A “ciberguerra” contra o Papa Francisco
Entrevista
com Giacomo Galeazzi
Jornalista
especializado em Vaticano – Jornal “La Stampa” – Turim (Itália)
Pierluigi Mele
Rainews
18-10-2016
Os sites tradicionalistas desencadeiam uma espécie de
“ciberguerra” contra as ações do Papa Francisco. Quais são os sites e quem são
esses superintegralistas “católicos”?
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GIACOMO GALEAZZI |
Conversamos
a respeito com Giacomo Galeazzi,
vaticanista do jornal La Stampa,
autor, junto com Andrea Tornielli,
de uma investigação sobre aquela área eclesial que vive de ressentimentos
nostálgicos contra o Vaticano II e a modernidade. [Acesse essa
matéria-investigativa traduzida em português, clicando aqui]
Eis
a entrevista.
Galeazzi,
você e Andrea Tornielli foram autores de uma bela investigação jornalística
sobre a resistência (ou a dissidência) ao Papa Francisco, publicada nos últimos
dias no Vatican Insider, queremos aprofundar alguns dos pontos da sua
investigação. Comecemos fazendo um pequeno mapa: onde se situa mais a área da
dissidência?
Giacomo Galeazzi: Há um mês, quando começamos
a nossa viagem na galáxia dos opositores de Bergoglio, logo aplicamos um método
muito rigoroso. Encontros, conversas, visitas: tudo gravado, escrito,
inatacável. E, de fato, depois da publicação da nossa investigação, as reações
dos sites ultratradicionalistas devem se agarrar aos espelhos da conspiração,
porque não têm elementos para contestar nem mesmo uma vírgula daquilo que
relatamos. Nós mergulhamos durante semanas em uma frente eclesial, política e
cultural que, na web e nos círculos, une "leguistas"
[da Liga Norte, partido de extrema direita italiano], nostálgicos de Ratzinger, inimigos
do Concílio [Vaticano II). Por exemplo, na sua página oficial no Facebook, Antonio Socci defende que Bento XVI não quis
realmente renunciar, mas ainda se considera papa, querendo, de algum modo,
compartilhar o "ministério petrino" com o sucessor. Interpretação que o próprio Ratzinger
desmentiu.
A
dissidência se manifesta mais não só com livros, mas também, como você já
disse, com o instrumento da web. A rede se torna, assim, a arma para desencadear
a oposição a Francisco. Pode nos dar alguns nomes dos principais opositores?
Giacomo Galeazzi:
O que
mantém unida a galáxia da dissidência é a aversão a Francisco. É uma área
variada que vai dos lefebvrianos que decidiram "esperar por um pontífice
tradicional" para voltar à comunhão com Roma aos católicos "leguistas" que contrapõem Francisco ao seu
antecessor Ratzinger e lançam uma campanha "O meu papa é Bento". Há os ultraconservadores da Fundação Lepanto e os sites próximos de posições
sedevacantistas*,
convencidos de que Socci tem razão ao defender a invalidez da eleição de
Bergoglio apenas porque, no conclave de março de 2013, uma votação tinha sido
anulada sem ter sido escrutinada. O motivo? Uma cédula a mais inserida por
engano por um cardeal. A votação tinha sido imediatamente repetida, justamente
para evitar qualquer dúvida e sem que nenhum dos purpurados eleitores
levantasse objeções. Nessa galáxia, também há prelados [bispos, arcebispos e
cardeais], e intelectuais tradicionalistas assinam abaixo-assinados ou
protestam contra as aberturas pastorais do pontífice argentino sobre a comunhão
para os divorciados recasados e sobre o diálogo com o governo chinês.
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RICCARDO CASCIOLI Diretor do site "La Nuova Bussola Quotidiana" |
Qual
o peso dessa área?
Giacomo Galeazzi:
Depois da
publicação da nossa investigação no La
Stampa, um grande colega do jornal Avvenire,
Luigi Rancilio fez-se exatamente
esta pergunta: quantas pessoas estão
envolvidas nessa frente anti-Bergoglio na web? Assim, ele analisou o
tráfego dos blogs e dos sites citados em setembro, usando SimilarWeb (que pode não ser 100% exato, mas é muito confiável).
Aqui estão os resultados:
* La Nuova Bussola Quotidiana, uma média de 11.200 leitores por dia.
* O blog de Antonio Socci, média de 6.833 leitores diários.
* Il Timone, média de 3.253 leitores diários.
* O blog de Sandro Magister na L’Espresso,
média de 2.870 leitores diários.
* Riscossa Cristiana, média de 2.440 leitores diários.
* Unavox, média de 1.456 leitores diários.
* O blog do Pe. Giorgio De Capitani, média de 730 leitores diários.
* O blog Chiesa e Postconcilio, média de 284 leitores diários.
* Rosso Porpora, média de 57 leitores diários.
