Igreja: a distância entre a prática e o Evangelho
Paróquia local dá abrigo a dezenas de estrangeiros
Jamil Chade
Enviado
Especial a Ventimiglia, Itália
Igreja atende pedido do papa Francisco, mas parte da
comunidade
deixa de ir à missa em protesto
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FACHADA DA IGREJA DE VENTIMIGLIA - NA ITÁLIA |
Na
modesta paróquia de San Antonio, em
Ventimiglia, o arcebispo da região
seguiu à risca o pedido do papa Francisco e abriu a Igreja para os estrangeiros.
Locais que serviam de escritórios, sala de festas e despensa foram
transformados em quartos para mais de 50 pessoas, que se apertam entre os
beliches improvisados.
Em 2015, o pontífice apelou
para que cada paróquia mostrasse solidariedade com a onda de estrangeiros na
Europa.
Poucas seguiram a ordem. Mas na cidade de fronteira entre a Itália e a França
os religiosos locais entenderam que não poderiam mais deixar os estrangeiros
dormindo em praças e na praia. "Com
Deus não se brinca. Ele está vendo tudo o que fazemos", brincou
Giuseppe, um aposentado que se ocupa de preparar a Igreja para as missas, cada
vez mais vazias.
Aberto
há cinco meses, o local está com a capacidade esgotada. Segundo o escritório da
Cáritas na região, a decisão foi a de
acolher apenas mulheres sozinhas, famílias com crianças ou casais cujas
mulheres estejam grávidas. Sem trabalho, visto ou possibilidade de
continuar a viagem, é na paróquia que acabam vivendo no limbo.
"Isso aqui é
angustiante", disse Daniat, uma garota de 19 anos da Eritreia. Controlando a
entrada, um imigrante afegão que, há cinco anos na Europa, decidiu desistir de
procurar trabalho na Europa e passou a ser voluntário da Cáritas. Em troca, o
muçulmano ganha alojamento e comida. "Um
dia eu ainda consigo um emprego", diz.
Para mães, a Igreja tem sido
o momento "mais próximo de casa" de todo o trajeto de meses entre a
África e a Europa. "Aqui, voltamos a ser uma família", disse Hanna, que usou a
última economia que a família tinha depois da morte do marido para tentar a
sorte na Europa. Com quatro filhos pequenos, ela optou por um caminho mais seguro.
Da Eritreia, foi para Sudão e Egito.
"Ali, peguei um barco grande. Não queria me arriscar na Líbia",
contou. Assim como todos os demais,
aguarda uma definição dos governos para decidir se continua a viagem para o
Reino Unido, onde tem parentes.
Os
pais da bebê Naila, de 7 meses, também usam o gesto da paróquia para
"respirar". A criança nasceu no caminho da fuga, já no Sudão e em uma
casa improvisada. Para seus pais, o fato de ela estar viva "já é um
milagre". O parto antes da hora obrigou a família a permanecer por alguns
meses nas proximidades de Cartum. Só depois é que puderam seguir para a Líbia. "Não sabemos o que vai ocorrer
conosco. Mas estamos descansando aqui e rindo com nossa filha", disse
o pai de Naila, que não quer mostrar o rosto nem ter o nome publicado.
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HANNA COM SEU FILHOS Verdadeira aventura para sair da Eritreia, passando pelo Sudão e Egito a fim de chegar à Europa! |
No
pátio interno, crianças matam o tempo
brincando e jogando futebol. São eritreus, etíopes, sudaneses e nigerianos.
Cada um com sua religião.
Em
um dos cantos do jardim da Igreja, uma sudanesa abre um tapete e faz suas
orações, depois de identificar com seu celular a direção de Meca.
Os religiosos decidiram que
não aceitariam apenas cristãos e o resultado foi surpreendente. "Todos
convivem muito bem", disse Giuseppe, destacando que os muçulmanos não criam problemas na
convivência nem fazem exigências.
Os maiores problemas, no
entanto, vêm de parte da comunidade cristã local. "Tem muita gente que
não gosta", conta um dos funcionários, apontando que fiéis têm perguntado por quanto tempo aquelas pessoas ficariam ali.
Alguns chegaram a deixar de frequentar as missas. "Essa igreja vivia
vazia, com pouca gente nas missas. Ela agora serve para algo real", disse
outro voluntário. [O Evangelho começou com poucos e,
pelo visto, seguirá sendo vivido e praticado por poucos!]
Funcionários
do centro disseram ao jornal O Estado de
S. Paulo como, na semana passada, o enterro de um antigo morador do local
causou certa tensão. A família do morto
pediu ao padre que retirasse os imigrantes da entrada na hora que o caixão
passasse. Com ironia, ele respondeu que não contaria ao morto que seu
enterro estava sendo acompanhado por estrangeiros. E não retirou os imigrantes. [Que belo
exemplo de coragem e coerência!]
REPRESSÃO
Na
quinta-feira, a nossa reportagem presenciou como uma operação de cerca de 50 policiais desmontou um centro clandestino de
acolhimento de estrangeiros. No total, cerca de 40 pessoas foram detidas,
além dos organizadores do centro – 23 dos mais de 40 imigrantes eram menores e
seriam transferidos para um centro especializado. O restante seria devolvido
para a polícia italiana, que os mandaria para o sul do país, por onde entraram.
Quem não conseguisse provar que precisava ficar, seria deportado.
Apesar de a operação contar
com tropa de choque e homens fortemente armados, a reação dos estrangeiros não
foi de resistência nem de tentativa de fuga.
Quem
não é deportado imediatamente, acaba em um centro no lado italiano da fronteira
que hoje abriga 500 pessoas. Na porta, policiais italianos fortemente armados
controlam quem entra e quem sai. "Fotos são proibidas", declarou um
deles, pedindo à reportagem que se retirasse do local. "Para estar aqui na
porta é necessário obter uma autorização da prefeitura", alegou.
Questionado
sobre quanto tempo levaria para uma aprovação, o policial apenas mexeu os
ombros. "Ninguém sabe", disse. A
reportagem pediu autorização para visitar o centro. Até ontem não havia
recebido qualquer tipo de resposta. [Essa é a
Europa cristã e “civilizada”!!!]
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