O machismo sobrevive firme e forte no Brasil
Respeito de fachada
José de Souza
Martins*
No Brasil, condenamos com paixão a violência contra
mulheres, mas não reconhecemos nosso imaginário profundamente discriminatório,
diz sociólogo
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MANIFESTAÇÃO CONTRA A CULTURA DO ESTUPRO Avenida Paulista - São Paulo - SP Quarta-feira, 1 de junho de 2016 |
A
comoção que provocaram em vários países o estupro e o assassinato de uma
adolescente de 16 anos, na Argentina, e as reações decorrentes pedem uma reflexão sobre a complexidade social da
descabida violência contra a mulher, que insiste e persiste. Mas pedem,
também, uma ampliação dos marcos de referência das interpretações para essas
manifestações de barbárie. Como pedem um
exame crítico do modo como a questão tem sido tratada em países como o Brasil.
Nossa compreensão do assunto é uma compreensão redutiva. Estamos em boa parte
limitados ao âmbito do jurídico e policial.
A
sociedade não tem sido indiferente a essas ocorrências. Sobretudo as mulheres
de classe média têm lutado com afinco e coragem pela adoção de medidas legais
de proteção à mulher e pela observância do que as leis determinam. Mas não se
pode deixar de considerar, ainda que com apreensão, a reação espontânea de
setores populares na repressão aos autores de violência contra a mulher. No Brasil, alguns dos linchamentos mais
violentos das últimas décadas foram motivados por uma radical intolerância à
agressão contra a mulher, especialmente à violência sexual.
Há,
no entanto, um abismo separando as duas modalidades de reação social. Nelas, há
duas e opostas concepções de mulher e dos direitos da mulher. De um lado, a mulher vista como cidadã
e pessoa juridicamente igual ao homem, a mulher da concepção moderna da
condição feminina. De outro lado, a
mulher como sujeito da sociedade patriarcal, como potencial mãe de família,
como personagem do caráter sagrado dos vínculos de sangue entre homem e mulher.
Só na superfície essas duas concepções de mulher se encontram e essas duas
concepções opostas de defesa da mulher convergem. No mais, porém, dizem respeito a dois mundos separados, o
de um hoje tardio e o de um passado persistente.
Essa
polarização reduz a eficácia das duas opostas orientações na defesa dos
direitos da mulher e no combate à violência que a alcança. Porque falta, na sociedade brasileira, a ação que
traduza essas reações na formação de uma cultura de respeito pela mulher e
também de ação autodefensiva das próprias mulheres. Essa não é uma questão
simples nem é questão que se resolva com discursos, embora os discursos também
sejam necessários.
Tudo
“ia bem” enquanto a mulher se mantinha nos limites de uma condição social que
dela fazia vítima submissa e silenciosa de uma variante pouco considerada da
escravidão, fosse ela negra, branca ou mameluca. A mulher servil persistiu mesmo depois da abolição da escravatura sem
que se debatesse com honestidade o fato de que na história social brasileira a
escravidão não se limitou ao negro nem foi exclusivamente escravidão fundada em
raça e cor. Uma certa hipocrisia crônica, sem distinção de raça, cor,
religião, idade e gênero, dissimula o fato de que mais do que racistas somos preconceituosos. O núcleo cultural da
violência contra a mulher é o mesmo que anima outras modalidades de violência,
como a violência contra o homem, contra o pobre, contra a criança, contra os
jovens, contra os diferentes.
No
Brasil, somos apaixonados nas manifestações contra racismo, contra a violência
de gênero ou em relação a homossexuais, mas não temos a honestidade coletiva de reconhecer que somos radicalmente
contra o direito à diferença e não colocamos sob ângulo crítico o nosso
imaginário discriminante. Sem nos darmos conta de que a igualdade entre nós
é adulta, masculina e branca. Isso é, desigual. É esse ser fictício e iníquo
que serve de parâmetro no nosso modo de reconhecer os direitos dos diferentes. Aceitamos os diferentes apenas naquilo em
que são iguais a nós.
Nosso
imaginário contraria o que somos de fato. Durante
séculos matamos os índios e, depois, os louvamos na música, na literatura, na
toponímia. Fenômeno curioso é o de mulheres
que sofreram violência doméstica e morreram e foram depois canonizadas pelas
muitas pessoas que visitam seus túmulos. Ou meninas vitimadas e mortas pela
violência sexual que se tornam objeto da devoção e da piedade popular.
Não
obstante os mais de 100 anos de discursos sobre a igualdade jurídica das
pessoas no Brasil, padres e pastores, nas cerimônias de casamento, continuam
invocando versículos do capítulo 5 da
Epístola de São Paulo aos Efésios, que proclamam a desigualdade de homem e
mulher: o marido deve amar sua mulher; mas a mulher deve reverenciar o marido e
sujeitar-se a ele, “porque o marido é a
cabeça da mulher”. Com o princípio da desigualdade da mulher e sua sujeição
ao homem estabelecido como dogma religioso fica difícil estranhar a violência
doméstica contra a mulher e o componente de menosprezo e deboche que há nos
frequentes estupros. Tudo tem dois lados. O mundo da violência não é um mundo
de um lado só. Isso não dá razão a quem comete violência motivada por preconceito.
Apenas propõe que o tema da violência contra a pessoa seja colocado no âmbito
da complicada trama que a explica para então encontrar-se os meios eficazes de
combatê-la.
* JOSÉ DE SOUZA MARTINS é sociólogo e membro da Academia
Paulista de Letras e autor, entre outros livros, de Uma Arqueologia da Memória Social (Ateliê).
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