Mesmo
fingindo que nenhum desses sites ou blogs tenha leitores em comum (o que é
impossível), estamos falando de cerca de
29.123 pessoas por dia. Portanto, o Papa Francisco pode dormir
tranquilamente. A dissidência contra o
papa une pessoas e grupos muito diferentes e não comparáveis entre si.
A
linha pastoral de Francisco, que, no rastro do Vaticano II, propõe uma
eclesiologia inclusiva (a visão da "Igreja como hospital de
campanha"), é contestada por alguns cardeais e por uma parte da Cúria
Romana. O que contestam ao Papa Francisco? Qual é a crítica mais feroz do ponto
de vista teológico?
Giacomo Galeazzi:
Um dos
principais centros de resistência, de acordo com o historiador
ultratradicionalista Roberto De Mattei (presidente
da Fundação Lepanto) é o Instituto João Paulo II para a Família.
Na mira dos críticos também está a contribuição que a política migratória de
Francisco, na opinião dos seus detratores, fornece para a desestabilização da
Europa e para o fim da civilização ocidental. Entre aqueles que são
considerados estrelas-guia por parte desse mundo, estão, sobretudo, o purpurado
[cardeal] estadunidense Raymond Leo Burke,
patrono dos Cavaleiros de Malta, e o
bispo auxiliar de Astana, Athanasius Schneider.
Os bispos católicos no mundo são mais de cinco mil, lembrou-nos o sociólogo
Massimo Introvigne. A dissidência
consegue mobilizar uma dezena, muitos dos quais aposentados, o que mostra
precisamente a sua falta de consistência.
Vimos
que a rede se torna o grande contêiner onde se abriga o ressentimento, a
deslegitimação (e, em alguns casos, também o ódio) contra o papa. Embora entre
diferenças de posições, parece haver uma "direção" comum que alimenta
essa dissidência. É verdade? Ou é uma visão "conspiratória" imaginar
isso?
Giacomo Galeazzi:
Introvigne
defende que essa dissidência está
presente mais na web do que na vida real e é sobreavaliada: de fato, há dissidentes que escrevem comentários nas
redes sociais debaixo de quatro ou cinco pseudônimos, para dar a impressão de
serem mais numerosos. E é um movimento que não tem sucesso, porque não é
unitário. Existem pelo menos, de
acordo com Introvigne, três dissidências
diferentes: 1ª) a política das fundações
estadunidenses, de Marine Le Pen e de Matteo Salvini que não estão muito
interessados nas questões litúrgicas e morais – muitas vezes, sequer vão à
igreja –, mas somente na imigração e nas críticas do papa ao turbo-capitalismo.
2ª) A dissidência
nostálgica de Bento XVI, mas que não contesta o Vaticano II. 3ª) E a dissidência
radical da Fraternidade São Pio X
ou de Mattei e Gnocchi, que, ao contrário, rejeita o Concílio e aquilo que veio
depois.
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SANDRO MAGISTER |
Entre
os protagonistas, além de teólogos e alguns elementos da hierarquia, há os jornalistas.
Entre os mais conhecidos, lembramos: Magister (mais sofisticado), Socci
(defensor da tese da invalidade da eleição de Francisco) e Rusconi
(tradicionalista de Ticino). Notei a ausência de Aldo Maria Valli, vaticanista
do TG1, um dos mais críticos, embora refinado, contra o papa. Por quê?
Giacomo Galeazzi:
Fizemos uma
fotografia daquilo que existe. Foi um trabalho capilar e extenuante.
Certamente, também há outras vozes de dissidência a Francisco. Relatamos
aquelas que consideramos como as mais significativas. A dissidência contra o
papa une pessoas e grupos muito diferentes e não comparáveis entre si: há os
distanciamentos soft do jornal online La
Bussola Quotidiana e da revista Il
Timone, dirigidos por Riccardo Cascioli. Há
a repreensão quase diária ao pontífice argentino divulgada online pelo
vaticanista emérito da L’Espresso, Sandro Magister. Há os tons apocalípticos e
zombadores de Maria Guarini, animadora do blog Chiesa e Postconcilio, até chegar às
críticas mais duras dos grupos ultratradicionalistas e sedevacantistas, aqueles
que consideram que não houve mais um papa válido depois de Pio XII.
Não
há só a teologia. A dissidência também diz respeito à "política" e
até mesmo à "geopolítica da misericórdia" de Francisco. Aqui, o
espectro vai dos católicos conservadores estadunidenses (que votam em Trump)
aos católicos leguistas que torcem por Putin. Não é absurdo ter Putin como um
interlocutor a ser contraposto ao Papa Francisco? Sem esquecer a direita
"soberanista". Sobre que base se fundamenta essa insurreição?
