De onde virão mais reclamações contra o teto?
Chiadeira contra teto não virá de educação e
saúde, afirma especialista
Entrevista
com Raul Velloso*
Economista,
especialista em contas públicas
Mariana
Carneiro
O teto de gastos do governo federal, proposta que visa
limitar a expansão das despesas públicas nos próximos 20 anos, será posto à prova
com a “chiadeira” provocada pela disputa por verbas
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RAUL VELLOSO |
Mas
o economista aposta que as maiores
queixas não virão das duas áreas vistas como as mais ameaçadas pela iniciativa,
saúde e educação.
"Agricultura,
reforma agrária, justiça, relações exteriores estarão no alvo do ajuste",
diz. "Enquanto as reformas que possam diminuir os gastos em Previdência
não acontecem, o único jeito será pegar a arraia-miúda. Os que normalmente são arrochados serão muito mais arrochados."
Para
sobreviver aos entraves à sua implementação, o teto terá que ser acompanhado urgentemente por uma reforma da
Previdência, afirma Velloso. Ele, por sua vez, sugere um caminho de menor
resistência: mexer em benefícios do
setor público. Em seus cálculos, o déficit
da União e dos Estados com inativos atingiu 2,3% do PIB no ano passado, ou R$
137 bilhões.
Aprovada
em primeiro turno na Câmara, a PEC (proposta
de emenda constitucional) do teto de gastos tramita no Congresso. Com ela,
o governo prevê reajustar as despesas públicas apenas pela inflação até 2025,
com possibilidade de renovação até 2036. O
objetivo é colocar em ordem as contas do governo, que neste ano terão saldo
negativo recorde de R$ 170,5 bilhões.
Folha:
Como avalia a proposta de teto para o crescimento dos gastos públicos?
Raul Velloso: A PEC estabelece que o
gasto da União não crescerá mais do que a inflação, mas na verdade ela disciplina pouco os componentes do
gasto total do governo.
Quando
se estabelece uma meta como essa, se
está dizendo que os itens individuais que crescerem acima da inflação terão que
ser compensados por outros. O problema é que o grosso dos gastos está
sujeito a regras constitucionais que fazem com que eles cresçam mais do que a
inflação.
Quais
gastos?
Raul Velloso: Previdência e assistência
são 50% do gasto do governo federal e estão fora da regra porque têm correção
própria. O valor dos benefícios é corrigido, na menor das hipóteses, pela
inflação. Assim não sobra nada para o crescimento do número de pessoas atendidas.
E esse número está crescendo entre 3,5% e 4% ao ano.
Como
a população está envelhecendo, vai crescer o número de idosos e, portanto, o
número de beneficiários.
Ou
seja, se quiser que esses itens cresçam só pela inflação, das duas uma: ou
teria que mudar a regra de correção dos benefícios, para ser menor do que a
inflação, o que é muito difícil no Brasil, ou precisa fazer reformas que inibam
as aposentadorias.
O
governo diz que, após o teto, vem a reforma da Previdência.
Raul Velloso: Eu teria optado pelo caminho
inverso, mas não estou sentado lá para medir o clima político. E a opção já foi
feita.
Por
quê?
Raul Velloso: Eu teria começado por algo
que envolvesse alguma reforma da Previdência, que aliás é a proposta que eu
apresentei ao presidente Michel Temer. Fui junto com os governadores para falar
sobre a necessidade de uma reforma no setor público.
Temos
que enfrentar esse problema, porque dar a tarefa de administrar o crescimento
total do gasto ao ministro da Fazenda, sem providências nas entranhas da
despesa, é difícil.
Como
é sua proposta? O governo indica que pretende aumentar a idade mínima exigida
para a aposentadoria.
Raul Velloso: Minha proposta é diferente,
pois foca na previdência do setor
público, que me parece a mais grave.
Envolve a União, Estados e municípios maiores, que por enquanto foram deixados
de lado, mas têm um gigantesco buraco com o pagamento de inativos.
Eu
iria por esse caminho, porque seria a
reforma mais fácil de aprovar, além de ser muito importante também no
problema fiscal dos Estados.
A previdência do setor
público beneficia um grupo pequeno em relação à população. E quando se propuser
reduzir benefícios ou aumentar a contribuição dos servidores, acha que a
população não vai achar ótimo? É um sistema privilegiado. A resistência será maior ao mexer nas aposentadorias de valor mais
baixo.
