O risco da religião interferindo na política!
A volta do poder teológico-político não é risco
apenas em países muçulmanos
Vladimir
Safatle
Professor
livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo)
Tal consolidação do poder teológico-político alcançará
um grau inaudito
caso o pastor Marcelo Crivella seja eleito prefeito
da segunda maior cidade do país – o Rio de Janeiro
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MARCELO CRIVELLA De "bispo" da Igreja Universal do Reino de Deus a Prefeito do Rio de Janeiro |
A
consolidação de um poder teológico-político a comandar o Estado não é algo que
seja um risco apenas em certos países muçulmanos ou na Polônia.
Ele é um fato cada vez mais
evidente no Brasil com seus pastores-deputados aliados
de saudosos da ditadura militar. Tal consolidação do poder teológico-político
alcançará um grau inaudito caso o pastor Marcelo
Crivella seja eleito prefeito da segunda maior cidade do país.
Crivella tentou se vender
como um político "normal", mesmo relatando lei que obriga bibliotecas a terem
uma Bíblia e pune funcionários que desrespeitem tal privilégio (por que não
obrigá-las a terem também um Corão, a "Ilíada" ou o "Tratado
Teológico-Político", de Spinoza?).
No
entanto, ele é, na verdade, o principal
representante político de um megaempreendimento religioso chamado Igreja
Universal do Reino de Deus, comandado por seu tio, o arquiconhecido Edir Macedo. Sua eleição significa que a cidade mais emblemática do Brasil será
governada pela Igreja Universal. [Que os eleitores
do Rio de Janeiro nos livrem disso! Ainda há tempo para se ter juízo!]
Alguém
poderia perguntar qual o problema com o fato de uma igreja governar o Rio de
Janeiro. Afinal, Genebra foi governada por Calvino. Mas a Universal tem suas peculiaridades. Seu líder [Edir Macedo], cuja fortuna foi estimada pela revista "Forbes", em 2013, em R$ 2
bilhões, foi preso nos anos 1990 por
charlatanismo, estelionato e curandeirismo.
Posteriormente,
foi denunciado várias vezes pelo
Ministério Público por crimes que vão de:
* importação fraudulenta,
* evasão de divisas,
* lavagem de dinheiro e
* formação de quadrilha.
Crivella é o representante
maior dessa associação com condutas, no mínimo, passíveis de questionamento judicial.
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EDIR MACEDO Fundador da Igreja Universal é um dos homens mais ricos, influentes e poderosos do Brasil hoje! Não obstante, tantas suspeitas de crimes que existem contra ele! |
Mas
não é só a obscuridade ética que ronda a Igreja Universal. Detentora de redes
de televisão e emissoras de rádio, a
igreja se consolidou, sob os governos Lula e Dilma, como um poder político
terreno incontornável. Um poder que procura cada vez mais impor sua agenda
ao país e que nada tem a ver com a ideia de uma república laica, plural e radicalmente
tolerante.
Os
trechos de livros de Crivella, nos quais outras
religiões são tratadas como "demoníacas" e os homossexuais são definidos como portadores
de "conduta maligna", podem ser vistos não como opiniões de um
"jovem" que "amadureceu", mas como o núcleo duro de crenças alimentadas por sua igreja,
momentaneamente caladas em situação eleitoral e que voltarão à tona quando esta
se sentir mais forte.
Por
outro lado, mesmo crescendo sob as hostes do lulismo, mesmo sendo ministro da
Pesca de Dilma, Crivella resolveu
ultimamente abraçar o neoliberalismo e defender o Estado mínimo. Ele gosta
de perguntar a seu oponente, Marcelo Freixo, de onde sairá o dinheiro para que
o adversário implemente seus programas de justiça social e defesa de serviços
públicos.
Bem,
valeria a pena lembrar ao pastor que certamente a Prefeitura do Rio de Janeiro
teria muito mais dinheiro para ações de justiça social se sua igreja fizesse
como eu e você e simplesmente pagasse IPTU.
Acho
que eles tomaram um pouco ao pé da letra a afirmação de que a Igreja Universal
não é terrena, mas celestial, e resolveram acreditar que uma instituição
celestial não deve pagar impostos territoriais.
Entretanto,
para alguns, é no mínimo cinismo o
representante de uma instituição que tem tamanha benesse pública sair a público
e defender cortes nos gastos, afetando diretamente educação e saúde.
Se a prefeitura não tem
dinheiro é porque, entre outras razões, sua igreja com megaempreendimentos
imobiliários não tem o mesmo tratamento a que eu e você somos submetidos.
Na
verdade, esse desmonte final da capacidade de assistência do Estado brasileiro
faz parte de um projeto claro de poder. Pois, assim, igrejas como a dele serão, ao final, as únicas responsáveis pela
assistência social, criando uma relação perversa de dependência de populações
carentes que se verão diante de um Estado cuja única função será deixar os
ricos cada vez mais ricos.
Para conhecer um pouco mais quem é Marcelo Crivella, clique aqui.
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