Pacto das Catacumbas. Por uma Igreja servidora e pobre.
Livro de José Oscar Beozzo
No
dia 16 de novembro, segunda-feira, celebra-se o 50º aniversário do Pacto das Catacumbas.
Celebrando
este evento, as Edições Paulinas estão lançando o livro Pacto das Catacumbas. Por uma
Igreja servidora e pobre. O autor é o padre, teólogo e historiador José Oscar Beozzo.
O
livro tem como objetivo resgatar e conservar a memória do gesto profético
denominado Pacto da Igreja servidora e pobre, mais conhecido como Pacto das
Catacumbas.
O
livro é um excelente subsídio para uma oração ou vigília em torno do Pacto e
também em memória de Dom Enrico
Angelelli, bispo de La Rioja que o assinou e foi assassinado pelos
militares na Argentina.
O
livro, em formato pdf, pode ser lido clicando aqui.
Se
preferir, procure-o em qualquer livraria
católica ou em uma filial da Livraria
Paulinas.
A história desse pacto
No dia 16 de novembro de 1965, há 50 anos,
poucos dias antes do encerramento do Concílio Vaticano II, cerca de 40 padres
conciliares celebraram uma Eucaristia nas Catacumbas
de Domitila, em Roma, pedindo fidelidade ao Espírito de Jesus. Depois dessa celebração, assinaram o «Pacto
das Catacumbas».
O documento é um desafio aos
"irmãos no Episcopado" [bispos] a
levar adiante uma "vida de pobreza", uma Igreja "serva e
pobre", como sugerira o Papa João XXIII.
Os
signatários – entre eles muitos bispos brasileiros e latino-americanos, embora
muitos outros aderiram ao pacto mais tarde – se comprometiam a viver em pobreza, a renunciar a todos os símbolos ou
privilégios do poder e a pôr os pobres no centro do seu ministério pastoral.
O texto teve uma forte influência sobre a Teologia
da Libertação, que surgiria nos anos seguintes.
Um
dos signatários e propositores do pacto foi Dom Helder Câmara.
Eis
o texto:
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CATACUMBA DE DOMITILA - ROMA Local onde vários bispos do mundo firmaram um documento se comprometendo com a renovação e volta às raízes da Igreja Católica. |
Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre
Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano
II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o
Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós
quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos
no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus
Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses;
colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja
de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade
e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a
força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:
1) Procuraremos viver segundo o modo
ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos
meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.
2) Para sempre renunciamos à aparência e à
realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes),
nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito,
evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.
3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis,
nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir,
poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt
6,19-21; Lc 12,33s.
4) Cada vez que for possível, confiaremos a
gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes
e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do
que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.
5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por
escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência,
Excelência, Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de
Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.
6) No nosso comportamento, nas nossas
relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios,
prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.:
banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc
13,12-14; 1Cor 9,14-19.
7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou
lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a
solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a
considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no
apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.
8) Daremos tudo o que for necessário de nosso
tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das
pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem
que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos,
religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres
e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc
6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.
9) Cônscios das exigências da justiça e da
caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de
"beneficência" em obras sociais baseadas na caridade e na justiça,
que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos
organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.
10) Poremos tudo em obra para que os
responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e
ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias
à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em
todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna
dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e
9 inteiros; 1Tim 5, 16.
11) Achando a colegialidade dos bispos
sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas
humanas em estado de miséria física, cultural e moral - dois terços da
humanidade - comprometemo-nos:
- a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
- a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.
12) Comprometemo-nos a partilhar, na
caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes,
religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço;
assim:
- esforçar-nos-emos para "revisar nossa vida" com eles;
- suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;
- procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;
- mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10.
13) Tornados às nossas dioceses
respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução,
rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.
Ajude-nos Deus a sermos fiéis.
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