30º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia

Evangelho: Lucas 18,9-14


Naquele tempo:
9 Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros:
10 «Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos.
11 O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: “Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos.
12 Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda”.
13 O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!”.
14 Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado.»

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

A POSTURA JUSTA

Segundo Lucas, Jesus dirige a parábola do fariseu e do publicano a alguns que presumem ser justos diante de Deus e desprezam os demais. Os dois protagonistas que sobem ao Templo para orar representam duas atitudes religiosas contrapostas e irreconciliáveis. Porém, qual é a postura justa e correta diante de Deus? Esta é a pergunta de fundo.

O fariseu é um observante escrupuloso da lei e um praticante fiel de sua religião. Sente-se seguro no Templo. Ora de pé e com a cabeça erguida. Sua oração é a mais bonita: uma oração de louvor e ação de graças a Deus. Porém, não rende graças a Deus por sua grandeza, sua bondade ou misericórdia, mas por Ele mesmo ser bom e grandioso.

Logo se observa algo falso nesta oração. Mais que rezar, esse homem contempla a si mesmo. Conta a sua própria história cheia de méritos. Ele necessita sentir-se em dia com Deus e exibir-se como superior aos demais.

Este homem não sabe o que é orar. Não reconhece a grandeza misteriosa de Deus nem confessa sua própria pequenez. Buscar a Deus para enumerar, diante d’Ele, nossas boas obras e depreciar os demais é imbecilidade. Por detrás de sua aparente piedade, esconde-se uma oração «ateia». Este homem não necessita de Deus. Não lhe pede nada. Basta-se a si mesmo!

A oração do publicano é muito diferente. Ele sabe que a sua presença no Templo é mal vista por todos. A sua função de arrecadador de impostos é odiada e desprezada. Ele não se desculpa. Reconhece que é pecador. Seu gesto de bater no peito e as poucas palavras que sussurra dizem tudo: «Ó Deus! Tende compaixão deste pecador».

Este homem sabe que não pode vangloriar-se. Não tem nada para oferecer a Deus, porém ele tem muito a receber d’Ele: seu perdão e sua misericórdia. Em sua oração há autenticidade. Este homem é pecador, porém está no caminho da verdade.

O fariseu não se encontrou com Deus. Este coletor de impostos, pelo contrário, encontra logo a postura correta diante d’Ele: a atitude de quem nada tem e necessita de tudo. Ele não se detém sequer a confessar com detalhes suas culpas. Reconhece-se pecador. Dessa consciência brota sua oração: «Tende compaixão deste pecador».

Os dois sobem ao Templo para orar, porém cada um leva em seu coração sua imagem de Deus e seu modo de relacionar-se com Ele. O fariseu segue envolvido em uma religião legalista: para ele o importante é estar em dia com Deus e ser mais observante do que todos os outros. O coletor de impostos, elo contrário, abre-se ao Deus do Amor que prega Jesus: aprendeu a viver do perdão, sem vangloriar-se de nada e sem condenar a ninguém.

ESTA PARÁBOLA NOS DIAS DE HOJE

1º) A parábola está nos dizendo que se queremos apresentar o Deus de Jesus Cristo, temos de apresentá-lo como alguém que adota sempre uma atitude de perdão e de misericórdia diante do homem que se mostra sem exigências, sem reclamações nem direitos, mas humilde, arrependido e confiante no perdão. Deus sempre é assim. Apresentá-lo de outra maneira é falsificá-lo.

2º) A justificação [salvação] do homem baseia-se, ao final, na misericórdia de Deus e não em suas obras e méritos. Somente Deus justifica e santifica o homem que sabe arrepender-se. Por conseguinte, a mensagem de Jesus é uma mensagem de ânimo, de esperança. É uma Boa Notícia para os que se sentem pecadores. E essa mesma mensagem remove a garantia de segurança àqueles que não têm consciência do pecado: pobre daquele que não se sente pecador! O que eleva o homem é a misericórdia de Deus. Não basta cumprir rigorosamente a religião: o fariseu fez tudo, porém lhe faltou o mais importante, ou seja, uma atitude de humildade perante Deus.

3º) Desta parábola se extrai a conclusão que essa tendência legalista que todos temos deve ser criticada, a qual é sempre a grande tentação do homem. Inconscientemente, buscamos uma segurança diante de Deus, baseada em nossas obras. Quase sem nos dar conta que buscamos encher nossas mãos para apresentar-nos seguros perante Deus. O Evangelho de Jesus é uma crítica dessa postura. Há uma Boa Notícia muito melhor: podemos apresentar-nos perante Deus com segurança, PORÉM não devido aquilo que tenhamos feito, mas pela bondade que Ele é.

4º) É também uma crítica a toda postura dos fiéis que depreciam e julgam os outros. Tenhamos cuidado! Sem nos darmos conta, podemos estar identificados com o publicano e julgar depreciativamente os que vivem a religião de forma parecida aos fariseus: é muito fácil ser fariseu crendo-se publicano...

5º) E, por último, para que a oração seja um encontro frutuoso com Deus, deve ser humilde, arrependida, confiante. Uma oração feita com autossuficiência e com orgulho perante Deus não justifica nada. Por isso, há a necessidade que saibamos criticar posturas que existem em nós de autossuficiência e de perfeição litúrgica. Às vezes, criticamos liturgias malfeitas, porém, talvez, elas sejam mais sinceras. Diante de Deus não há perfeição litúrgica, mas uma pessoa que bata em seu coração, reze o rosário ou faça uma celebração de Maria, a pobre de Javé...

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: MUSICALITURGICA.COM – Homilías de José A. Pagola – Segunda-feira, 17 de outubro de 2016 – 16h43 [Horário Centro-Europeu/Espanha] – Internet: clique aqui.

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