Giacomo Galeazzi:
Visitamos
os lugares e nos encontramos com os protagonistas dessa oposição a Francisco,
numericamente limitada, mas muito presente na web, para descrever um
arquipélago que, pela internet, mas também com encontros reservados entre
eclesiásticos, mistura ataques frontais e públicos com estratégias mais
articuladas. Introvigne nos fez
notar uma surpreendente característica comum a muitos desses ambientes: é a idealização mítica do presidente russo
Vladimir Putin, apresentado como o líder "bom" a ser contraposto ao
papa líder "ruim", por causa de suas posições em matéria de homossexuais, muçulmanos e imigrantes. A dissidência anti-Francisco conta com a
colaboração de fundações russas muito ligadas a Putin.
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Livro sem publicação no Brasil até o momento (Clique sobre a imagem para ampliá-la) |
Você
acha que essas posições têm alguma possibilidade de alcançar um consenso mais
amplo na comunidade eclesial?
Giacomo Galeazzi:
No livro Il Concilio di Papa Francesco
(Elledici), eu pude listar razões e questões que dividem esses opositores de
Bergoglio da esmagadora maioria dos fiéis. Entre
os inimigos de Francisco, muitos assumem o Vaticano II como o "grande
inimigo". Francisco, precisamente por ser o primeiro papa que não
participou do Concílio, tem como direção fundamental a realização e a
atualização da primavera conciliar. E isso contrasta com o lugar comum de um
período histórico da Igreja totalmente concluído e que deve ser celebrado quase
com um obséquio retórico obrigatório, mais ou menos convicto, mais ou menos
hipócrita. Francisco considera que o
Concílio, ao contrário, permaneceu praticamente não aplicado e que, em vez de
celebrá-lo ritualmente, justamente, ele deve ser vivido na experiência pastoral
cotidiana. A referência ao Concílio me permitiu, também através de um amplo
reconhecimento entre as opiniões dos mais influentes protagonistas do debate
eclesial, de formular distinções entre termos que se confundem demais para ser
esclarecedores. Aqueles que se lembram da diferença essencial, por exemplo,
entre miséria e pobreza, para os quais a primeira é indignidade, a segunda é
estilo de vida, e o Evangelho diz, de fato, "bem-aventurados os
pobres", e não "bem-aventurados os miseráveis". Justamente para
contestar assimilações ideológicas ingênuas ou maldosas, é útil recordar as
palavras de Francisco que reivindicam a primogenitura da palavra evangélica
sobre a importância do "cuidado dos pobres", em comparação com
reivindicações marxistas totalmente estranhas à concepção cristã da vida.
Como
o Papa Francisco reage a tudo isso?
Giacomo Galeazzi:
Francisco é
um dom providencial para a Igreja e para o mundo. Basta acompanhar, a cada dia,
no site Vatican Insider [clique aqui:
em italiano, espanhol, inglês, chinês, polonês e árabe], a atividade de
Bergoglio e ver os seus extraordinários efeitos globais para entender o porte
histórico do seu pontificado. Àqueles que atacam Bergoglio acriticamente, de
cabeça baixa, e, apesar de se chamarem de católicos, chegam a insultá-lo nos
sites ultratradicionalistas definindo o Vigário de Cristo como "um
monótono palhaço de pouco valor", vale a pena indicar a leitura de O nome de Deus é misericórdia (Editora Planeta),
o livro no qual o papa demonstra esplêndida e inequivocamente a Andrea
Tornielli como o Evangelho é a única
orientação da sua ação. As respostas de Bergoglio a Tornielli dão a
entender de maneira inequívoca como o
pontífice traz no coração exclusivamente a evangelização. Venenos medíocres
e mesquinhos de pequenas poças poluídas não conseguem sequer tocar o grande rio
alimentado pelo Espírito Santo.
*
Sedevacantistas é um termo que se origina da
expressão latina Sé vacante ou Sede vacante (do latim Trono vazio), no direito canônico da
Igreja Católica Romana, corresponde ao período em que a Sé episcopal de uma
Igreja particular está sem ocupante. Isto significa que para uma diocese, o
bispo diocesano faleceu, renunciou, foi transferido ou perdeu seu ofício. Caso
haja um bispo coadjutor, com direito a sucessão, na diocese este é imediatamente
conduzido ao governo da Sé episcopal e esta não fica vacante. A vacância da Santa Sé corresponde ao interregno, ou seja, ao período entre o
falecimento ou renúncia válida de um Papa e a eleição do seu sucessor. Durante
o tempo em que estiver vacante a Sé Apostólica, o governo da Igreja está
confiado ao Colégio Cardinalício (Fonte:
Wikipédia).
Assim sendo, os “sedevacantistas” defendem que a Igreja Católica ainda está sem
um verdadeiro Papa! O trono de Pedro não está sendo ocupado validamente. Consideram
que não houve mais um papa válido depois de Pio XII.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original desta entrevista, clicando aqui.
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