O perigo de 2018 ! ! !
Os homens e as urnas
Monica De
Bolle*
A travessia para 2018 será difícil sobretudo porque
difícil será traduzir
crescimento em emprego, investimento em ganhos de
salário
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MONICA DE BOLLE |
PT
derrotado, PSDB e PMDB vitoriosos, resultado que imediatamente suscitou
narrativas favoráveis ao governo de Michel Temer. Governo que enfrentará
oposição enfraquecida no Congresso para aprovar as reformas, sobretudo as mais
espinhosas como a da Previdência. Governo que contará com representatividade
regional mais expressiva diante dos pleitos muito bem-sucedidos da coligação
PSDB-PMDB. Sem querer botar água no
chope, estragar a festa, ou fazer uso de tantas outras expressões
acomodadas mais, há que se pensar com
mais cuidado sobre os homens e as urnas. Os homens e as urnas, os homens do
governo e a economia brasileira.
Primeiramente,
a rejeição ao PT. É claro que a rejeição ao PT teve alguma influência da Lava
Jato e algum repúdio aos políticos tradicionais. A vitória acachapante de João
Doria Júnior em São Paulo foi reflexo desse repúdio, da ideia de que é melhor
ter um empresário à frente da gestão pública do que um político. Melhor alguém
que traga as boas práticas da iniciativa privada, bem-sucedido que foi nessa
empreitada, do que reeleger os mesmos de sempre que farão mais do mesmo de
sempre.
Sem querer igualá-lo ao
candidato republicano à Presidência da República dos EUA – Donald Trump sofre de carência aguda de
qualidades – o fenômeno Doria tem um quê
de fenômeno Trump: empresários, apresentadores de reality shows, gente que vem
“de fora do sistema”. Em resumo, são os representantes do repúdio à
política, que hoje se alastra mundo afora. Mas, voltando à derrota do PT, a
derrocada foi mais reflexo da péssima gestão econômica do País, sobretudo nos
anos Dilma, conforme retrato em meu novo livro, do que do repúdio relacionado à
corrupção.
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Publicado pela Editora Intrínseca (Rio de Janeiro, 2016) |
As vitórias do
PMDB, e, sobretudo, do PSDB: foram mesmo vitórias? Entre votos brancos e
nulos, cerca de 25% dos eleitores
preferiram se abster, não quiseram escolher nenhum representante de
partidos políticos tradicionais. No Rio
de Janeiro, tal rejeição do eleitorado chegou a 42%. Esse é o repúdio da
política tradicional, exacerbado no Brasil pelos escândalos de corrupção.
Diante
desses resultados das urnas, como ficam, de verdade, os homens do governo? Há
poucas dúvidas de que a economia brasileira esteja saindo do atoleiro em que
foi metida. Há rumo, há reformas, há gente para tocá-las, quiçá haja até apoio
do Congresso para aprová-las. A dúvida,
portanto, não é se haverá recuperação, mas quão rápida e intensa ela será.
Voltemos
no tempo por um instante. Em 2014, muitos de nós economistas sabíamos que o
Brasil afundava, alertávamos constantemente que os sinais do desastre estavam
por toda parte. Contudo, não era isso o que a população sentia. O povo
enxergava a menor taxa de desemprego da história, sentia o bolso estufar com os
ganhos inéditos de renda e salário. A
distância entre os prognósticos e o sentimento foi suficiente para reeleger
Dilma.
Avancemos
agora para 2018. Suponhamos que de
agora até lá ocorra fenômeno inverso ao visto em 2014: que a retomada venha, mas que a população não a sinta, com o desemprego
em alta, ou muito alto, e a renda ainda em queda, ou muito baixa. Misturem
isso ao repúdio das urnas e reflitam sobre as eleições de 2018. Povo insatisfeito é povo que pode se deixar
iludir pelas promessas de que as reformas hoje anunciadas não são necessárias,
de que as receitas dos homens do governo não resultarão em melhoria de vida.
Melhor escolher alguém de fora, alguém que prometa “mudança” ou “uma coisa
diferente”. O risco de que isso ocorra, salientado pelas urnas do último
domingo, não é pouco. O risco de que isso ocorra derruba qualquer visão
ingenuamente otimista sobre o resultado das urnas.
Aos
homens e suas urnas, aos homens e à economia brasileira: o momento está mais
delicado do que se antevia. A travessia para 2018 não será apenas difícil porque
as reformas são impopulares. A travessia
para 2018 será difícil sobretudo porque difícil será traduzir crescimento em
emprego, investimento em ganhos de salário.
Parafraseando
um conhecido economista brasileiro, o
PIB do povo não é, necessariamente, o PIB dos políticos e dos economistas.
Parafraseando Guimarães Rosa, esse é desafio que tem muita força, força enorme.
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Monica Baumgarten De Bolle é economista, pesquisadora do Peterson Institute For International
Economics e professora da Sais/Johns
Hopkins University (Estados Unidos).
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