Estados Unidos brincam com o perigo
Eleitores sem bússola
Serge Halimi
Diretor
de redação de “Le Monde Diplomatique” (França)
Uma candidata tão experimentada e assessorada como
Hillary Clinton pode ser derrotada por um homem brutal e controverso, inclusive
dentro de seu campo político, como Donald Trump? Mesmo que não seja a mais
provável, essa possibilidade, que dependerá do voto de uma América esquecida,
não pode ser excluída
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HILLARY CLINTON (Democrata) x DONALD TRUMP (Republicano) |
The system is rigged (“O sistema está viciado”). Já sabíamos que nos Estados Unidos:
a)
o candidato que recebe o maior número de
votos em escala nacional nem sempre é o que se torna presidente; que
b)
a corrida para a Casa Branca ignora três
quartos dos estados onde o resultado da eleição parece certo;
c)
que quase 6 milhões de cidadãos
condenados pela justiça perderam o direito de votar;
d) que
11% dos potenciais eleitores não têm os
documentos de identidade exigidos para colocar um voto na urna;
e)
que o sistema eleitoral concede aos dois
partidos dominantes uma vantagem exorbitante.
f) Também
sabemos que o dinheiro, os meios de comunicação, os lobbies e os distritos eleitorais desfiguram a representação democrática do
país. [1]
Desta vez, no entanto, há
uma coisa a mais. Um sentimento que atravessa as divisões partidárias. Uma raiva
expressa nas primárias pelos 12.024.000
eleitores do senador democrata Bernie Sanders,
mas também pelos 13.300.000 de
vitoriosos simpatizantes do bilionário republicano Donald Trump. “O sistema
está viciado”, acreditam, pois os governantes, tanto republicanos como
democratas, conduziram guerras no Oriente Médio que empobreceram os Estados
Unidos, sem lhes trazer a vitória. Viciado
porque a maioria da população continua sofrendo as consequências de uma crise
econômica que não custou nada àqueles que a causaram – muito pelo contrário.
Viciado porque o presidente Barack Obama traiu a esperança de mudança, imensa,
despertada por sua campanha de 2008. Viciado porque os eleitores republicanos
também não viram grande coisa acontecer após se mobilizarem para conseguir,
primeiro em 2010, depois em 2014, o controle das duas câmaras federais. “O
sistema está viciado” porque nada muda
em Washington, porque os norte-americanos se consideram expropriados de sua
pátria por uma oligarquia que os
despreza, porque a desigualdade aumenta
e a classe média está com medo.
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BERNIE SANDERS (Era pré-candidato a Presidente dos Estados Unidos pelos Democratas) |
No
começo, parecia que tudo ia bem. Do lado democrata, o que devia ser um adorável
passeio de Hillary Clinton rumo à nomeação do partido, uma forma de sucessão
dinástica poderosamente assistida por Obama, transformou-se numa batalha feroz
contra um franco-atirador septuagenário. Este conseguiu, para surpresa de todos, mobilizar milhões de jovens
eleitores, cidadãos rurais e trabalhadores em torno de temas
anticapitalistas. O dinheiro não era obstáculo para Sanders, pois ele conseguiu uma grande quantia graças a milhões de
pequenos doadores. Assim, um dos principais “vícios” da política
norte-americana, e um dos mais odiados, foi atingido. [2]
Uma conquista tão promissora que Donald Trump gastou muito menos, em sua
campanha para as primárias, do que vários dos republicanos derrotados por ele.
O
apelo por “menos Estado” caracterizou a maioria das campanhas anteriores. Hoje,
mesmo os eleitores conservadores pedem que o poder público intervenha mais na
economia. As intermináveis homilias pela redução
das despesas sociais, pela “reforma”
da previdência e pelo corte do
auxílio aos desempregados já não fazem parte do programa de Trump. E, no
que diz respeito ao livre-comércio, tema central de sua campanha, o candidato
quer rasgar os tratados negociados por seus antecessores, tanto republicanos
como democratas, e impor tarifas às empresas norte-americanas que transferiram
suas atividades para o exterior. Além disso, ele e sua concorrente concordam que o Estado deve financiar a cara
reconstrução da infraestrutura de transportes do país. [3] Em suma, o consenso bipartidário em favor da
globalização e do neoliberalismo foi pelos ares. As grandes empresas norte-americanas, de tanto exibir seu cinismo e
voracidade, conseguiram destruir a ideia de que existe uma relação obrigatória
entre seu sucesso e a prosperidade do país. [4]
Embora
Hillary Clinton tenha prometido delegar missões importantes ao marido, grande
arquiteto da guinada para a direita do Partido Democrata há 25 anos, sua
formação já não tem a mesma cara forjada pelo casal quando ocupava a Casa Branca.
