Vai sobrar para o Brasil!
Colapso venezuelano
Lourival
Sant'Anna
Brasil precisa elaborar com urgência um plano de
contingência para uma
possível crise humanitária de grandes proporções na
Venezuela
MANIFESTANTES PROTESTAM CONTRA O GOVERNO DE NICOLÁS MADURO No cartaz que a jovem carrega está escrito: "ESTAMOS FARTOS DE SOBREVIVER, QUEREMOS VIVER" |
O
Brasil precisa elaborar com urgência um plano de contingência para uma possível
crise humanitária de grandes proporções na Venezuela, associada ou não a um conflito armado. A resposta demandará um nível de coordenação sem
precedentes, bem maior, por exemplo, do que a realização da Copa e da
Olimpíada – eventos de data marcada com ampla antecedência. Envolve, num primeiro momento:
* os governos federal,
* de Roraima e Amazonas,
* ao menos dez municípios em
cada um desses Estados,
* as Forças Armadas,
* a Polícia Federal,
* as polícias estaduais,
* a Defesa Civil,
* a Vigilância
Epidemiológica,
* Conselhos Tutelares e
demais órgãos ligados à saúde e à assistência social.
A
situação na Venezuela entrou em nova
fase, a partir da decisão do
Conselho Nacional Eleitoral, controlado pelo governo, de impedir a realização
neste ano do referendo revogatório do mandato do presidente Nicolás Maduro.
No ano que vem, o mandato presidencial terá ultrapassado a metade e, mesmo que
os eleitores votem pela saída do presidente, como preveem as pesquisas, não se
realizarão novas eleições. O presidente
será substituído pelo seu vice, por ele nomeado – atualmente, Aristóbulo Istúriz, tão chavista quanto
Maduro. A oposição não aceita essa
manobra.
A
Assembleia Nacional, dominada pela oposição, abriu um julgamento contra Maduro.
Mas o presidente é protegido pelo
Tribunal Supremo de Justiça, controlado pelos chavistas, que anula as decisões da Assembleia.
Centenas de milhares de pessoas se manifestaram na quarta-feira nas principais
cidades do país a favor do referendo neste ano e da saída do presidente. “Se
nos roubam o direito de votar, passamos a outra etapa na Venezuela”,
sentenciou o principal líder da oposição, Henrique
Capriles.
Diante
da convocação de greve geral para a última sexta-feira, Diosdado Cabello,
vice-presidente do governista Partido Socialista Unido da Venezuela, afirmou:
“Conversei sobre isso com o presidente. Empresa que pare, empresa que será
tomada pelos trabalhadores e pelas Forças Armadas.”
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NICOLÁS MADURO E OS CHAVISTAS CONTROLAM: o Tribunal Supremo de Justiça e as Forças Armadas |
Na quinta-feira, a oposição
pretende realizar nova marcha, dessa vez até o Palácio de Miraflores, para
supostamente entregar a Maduro o comunicado de sua destituição pelo Parlamento.
Desde a tentativa de golpe contra Hugo
Chávez, em abril de 2002, as cercanias do palácio se tornaram domínio dos
chavistas. Eu estava lá naquela época, e em muitos outros momentos
conturbados na Venezuela, e presenciei a ação
de milicianos, que chegam em motos, com walkie-talkies, cassetetes e
pistolas, para transformar manifestações
pacíficas em distúrbios violentos, e assim justificar a repressão pela Guarda
Nacional Bolivariana.
Igualmente
explosivo é o conflito entre forças policiais municipais e estaduais,
controladas pela oposição, e as forças de segurança federais. As Forças Armadas “Bolivarianas” foram
politizadas por Chávez, que expurgou os oficiais que não lhe pareciam leais.
Premida
pela falta de moeda forte, a Venezuela
tem três taxas de câmbio. O governo decide quem pode transacionar com o
dólar a 10 bolívares (taxa administrada)
e vender a 658 (flutuante) ou a
1.417 (paralelo). Essas faixas geram
enormes lucros para os oficiais, que foram colocados pelo governo nos negócios
de importação e distribuição. Assim, as
Forças Armadas têm motivos políticos e econômicos para impedir a alternância de
poder. Nos bairros pobres, a
distribuição está a cargo de militantes chavistas, e muitos moradores se
queixam de não receber as cestas básicas por não serem governistas.
O
colapso do abastecimento, do emprego e da renda só não produziu uma explosão
social e uma fuga em massa dos venezuelanos para os países vizinhos porque deu
origem a uma nova ocupação que permite a sobrevivência dos pobres: os bachaqueros
(o nome vem da formiga tanajura, que carrega carga), que pegam imensas filas ou atuam no contrabando, para revender os
produtos para quem tem algum dinheiro.
Conforme a crise se agrava,
com o esgotamento das reservas cambiais, essa válvula de escape está se
fechando.
Daí a entrada de 30 mil venezuelanos em
Roraima, desde o início do ano passado. Conforme o jornal O Estado de S. Paulo mostrou em
reportagem há duas semanas, muitos
dormem nas ruas de Pacaraima, na fronteira, e da capital, Boa Vista, não
encontrando trabalho e sobrecarregando serviços públicos, já em colapso pelo
corte de verbas federais.
Essa onda de migrantes tende
a aumentar.
Pode se transformar em avalanche humana em um cenário, muito provável, de
aumento das manifestações, violenta repressão e confrontos com o governo,
conduzindo ou não a um conflito armado em grande escala. O Brasil não está preparado para isso. Improvisar seria desastroso.
Basta ver a Europa.
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