Se
o que conspira contra o teto é a disputa por recursos, a reação natural é: “Então
é só aprovar a reforma da Previdência”. Falar é fácil. Se o governo achasse
fácil, já tinha feito. Eles estão preparando, e como estão pensando em tudo,
acho que é o caminho mais tortuoso. Vai demorar mais e vai sofrer mais
resistência. E precisamos conter ou o
crescimento do número de beneficiados ou o crescimento do valor dos benefícios.
E isso se faz com reforma.
Sem
reforma da Previdência, o teto é inócuo?
Raul Velloso: Não, mas é um grande desafio
à sua implementação. Por isso, tenho dito que a PEC não é uma Brastemp, pois requer um segundo passo e
o diabo mora na implementação.
O
ministro da Fazenda terá uma emenda dizendo que o gasto total não pode crescer
mais que a inflação. Mas isso depois que eles verificarem o que sobra para
gerenciar, porque o aumento da
Previdência vai acontecer à sua revelia.
O
Tesouro vai dizer: “Está crescendo na Previdência, vamos ter que compensar
noutro lugar”. Ele vai chamar outro ministro e dizer: “Lamento, terei que
compensar em você”. Que por sua vez pode dizer: “Por que não ajusta no outro?”
Está na cara que vão direto
no investimento, e é obvio que vai haver uma chiadeira monumental. Não virá da saúde nem da
educação, porque o piso deles está protegido. Se eu fosse ministro da Saúde ou
da Educação, estaria feliz da vida. Não poderiam compensar em mim e, segundo,
estou começando sobre uma base de gastos que não é muito ruim.
Então
onde vai ter chiadeira?
Raul Velloso: No investimento, no custeio
geral, porque vão ter que cortar
alugueis, contratos de prestação de serviço. Agricultura, reforma agrária, Justiça, Relações Exteriores estarão no
alvo do ajuste. Enquanto as reformas que possam diminuir os gastos em
Previdência não acontecem, o único jeito será pegar a arraia-miúda. Os que
normalmente são arrochados serão muito mais arrochados.
Mas
a preocupação geral tem sido com saúde e educação.
Raul Velloso: Porque todo mundo é cego. A única disciplina dos componentes do gasto
é o piso de saúde e educação, que será corrigido pela inflação. Na
realidade, é uma proteção para não haver corte nas áreas, mas está sendo
interpretado como o contrário. Nenhum
outro item vai poder crescer às custas de educação e saúde.
Quem
trabalha nas duas áreas estará protegido, porque são pagos pelos orçamentos de
ministérios protegidos. É só não
contratar tanto e dar reajuste pela inflação.
Há
outro orçamento que precisamos pensar, que é o dos Poderes autônomos [Judiciário, Tribunais de Contas, Ministério
Público e Defensoria]. A emenda diz que todos estão sujeitos ao limite global.
Só que os Poderes já começaram a dizer
que têm autonomia financeira e administrativa prevista na Constituição.
Eles vão resistir, e aí entra uma disputa de poder complicada. Porque uma coisa é o ministro da Fazenda cortar na
Agricultura, outra é nos outros Poderes.
É
possível que o Executivo tenha que cortar mais para acomodar os outros Poderes?
Raul Velloso: É possível, depende do jogo
político. Talvez os poderes digam: “Eu faço um pedaço e você faz o outro por
mim'”. No gasto com pessoal, certamente
vão tentar relaxar a regra.
Vinte
anos para o teto é muito?
Raul Velloso: Esse é o menor dos males,
porque tem possibilidade de revisão em dez anos. Além disso, você acha que há
alguma emenda que resista à constatação de exagero no controle de gastos? Isso
muda na hora, e com quórum dobrado. Se antes de dez anos o dinheiro começar a
jorrar pela janela, vai ter outra emenda fácil.
Há
grande polarização entre críticos e defensores da proposta de teto. Qual o seu
lado?
Raul Velloso: Não gosto de nenhuma das
duas posições. É bom ter o teto, mas ele
precisa ser complementado urgentemente com iniciativas como [as mudanças na] Previdência do setor
público. Ele só ganha musculatura se a sua chance de implementação aumenta.
Acho
bom, porque estávamos numa crise fiscal aguda. Mas isso não quer dizer que eu
acredite que não haverá dificuldade em implementar. Por isso, precisamos fazer
as outras coisas que vão resolver parte grande do problema.
* QUEM É: Raul Velloso
FORMAÇÃO:
Economista formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) com
mestrado na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e em Yale (Estados Unidos), e PhD em
economia por Yale.
ATUAÇÃO:
Foi coordenador do Ipea (1981-1984), secretário para assuntos econômicos do
Ministério do Planejamento (1985-1989) e secretário adjunto do ministério
(1990-1991). Integrou os conselhos de administração da Embraer e do BNDES.
Atualmente é consultor.
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