Seus eleitores estão mais à esquerda, menos tentados pelos compromissos com os
republicanos: o termo “socialismo” já não os assusta... E, a respeito de quatro pontos emblemáticos da guinada
conservadora dos “novos democratas” na década de 1990:
* os tratados de
livre-comércio,
* o boom penitenciário,
* a desregulamentação
financeira e
* a moderação salarial,
Hillary
teve de dar garantias aos apoiadores de Sanders.
As
diatribes de Trump contra a imigração mexicana, contra o islã, seu sexismo,
suas elucubrações racistas, tudo isso inspira tanta repugnância que às vezes
obscurece o resto. No entanto, seja em relação aos gastos sociais, à política
comercial, aos direitos dos homossexuais, às alianças internacionais ou aos
envolvimentos militares no exterior, Trump
repudiou com tal insistência as tábuas da lei de seu partido que é difícil
imaginar uma virada próxima dos dirigentes republicanos em todos esses pontos.
A menos que estes tenham a intenção de perder definitivamente “sua” base, que
já sinalizou impaciência ao votar nas primárias em um candidato pouco conhecido
para manter seus tiros, inclusive contra os líderes de seu campo: “Nossos políticos”, avalia Trump, “prometeram com vigor uma política de
globalização. Ela enriqueceu a elite financeira que contribuiu para suas
campanhas. Mas, para milhões de trabalhadores norte-americanos, isso só
significou miséria e angústia”. Vindas de um bilionário que divide seu
tempo entre uma cobertura em Manhattan e um avião particular, essas palavras
até espantam. Mas são um bom resumo da situação.
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Trabalhadores brancos desempregados nos Estados Unidos |
“DIVERSIDADE”
PARA AS CLASSES DIPLOMADAS
Tudo
isso poderia sugerir que... o sistema não está viciado. E que, como deu a
entender Francis Fukuyama, em um
artigo recente na Foreign Affairs, a democracia norte-americana funciona
porque responde à ira popular, incomoda a dinastia Clinton, humilha os
barões republicanos, coloca no centro das eleições a questão da desigualdade,
do protecionismo e da desindustrialização. [5] E
talvez anuncie o fim de uma dupla farsa política.
Ao
longo dos anos, o Partido Democrata tornou-se
instrumento das classes médias e superiores diplomadas. E, exibindo os símbolos
de sua “diversidade”, conseguiu uma esmagadora maioria de votos negros e
hispânicos; com o apoio dos sindicatos, manteve uma base eleitoral
trabalhadora. No entanto, sua visão de
progresso deixou de ser igualitária. Ora paternalista e individualista
(recomendação para se esforçar mais), ora meritocrático (recomendação de
estudar mais), ele não oferece nenhuma
perspectiva para a América periférica, que, distante da costa, continua
afastada da prosperidade das grandes metrópoles mundiais, das transbordantes
fortunas de Wall Street e do Vale do Silício, e observa o desaparecimento dos empregos da indústria, há muito o alicerce de uma classe média com pouco
estudo, mas relativamente segura de seu futuro.
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FRANCIS FUKUYAMA Cientista Político norte-americano |
A essa classe média e aos
“brancos pobres”, o Partido
Republicano, antes de Trump, também
não tinha quase nada a oferecer. Seu objetivo central era reduzir os
impostos nos negócios, permitindo a exportação e o investimento no exterior.
Contudo, falando de pátria, religião e moralidade aos trabalhadores e proletários brancos, caricaturando a
perseguição da América profunda pelas minorias assistidas e intelectuais
arrogantes, os conservadores há muito
tempo souberam garantir que as vítimas de sua política econômica e comercial
continuariam servindo-lhes de bucha de canhão eleitoral. [6]
A
popularidade de Trump junto a elas também tem outras razões. O empreiteiro de
Nova York não fala somente de Bíblia e porte de armas, mas também defende
indústrias, denuncia acordos comerciais. Hillary
Clinton certamente não reconquistou o apreço desses eleitores irritados rotulando
a maioria deles de “gente deplorável”, “racista, sexista, homofóbica, xenófoba,
islamófoba”. Esse diagnóstico psicológico foi feito em uma festa
beneficente em Nova York, para uma “gente” necessariamente admirável, uma vez
que tinham pagado caro para ouvi-la.
Uma
eleição marcada por tais viradas ideológicas, e até por um desejo de virar a
mesa, pode, mesmo assim, ser concluída com a vitória do candidato do status quo? Sim, se este tiver como
adversário um outsider ainda mais detestado que ele. No fundo, aí está o truque
principal. E ele não existe só nos Estados Unidos. A França pode passar por uma
situação semelhante no próximo ano: ira popular contra a globalização,
segregação social e conivência das “elites”, tudo inevitavelmente desviado por
um jogo político que, tanto num caso como no outro, faz o pão cair com a
manteiga para baixo.
