A Igreja preocupada com o relacionamento que temos com a morte
O “sim” da Igreja à cremação: cai um tabu
Massimo
Introvigne
Jornal “Il
Mattino” – Itália
22-10-2016
Por que a Igreja permite hoje a cremação?
E por que se torna necessário um novo documento?
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PAPA FRANCISCO Presidindo os ritos da Ultima Commendatio et Valedicitio (Ultima Encomendação e Despedida) do cardeal Roberto Tucci (jesuíta) Sexta-feira, 17 de abril de 2015 |
"A
nova instrução vaticana sobre a cremação
mostra que esse tabu também foi superado entre os católicos e até mesmo na
Itália, e que a Igreja do Papa Francisco, ao mesmo tempo, compreende e se
interroga com alguma preocupação sobre a nova relação que os nossos
contemporâneos mantêm com a morte." [Acesse
e leia esta nova Instrução, clicando aqui].
A
opinião é do sociólogo italiano Massimo
Introvigne, fundador e diretor do Centro de Estudos sobre as Novas
Religiões (Cesnur). Eis o seu artigo.
A
escolha pela cremação é cada vez mais comum, mesmo entre os católicos
praticantes. É um desenvolvimento surpreendente, considerando-se que, a partir
do Renascimento, a cremação era uma escolha polêmica em relação à Igreja,
praticada principalmente por anticlericais, uma espécie de proclamação ao mundo
de que o falecido não acreditava na doutrina católica segundo a qual os corpos
também ressurgiam no fim do mundo.
Mas
não estamos mais nos tempos em que a cremação havia se tornado a bandeira de
uma certa maçonaria particularmente anticlerical. Na verdade, já desde 1963,
com o Papa Paulo VI, a Igreja permitiu aos seus fiéis a escolha pela cremação.
Agora,
a Santa Sé divulgou, nesta terça-feira [25/outubro], uma instrução da
Congregação para a Doutrina da Fé sobre a cremação e a conservação das cinzas. Por que a Igreja permite hoje a cremação? E
por que se torna necessário um novo documento?
Acima
de tudo, é preciso especificar que, na
tradição católica, a cremação nem sempre foi proibida. Ela era comum nas
epidemias e em caso de calamidades naturais e de guerras, e isso desde o início
da Idade Média até a era napoleônica. Portanto, é evidente que a Igreja não via contradições entre a cremação e a
doutrina da ressurreição dos corpos no fim do mundo.
Os teólogos sempre
explicaram que o corpo que vai ressurgir será algo qualitativamente diferente
do corpo mortal, embora mantendo o mesmo vínculo único com a alma e com essa pessoa
específica, e que Deus não precisa dos
nossos pobres restos mortais para o milagre da ressurreição. Se assim não
fosse, aqueles que morreram em um incêndio ou em uma explosão que deixou pouco
ou nada do seu corpo estaria excluído da ressurreição final, o que, para um
católico, é teologicamente absurdo.
POR
QUE HOUVE RESISTÊNCIA À CREMAÇÃO?
No século XIX, porém,
especialmente por obra de certos setores da maçonaria da Europa continental, a
cremação foi divulgada como uma bandeira do anticatolicismo. A substancial investigação
"A morte laica", publicada
em 1998 e editada, com outros, por Fulvio Conti e Augusto Comba, mostrou o
estreitíssimo vínculo entre cremação e anticlericalismo na Itália do século XIX
e até as primeiras décadas do século XX.
A própria inauguração dos
crematórios nos cemitérios italianos muitas vezes era uma cerimônia pública com
um específico conteúdo anticlerical. É por essa razão que a Igreja, que também tinha
aceitado a cremação nos séculos anteriores, acabou proibindo-a no século XIX. Mas, no norte da Europa ou nos Estados
Unidos, a cremação nunca teve um significado anticristão ou anticlerical. E
também na Itália o anticlericalismo, embora não tendo desaparecido
completamente, assumiu perfis diferentes e atenuados no século XX.
Assim,
chegamos à liberação da cremação por
parte de Paulo VI em 1963. Mas tudo isso não aconteceu sem problemas.
Sociólogos como Rodney Stark
observaram que, independentemente de qualquer problema teológico, o
desaparecimento de características distintivas do catolicismo, como a rejeição
da cremação ou a abstenção da carne nas sextas-feiras, eliminou um sinal da
diversidade católica em relação às tantas comunidades protestantes que tornava
a Igreja Católica imediatamente reconhecível e, para alguns, atraente.
Em
países onde a cremação não era comum, os católicos que a escolheram, depois, tomaram
emprestadas outras práticas, como a conservação das cinzas em casa ou a sua
dispersão no mar ou em outros lugares, que, por mais poéticas que sejam, correm o risco de minar o tradicional
sentido cristão da distinção entre a esfera dos vivos e a dos mortos, e da veneração e da oração como atitude
própria em relação à segunda.
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Sociólogo autor deste artigo |
CRENÇAS
ESPÍRITAS E REENCARNAÇÃO
No
fundo, há questões muito mais complexas sobre o sentido da morte e da relação
com os mortos que muda de formas não previstas e, muitas vezes, não aceitáveis
para a Igreja. Voltam, especialmente
entre os jovens, formas de espiritismo, e as
pesquisas sociológicas mostram que muitos católicos aceitam a doutrina da reencarnação, que a Igreja considera incompatível com
o catolicismo.
Assim,
bispos de diversos países pediram que Roma reiterasse que a cremação é
permitida aos católicos – embora o enterro continue sendo uma escolha
tradicional carregada de significados específicos, que deve ser encorajada –,
mas as cinzas, depois, devem ser
depositadas em um cemitério ou sacrário, não conservadas em casa nem dispersas.
Veremos
em breve que normas a Santa Sé considerará em prescrever. Porém, a seu modo, o episódio mostra que o tabu da cremação
também foi superado entre os católicos e até mesmo na Itália, e que a
Igreja do Papa Francisco, ao mesmo tempo, compreende e se interroga com alguma
preocupação sobre a nova relação que os nossos contemporâneos mantêm com a
morte.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original deste artigo, clicando aqui.
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