mandado?
10 Assim também vós: quando tiverdes
feito tudo o que vos mandaram, dizei: “Somos servos inúteis; fizemos o que
devíamos fazer”.»
JOSÉ ANTONIO PAGOLA
AUMENTA-NOS
A FÉ
De maneira
abrupta, os discípulos fazem a Jesus uma petição vital: «Aumenta a nossa fé». Em
outra ocasião eles haviam lhe pedido: «Ensina-nos a orar». À medida que
Jesus lhes revela o projeto de Deus e a tarefa que deseja lhes encomendar, os
discípulos sentem que não lhes basta a fé que vivem desde crianças para
responder ao seu chamado. Necessitam uma fé mais robusta e vigorosa.
Passaram-se
mais de vinte séculos. Ao longo da história, os seguidores de Jesus viveram
anos de fidelidade ao Evangelho e horas obscuras de deslealdade. Tempos de fé forte
e também de crise e incerteza. Não necessitamos pedir novamente ao Senhor que
aumente a nossa fé?
Senhor, aumenta a nossa fé!
Ensina-nos
que a fé não consiste em crer em algo, mas crer em ti, Filho encarnado de Deus,
para abrir-nos ao teu Espírito, deixar-nos alcançar pela tua Palavra, aprender
a viver com teu estilo de vida e seguir de perto teus passos. Somente tu és
quem «inicia e consome nossa fé».
Senhor, aumenta a nossa fé!
Dá-nos
uma fé centrada no essencial, purificada de aderências e acréscimos postiços,
que nos distanciam do núcleo de teu Evangelho. Ensina-nos a viver nestes tempos
uma fé, não fundamentada em apoios externos, mas em tua presença viva em nossos
corações e em nossas comunidades crentes.
Senhor, aumenta a nossa fé!
Faze-nos
viver uma relação mais vital contigo, sabendo que tu, nosso Mestre e Senhor, és
o primeiro, o melhor, o mais valioso e atraente que temos na Igreja. Dá-nos uma
fé contagiante que nos oriente para uma fase nova do cristianismo, mais fiel ao
teu Espírito e tua trajetória.
Senhor, aumenta a nossa fé!
Faze-nos
viver identificados com o teu projeto do Reino de Deus, colaborando com
realismo e convicção para tornar a vida mais humana, como quer o Pai. Ajuda-nos
a viver humildemente nossa fé com paixão por Deus e compaixão pelo ser humano.
Senhor, aumenta a nossa fé!
Ensina-nos
a viver convertendo-nos a uma vida mais evangélica, sem resignar-nos a um
cristianismo reduzido, onde o sal vai se tornando insosso e a Igreja vai
perdendo estranhamente a sua qualidade de fermento. Desperta entre nós a fé dos
mártires [testemunhas] e dos profetas.
Senhor, aumenta a nossa fé!
Não
nos deixa cair em um cristianismo sem cruz. Ensina-nos a descobrir que a fé não
consiste em crer no Deus que nos convém, mas naquele que fortalece nossa
responsabilidade e desenvolve nossa capacidade de amar. Ensina-nos a seguir-te
tomando nossa cruz de cada dia.
Senhor, aumenta a nossa fé!
Que
te experimentemos em nosso meio renovando nossas vidas e dando alento a nossas
comunidades.
O
DESEJO DE CRER
Aquilo que mais se opõe à fé não são as dúvidas e
interrogações que podem nascer sinceramente em nós, mas a indiferença e a superficialidade de nossa vida.
Quem
busca sinceramente Deus, vê-se envolto, mais de uma vez, na obscuridade, na
dúvida ou insegurança. Porém, se busca Deus, há nele um desejo de crer que não
é destruído pela dúvida, pela fadiga, pela obscuridade nem pelo próprio pecado.
Não
esqueçamos que a fé não se reduz a umas
convicções que nos inculcaram deste crianças ou uma visão da vida que ainda
defendemos.
Aquele
que crê de verdade não se fixa nas fórmulas nem nos conceitos. Não descansa nas
palavras. Simplesmente, busca Deus.
Por
isso, o grande inimigo da fé é a
indiferença. Esse evitar constantemente a grande interrogação da
existência. Esse fechar os ouvidos a todo chamado ou convite que nos é feito
para buscar a verdade.
Muitos
ceticismos teóricos e abordagens doutrinais somente contêm insensibilidade,
apatia e temor de uma busca sincera e nobre.
Nossa
fé se enfraquece, não quando dividamos em nossa busca e desejo de Deus, mas quando
nos afastamos dele. Assim diz Santo
Agostinho: «Quando te afastas do
fogo, o fogo continua dando calor, porém tu te esfrias. Quando te afastas da
luz, a luz continua brilhando, porém tu te cobres de sombras. O mesmo ocorre
quando te afastas de Deus».
Quando
alguém vive com o desejo sincero de encontrar esse Deus, cada escuridão, cada dúvida ou cada interrogação pode ser um ponto de
partida para algo mais profundo, um passo a mais para abrir-se ao mistério.
Tudo
isto não é fácil de entender quando vivemos na casca [superficialidade] de nós
mesmos, presos por mil coisas e insensíveis para tudo aquilo que não seja
encher nossos bolsos e nossas ambições.
Por
isso, nossa fé cresce não quando falamos ou discutimos sobre «questões de
religião», mas quando sabemos limpar nosso coração de tantas amarras e murmurar
caladamente essa oração dos discípulos: «Senhor,
aumenta nossa fé!».
Quando
oramos assim, não estamos buscando mais segurança em nossas convicções crentes,
mas um coração mais aberto a Deus.
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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