Nada muito inesperado pode
vir de Hillary Clinton – cercada de especialistas, pesquisadores, publicitários, ela calcula
cada milímetro –; Donald Trump optou por
embaralhar as coisas. E fez isso jogando para o alto a estratégia arranjada
por seu partido.
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GEORGE W. BUSH (ex-presidente dos EUA) Chegou a ter 70% dos muçulmanos favoráveis a ele na eleições... |
Em
2012, a reeleição do atual presidente surpreendeu os caciques republicanos.
Eles concluíram que sua próxima vitória exigiria reduzir a vantagem eleitoral
dos democratas entre os negros (Hillary Clinton os mobilizaria menos que Barack
Obama) e, especialmente, entre os hispânicos, cujo peso demográfico só aumenta.
Como esse último grupo muitas vezes enfrenta a política restritiva dos
republicanos sobre a imigração, convém mostrar-se mais aberto sobre o assunto e
legalizar uma parte dos imigrantes ilegais. As lealdades eleitorais não estão escritas nos genes, portanto nada
impede um hispânico de votar na direita, se ele for contrário ao aborto ou não
gostar de pagar impostos. Os imigrantes poloneses, italianos, lituanos votavam
nos democratas antes de apoiar Ronald Reagan; em 2000, 70% dos muçulmanos eram favoráveis a George W. Bush; oito anos depois, eles eram 90% favoráveis
a Obama... [7]
Em
vez de tentar roubar alguns votos de um eleitorado latino e negro hostil aos
republicanos, Trump apostou no
contrário: aumentar sua vantagem entre os brancos não hispânicos. Embora
essa seja uma fatia da população em declínio, ela representava 74% do eleitorado em 2012. Para mobilizar esse grupo,
sobretudo os operários e empregados pouco qualificados, Trump incentivou o
temor de que um afluxo de imigrantes poderia causar problemas de segurança e
dissolução identitária e, simultaneamente, martelou
a promessa de um renascimento industrial (“Vamos tornar a América grande de novo”). Esse discurso encontra ressonância em um grupo social com o qual o
establishment democrata não se preocupa muito, pois não o associa nem à
modernidade digital nem à diversidade demográfica. Provavelmente porque
acredita que ele esteja se debatendo em uma cultura e um universo
ultrapassados, em declínio, “deploráveis”.
No
entanto, se as metrópoles são responsáveis por uma parte crescente da
prosperidade do país e de sua produção de imaginário, é basicamente nos estados da periferia que se decidem as eleições.
Por meses, a Califórnia e Nova York puderam tratar esse grupo com
superioridade, já que seu voto estava garantido (para os democratas) e a margem
de vitória não tem nenhuma importância. Porém, Ohio, Pensilvânia, Michigan e Wisconsin fizeram sua vingança. Como
nesses estados o resultado da eleição é mais incerto, tais eleitores foram
cortejados, convidados para reuniões, ouvidos. E o que descobriram? Que tais
estados, mais brancos, mais velhos e muitas vezes menos instruídos que a média,
perderam centenas de milhares de empregos por causa das transferências de
empresas para o exterior e da concorrência chinesa e mexicana, acumulam
capacidade industrial ociosa e se beneficiaram menos do que o resto do país da
recuperação da economia. Assim, eles
recebem bem o discurso protecionista e preocupado de Trump; já Hillary Clinton tem dificuldades para
vender os “bons resultados” de Obama.
Em
breve, quando as cidades mundiais estiverem ainda mais inchadas e a imigração
tiver transformado os Estados Unidos num país majoritariamente composto por
“minorias”, os democratas poderão passar sem o Meio-Oeste operário, como
outrora puderam ignorar os “brancos do sul”. Mas não será este ano.
Este
ano ainda é cedo para sair reclamando impunemente como uma criança mimada de
todos aqueles que reagem (mal) aos problemas que eles mesmos criaram; para sair intimando as pessoas a estudar mais,
trocar de emprego, mudar de casa. Pois, com Trump na arena, os democratas não têm mais garantia de que aquilo
que resta de sua base trabalhadora não terá outro refúgio eleitoral.
Encarnação de uma “elite” política que há 25 anos conduz o mundo popular à
catástrofe, Hillary Clinton precisava
levar em conta populações cujo destino econômico está ameaçado, aterrorizadas
pela perda de sua condição social. Seu currículo é resplandecente; mas, em
2016, muitos norte-americanos parecem querer mandar o governo para o espaço, e
para isso contam com uma banana de dinamite chamada Donald Trump.
