O que acontece, de fato, com a economia brasileira?
A PEC 241 e a cegueira ideológica
Marcos de
Aguiar Villas-Bôas*
Sim, o Brasil tem uma das piores políticas fiscais do
planeta: juros no topo e o sistema tributário mais complicado, extenso e
regressivo. Ela faz o Brasil refém do rentismo e não beneficia a produção,
tanto que o País se desindustrializou nos últimos anos
Qualquer um, inclusive o Estado, se quiser bons resultados, deve focar em gastar no que gera mais receitas. Não se pode olhar despesas e receitas em separado – regra básica econômica, financeira e contábil.
Com
a PEC 241, o governo Temer, num
momento de queda de receitas e aumento de despesas financeiras, congela as despesas primárias, que,
provadamente por diversos exemplos teóricos e práticos, podem gerar mais
produtividade e receitas.
A PEC, para ter algum
sentido, deveria passar a régua rígida de congelamento no lado das despesas não
primárias, não nas primárias, que deveriam sofrer revisão caso a caso. Todo ano o governo teria de pagar menos
juros e quitar parte da dívida.
As
trajetórias das diferentes despesas primárias são variadas e precisam ser
corrigidas uma a uma, com análise complexa de políticas públicas.
São
elas, ademais, que elevam demanda agregada e produtividade, de modo que, ao proibir aumentos reais, a economia
ficará afundada em crise.
Investimentos
públicos em infraestrutura incentivam o investimento privado e geram ativos
imobilizados, como pontes, aeroportos, estradas, ferrovias, trens etc. para a
sociedade.
Gastos
com educação e saúde elevam o ativo humano, pois deixam os indivíduos mais
produtivos e depois menos custosos para o Estado.
Gastos
sociais, como o Bolsa Família, redistribuem renda numa sociedade imensamente
desigual e garantem mais consumo, uma demanda agregada maior. Algo semelhante
acontece com os aumentos reais de salário mínimo.
A grande maioria dos
economistas mais respeitados no mundo vêm defendendo que o cerne da recuperação
dos países é elevar a demanda agregada. [Significa
a totalidade de bens e serviços (demanda total) que numa determinada economia
os consumidores, as empresas e o Estado, estão dispostos a comprar, a um
determinado nível de preço e em determinado momento]
Por
conta da desaceleração de nações como a China, que estavam puxando os demais, e
por conta da concentração excessiva de riqueza e renda, não há consumo suficiente
para dar conta da produção, que veio aumentando muito nos últimos anos com os
avanços tecnológicos.
A forma de o mundo voltar a
se desenvolver consideravelmente é incluir mais pessoas na economia, fazer com que mais gente possa consumir e, para isso, é preciso reduzir as
desigualdades.
Para
que o aumento de consumo não venha a gerar novos desequilíbrios lá na frente,
como inflação, é interessante que a
redução das desigualdades não seja apenas por distribuição de dinheiro, mas por
aumento de produtividade via melhoria de infraestrutura e do nível de capital
humano (educação e saúde). [Justamente isso não
ocorreu no Brasil! Tivemos um aumento de renda das classes populares, mas não
um aumento da produtividade e da infraestrutura!]
As
referidas despesas primárias são importantíssimas para o desenvolvimento
econômico. Se a PEC 241 passar também no Senado, tal como é hoje, será um
desastre para a economia, e não é possível que os membros do Ministério da
Fazenda não vejam isso. Mesmo com a reforma da Previdência, ela espremerá tanto
alguns gastos essenciais que sequer é viável; é inexequível.
Quanto
às despesas não primárias, gasta-se centenas de bilhões em juros, os mais altos
do planeta. São mais de 20% de todas as despesas.
O
Brasil, ano a ano, faz o que se chama de rolagem de dívida, paga a contraída no
passado com dinheiro de nova dívida. Há quem use esse número para elevar o
valor de juros pagos, mas isso é obviamente um erro.
Por
outro lado, contabilmente, há aí despesas e, financeiramente, há desembolso. Em
suma, há uma perpetuação da dívida e do pagamento de juros astronômicos.
Juros
são a remuneração pelo tempo que alguém detém o dinheiro de outrem. O ideal de
um empréstimo é que ele seja pago logo, a menos que o retorno do investimento
daquele dinheiro seja maior do que os juros pagos, algo incomum.
Quanto
mais se paga juros – por conta de o percentual ser alto e, se for alto, é pior
que o tempo seja longo –, mais chances de o empréstimo não ter valido a pena.
No Brasil, paga-se juros altíssimos e a dívida apenas aumenta.
Defensores
da PEC usam uma cortina de fumaça para fugir do real problema, ao criticar quem
infla o valor dos juros com os valores da dívida rolados. A questão é que o
País está pagando dívida, juros altíssimos e contraindo nova dívida, o que não
gera retorno. É um círculo vicioso que provoca enorme aumento das despesas
estatais.
