28º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia
Evangelho:
Lucas 17,11-19
11 Aconteceu que, caminhando para
Jerusalém, Jesus passava entre a Samaria e a Galileia.
12 Quando estava para entrar num
povoado, dez leprosos vieram ao seu encontro. Pararam à distância,
13 e gritaram: «Jesus, Mestre, tem
compaixão de nós!»
14 Ao vê-los, Jesus disse: «Ide
apresentar-vos aos sacerdotes.» Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram
curados.
15 Um deles, ao perceber que estava
curado, voltou glorificando a Deus em alta voz;
16 atirou-se aos pés de Jesus, com o
rosto por terra, e lhe agradeceu. E este era um samaritano.
17 Então Jesus lhe perguntou: «Não foram
dez os curados? E os outros nove, onde estão?
18 Não houve quem voltasse para dar
glória a Deus, a não ser este estrangeiro?»
19 E disse-lhe: «Levanta-te e vai! Tua
fé te salvou.»
JOSÉ ANTONIO
PAGOLA
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"Os Dez Leprosos" do artista norte-americano James C. Christensen (Clique sobre a imagem para ampliá-la e ver melhor) |
CRER
SEM AGRADECER
O
relato começa narrando a cura de um grupo de dez leprosos nas proximidades da
Samaria. Porém, deste vez, Lucas não se
detém nos detalhes da cura, mas na reação de um dos leprosos ao ver-se curado.
O evangelista descreve cuidadosamente todos os seus passos, pois quer sacudir a fé rotineira de não poucos
cristãos.
Jesus
pediu aos leprosos que se apresentem aos sacerdotes para obter a autorização
que permita-lhes ser reintegrados à sociedade. Porém, um deles, de origem
samaritana, ao ver que está curado, ao invés de ir aos sacerdotes, volta para procurar
Jesus. Sente que para ele começa uma
vida nova. Doravante, tudo será diferente: poderá viver de maneira mais
digna e feliz. Sabe a quem ele deve isso.
Necessita encontrar-se com Jesus.
Volta
«louvando a Deus em altos gritos». Sabe que a força salvadora de Jesus somente
pode ter sua origem em Deus. Agora sente algo novo por esse Pai Bom do qual
fala Jesus. Não o esquecerá jamais. Daqui pra frente, viverá dando graças a
Deus. Louvará Deus gritando com todas as suas forças. Todos haverão de saber
que se sente amado por ele.
Ao
encontrar-se com Jesus, «atira-se aos
seus pés, dando-lhe graças». Seus companheiros seguiram seu caminho para
encontrarem-se com os sacerdotes, porém ele
sabe que Jesus é seu único Salvador. Por isso, está aqui, junto dele,
dando-lhe graças. Em Jesus encontrou o melhor presente de Deus.
Ao
concluir o relato, Jesus toma a palavra
e faz três perguntas expressando sua surpresa e tristeza diante do ocorrido.
Elas não são dirigidas ao samaritano que está aos seus pés. Essas perguntas recolhem a mensagem que Lucas
quer que se escute nas comunidades cristãs.
«Não
ficaram limpos os dez?». Todos não se curaram? Por que não reconhecem o que receberam de Jesus? «Os outros nove,
onde estão?». Por que não estão ali? Por
que há tantos cristãos que vivem sem dar graças a Deus quase nunca? Por que
não sentem um agradecimento especial para com Jesus? Não o conhecem? Não
significa nada novo para eles?
«Não
houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?». Por
que há pessoas distanciadas da prática religiosa que sentem verdadeira
admiração e agradecimento para com Jesus, enquanto alguns cristãos não sentem
nada especial por ele? Papa Bento XVI
advertia, há alguns anos, que um
agnóstico* em busca pode estar mais próximo de
Deus que um cristão rotineiro que o é somente por tradição ou herança. Uma
fé que não produz nos crentes alegria e agradecimento, é uma fé enferma.
* Agnóstico é alguém adepto ao agnosticismo, doutrina que reputa inacessível ou incognoscível ao
entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela metafísica ou
religião (a existência de Deus, o sentido da vida e do universo etc.), na
medida em que ultrapassam o método empírico de comprovação científica
(Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, versão 3.0).
RECUPERAR
A GRATIDÃO
Costuma-se
dizer que a gratidão está desaparecendo
da «paisagem afetiva» da vida moderna. José
Antonio Marina [nasceu em 1939, em Toledo, na Espanha, é filósofo,
pedagogo e escritor], autor de livros tão interessantes como «Ética para
náufragos», recordava recentemente que a passagem de Nietzsche, Freud e Marx
nos deixou atolados em uma «cultura da
suspeita» que torna difícil o agradecimento.
Desconfia-se
do gesto realizado por pura generosidade. Segundo o professor, «tornou-se dogma de fé que ninguém dá nada
grátis e que toda intenção aparentemente boa oculta uma impostura». É
fácil, então, considerar a gratidão como «um sentimento de bobos, de
equivocados ou de escravos».
Não
sei se esta atitude está tão generalizada. Porém,
é certo que em nossa «civilização mercantilista», cada vez há menos lugar para
o gratuito. Tudo se troca, se empresta, se deve ou se exige. Naturalmente,
neste clima social a gratuidade se faz desnecessária. Cada um tem o que merece,
o que ganhou com o seu próprio esforço. A ninguém se presenteia nada.
Algo semelhante pode
acontecer em relação com Deus, se a religião se converte em uma espécie de
contrato com a divindade: «Eu lhe ofereço orações e
sacrifícios e o Senhor me assegura proteção. Eu cumpro o estipulado e o Senhor
me recompensa». Desaparece, assim, da experiência religiosa o sentimento mais genuíno que é o louvor e a
ação de graças a Deus, fonte e origem de todo bem.
Para
muitos que creem, recuperar a gratuidade pode ser o primeiro passo para sanar
sua relação com Deus. Esse louvor
agradecido não consiste basicamente em tributar-lhe elogios nem em enumerar
os dons recebidos. O principal é captar
a grandeza de Deus e sua bondade insondável. Intuir que somente se pode
viver diante dele dando graças. Essa gratidão radical a Deus desencadeia na
pessoa uma forma nova de olhar para si mesma, um modo novo de relacionar-se com
as coisas e uma atitude diferente diante das pessoas.
O ser humano agradecido sabe
que não é ele a origem de si mesmo; sua existência inteira é dom de Deus. As coisas que o rodeiam adquirem uma
profundidade antes ignorada; não estão aqui somente como objetos que servem
para satisfazer umas necessidades; são sinais da graça e da bondade do Criador.
As pessoas que encontram em seu
caminho são também presente e graça; através delas se lhe oferece a presença
viva de Deus.
Dos
dez leprosos curados por Jesus, somente um volta «glorificando a Deus» e
somente ele escuta as palavras de Jesus: «Tua fé te salvou». O reconhecimento alegre e o louvor a Deus
sempre são fonte de salvação.
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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