Então,
de repente, os brancos vulneráveis
voltam a fazer diferença e começam a ser examinados, como há meio século foi
feito com o lumpemproletariado negro. Descobre-se então que a expectativa
de vida dos mineiros dos Apalaches, dos cultivadores de tabaco da Virgínia, de
todos aqueles que tiveram de mudar de emprego, virar guardas do Walmart
ganhando um terço do salário, caiu. Que para
os brancos sem diploma a expectativa de vida é hoje treze anos menor que a dos
brancos que passaram pela universidade (67,5 contra 80,4); entre as
mulheres, a diferença é um pouco mais de dez anos (73,5 contra 83,9). Já não é mais só nos guetos negros que
encontramos lojas de penhores, jovens mães solteiras que dependem da
assistência social, altas taxas de obesidade, toxicômanos. Para essa população
vulnerável, a experiência de Hillary Clinton, seu respeito às normas políticas
de Washington, nada disso é uma vantagem.
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Trabalhadores em minas nos Estados Unidos |
Qual será o futuro
“pós-industrial”, quando:
* todas as minas de carvão
que os empregam tiverem fechado,
* quando os motoristas de
táxi e caminhão forem substituídos por veículos com piloto automático do
Google,
* quando os caixas de
supermercados forem scanners, e
* os operários, robôs?
Serão
todos programadores? Todos garçons? Todos entregadores de refeições prontas
pedidas por aplicativos de celular, locadores de quartos para turistas,
pequenos horticultores, cuidadores em domicílio? Hillary Clinton não responde a essa preocupação; ela provavelmente a
entende como rejeição ao progresso. Já Donald Trump insiste nesse ponto,
perguntando àqueles que se assustam com a brutalidade de sua personalidade e
sua falta de experiência política: “O que você tem a perder?”.
Viciado ou não, em breve
descobriremos se o sistema eleitoral norte-americano se tornou frágil o
suficiente para entregar-se a um homem como ele. Mas, se nas próximas
semanas, um atentado, um programa de televisão mostrando desvios dos serviços
públicos ou a descoberta de correspondências comprometedoras conseguirem
afastar Hillary Clinton da Casa Branca, será prova de que, longe de combater eficazmente a direita autoritária, o partido do status quo neoliberal [Partido
Democrata] tornou-se seu principal
combustível.
N O T A S
[ 1 ] –
Para uma análise mais detalhada desses vieses, ler Serge Halimi e Loïc
Wacquant, “Démocratie à l’américaine” [Democracia ao estilo dos Estados
Unidos], e Benoît Bréville, “Géorgie et Caroline du Nord, les deux Sud”
[Geórgia e Carolina do Norte, os dois suis], Le Monde Diplomatique, respectivamente dez. 2000 e out. 2012. Ver
também Elizabeth Drew, “Big dangers for the next election” [Grandes perigos
para a próxima eleição], The New York
Review of Books, 21 maio 2015.
[ 2 ] –
Segundo pesquisa realizada no fim de maio de 2015, 84% dos cidadãos dos Estados
Unidos acreditam que o dinheiro ocupa muito espaço na vida política do país;
85% julgam que o sistema de financiamento de campanha precisa ser completamente
reconstruído ou fundamentalmente transformado; e 55% acham que na maior parte
do tempo os eleitos defendem os interesses dos grupos que os financiaram (The New York Times, 2 jun. 2015).
[ 3 ] –
Hillary Clinton promete dedicar US$ 275 bilhões em cinco anos; Donald Trump, o
dobro. Ver Janet Hook, “Trump bucks his party on spending” [Trump enfrenta
partido a respeito de gastos], The Wall
Street Journal, Nova York, 19 set. 2016.
[ 4 ] –
Ver William Galston, “The double political whammy for business” [O duplo
obstáculo político para os negócios], The
Wall Street Journal, 20 jul. 2016.
[ 5 ] –
Francis Fukuyama, “American political decay or renewal?”, [Decadência ou
renovação da política norte-americana?], Foreign
Affairs, Nova York, jul.-ago. 2016.
[ 6 ] –
Ver Thomas Frank, Pourquoi les pauvres
votent à droite [Por que os pobres votam na direita], Agone, Marselha,
2013. Ler também “Stratagème de la droite américaine, mobiliser le peuple
contre les intellectuels” [Estratégia da direita nos Estados Unidos: mobilizar
o povo contra os intelectuais], Le Monde
Diplomatique, maio 2006.
[ 7 ] –
Segundo o jornal The New York Times,
9-10 jan. 2016.
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