O
déficit brasileiro não estourou por conta das despesas primárias, que crescem
regularmente desde 1997, apesar de que poderiam ser otimizadas: reduzir
corrupção e má eficiência, por exemplo, para gastar melhor.
O
déficit se deve à:
* queda de receitas (provocada pela falta de demanda agregada
que gera queda de vendas),
* às desonerações tributárias e
* ao aumento de despesas
por quase duplicação dos juros de 7,25% em janeiro de 2013 para 14,25% em
janeiro de 2016, tendo havido redução de míseros 0,25% há alguns dias.
Some-se
a isso que boa parte do aumento dos gastos nos últimos tempos se deu por compra
de dólar pelo Brasil para constituir sua reserva e por transferências de
títulos para bancos federais, como explica Felipe Rezende.
Caíram
as receitas e houve muitas despesas não primárias, mas o governo quer corrigir
o déficit congelando as despesas primárias. Há erro de avaliação e de proposta
de solução.
Onde
está o cerne do problema da dívida: nas despesas primárias, que, como dito, têm
potencial para tirar o País da crise econômica e não cresceram fora da curva,
ou nas despesas financeiras, que têm apenas gerado desembolsos de centenas de
bilhões em juros?
É
essa a decisão que o Brasil precisa tomar, e não parece ser difícil quando o
tema é colocado de forma honesta e clara.
Para
pagar a dívida, é preciso que sejam geradas receitas de outro lugar, que não de
novas dívidas, como o Brasil faz. Deve-se gerar mais receitas tributárias com
urgência. É necessário elevar a demanda agregada, para que se consuma e se
venda mais e, então, se arrecade mais.
![]() |
ALAN GREENSPAN Economista norte-americano, foi de 11 de agosto de 1987 até 31 de janeiro de 2006 presidente do Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos, o Banco Central. |
Para
que haja mais demanda agregada e maximização das receitas, é necessário
destravar a economia. Não há outra saída melhor em curto prazo do que corrigir
um grave desequilíbrio brasileiro: o pior sistema tributário do mundo.
Sim,
o Brasil tem uma das piores políticas fiscais do planeta: juros no topo e o
sistema tributário mais complicado, extenso e regressivo. Ela faz o Brasil
refém do rentismo e não beneficia a produção, tanto que o País se
desindustrializou nos últimos anos.
A
insistência em não reformar a tributação e manter um nível sobre a indústria
que é mais do que o dobro da carga dos países da OCDE, enquanto que o nível da
tributação da renda da pessoa física e da riqueza está bem abaixo do nível
nesses mesmos países, é acreditar – ou fingir que se acredita – que a carga
tributária já é muito alta e que não se pode mais mexer nela.
A
carga é altíssima para os pobres e classe média, mas baixa para os muito ricos.
É necessário reformar a tributação de cima a baixo.
Não
é apenas uma questão de acabar com a isenção de dividendos, mas de reformular
quase tudo, para que, com a queda da tributação do consumo, ocorra redução nos
preços e da inflação. Ao mesmo tempo, se pode obter mais receitas com o fim da
isenção dos dividendos, a correção nas deduções permitidas no Imposto de Renda
e a criação de novas alíquotas mais altas para os mais ricos.
Parece
claro o que deve ser feito no Brasil. Poucos grandes economistas estrangeiros
discordariam do que está sendo dito neste texto. Seus trabalhos recentes
confirmam os argumentos.
Basta
conferir os estudos de conservadores como Olivier Blanchard, Larry Summers e
Alan Greenspan, que assumiram ter contribuído para a crise de 2007-2009 e não
ter ferramentas para lidar com ela a partir dos sistemas teóricos que antes
defendiam.
![]() |
Marcos de Aguiar Villas-Bôas Autor deste artigo |
Está
na hora dos membros do Ministério da Fazenda e dos demais apoiadores da PEC 241
se atualizarem e fazerem como Greenspan, ex-presidente do banco central
americano por quase 20 anos, que, após ser posto contra a parede por conta da
crise, disse que tinha cometido erros graves por cegueira ideológica.
Muitos
brasileiros continuam defendendo posições que vão exatamente na linha geradora
da crise. O resultado não poderá ser
outro: aumento da desigualdade e mais crise.
* MARCOS DE AGUIAR VILLAS-BÔAS, doutor em Direito Tributário pela Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP), mestre em Direito pela Universidade Federal da Bahia
(UFBA), é conselheiro do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais do
Ministério da Fazenda e pesquisador independente na Harvard Law School e no Massachusetts
Institute of Technology (ambos nos Estados Unidos).
Comentários
Postar um comentário