A LAMA DE MARIANA - IMAGEM DO LAMAÇAL EM QUE VIVEMOS!
A lama da Samarco e o jornalismo que
não dá nome aos bois
Alceu Luís
Castilho*
Bento Rodrigues: povoado soterrado pela Samarco
sintetizava um modo de vida tão esquecido pela imprensa quanto os impactos
sociais e ambientais do mundo corporativo
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DISTRITO DE BENTO RODRIGUES - MUNICÍPIO DE MARIANA (MG) Completamente debaixo da lama que escorreu das barragens que se romperam. |
Por
trás da lama da Samarco afirma-se o
gosto amargo de um jornalismo subserviente, a serviço do mercado. Dezenas de pessoas estão desaparecidas em
Mariana (MG). Entre elas, crianças. O vídeo [abaixo] mostra como era o cotidiano de um povoado destruído. Mas a
maior tragédia socioambiental brasileira do século XXI já começa a ser
soterrada pelos jornais, após uma cobertura protocolar. Da lama à ordem: ignoram-se os conflitos, minimizam-se as
contradições e se assimilam os discursos cínicos de executivos e de membros do
governo. Com a clássica blindagem
dos sócios da empresa.
Clique sobre a imagem para assistir ao vídeo da TV Cultura
mostrando como era a vida em Bento Rodrigues antes da tragédia:
Primeiro
enumeremos os donos. Já se sabe que 50%
da Samarco pertence à Vale do Rio Doce, a Vale que tirou o Rio Doce de seu
nome e nele despejou lama tóxica. A
outra metade pertence à anglo-australiana BHP Billiton, uma fusão da
australiana Broken Hill Proprietary
Company com a inglesa (radicada na África do Sul) Billiton, atuante nas veias abertas do Chile, Colômbia e Peru (onde
tomou uma multa ambiental de US$ 77 mil após contaminação por cobre), no
Canadá, Reino Unido e nos Estados Unidos, na Argélia, no Paquistão e em
Trinidad & Tobago. Já protagonizou
na Papua Nova Guiné uma contaminação fluvial histórica. As maiores mineradoras
do mundo.
E a quem pertence à Vale? Esse capítulo costuma ser
omitido, quando se fala de impactos sociais e ambientais:
- A empresa é controlada pela Valepar, com 53,9% do capital votante (1/3 do capital total).
- Com 5,3% para o governo federal,
- 5,3% para o BNDESpar,
- 14,8% para investidores brasileiros,
- 16,9% na Bovespa e
- 46,2% de investidores estrangeiros (este percentual cai para 33,9% no caso do capital total).
De
qualquer forma já temos que a Samarco –
com a metade anglo-australiana – e esses acionistas já têm mais da metade de
acionistas estrangeiros.
E quem manda na Valepar, que controla a
Vale?
1) Fundos de investimentos
administrados pela Previ, com 49%
das ações;
2) A Bradespar, do Bradesco, com 17,4%;
3) A multinacional Mitsui, um dos maiores conglomerados japoneses, de
bancos à petroquímica, com tentáculos na Sony, Yamaha, Toyota, com 15%;
4) O BNDESpar, com 9,5%.
(Ignoremos
os 0,03% da Elétron, do Opportunity e seu onipresente Daniel Dantas. E
registremos que, com a Mitsui, aumenta ainda mias a participação de
estrangeiros na Samarco.)
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FERNANDO PIMENTEL (PT - MG) Governador de Minas Gerais concede entrevista coletiva na sede da mineradora SAMARCO! |
BNDES?
Previ? Mas por que, então, a imprensa acostumada a fustigar o governo federal
não fiscaliza com mais atenção a Vale, símbolo da privatização a preço de
banana? Simplesmente porque não tem o
saudável hábito – a imprensa
brasileira – de fiscalizar
corporações. E porque essas instituições não estão sozinhas. Porque tem a Mitsui,
o Bradesco
– o bilionário Bradesco. Com um governador petista dando entrevista coletiva na sede
da Samarco. (O capitalismo não é para amadores.) Não há um
acompanhamento sistemático do custo social e ambiental das aventuras
plutocratas, sob governos de siglas diversas. Pelo contrário: o que há é um marketing despudorado.
Executando
advérbios
Essa
rede de donos da Samarco manifesta-se por meio de um jovem executivo, Ricardo Vescovi. Os gerentes de crise
da empresa tiraram o site do ar (sabe-se lá com quais informações) e divulgaram
este vídeo do presidente no Facebook :
Para assistir o vídeo clique aqui
Com
seu milagre de multiplicação de advérbios insossos e pronomes totalizantes,
insensíveis aos dramas dos mineiros. “Lamentavelmente”, “imediatamente”,
“absolutamente todos os esforços” em relação ao “ocorrido”, “todas as ações”,
“todos os esforços”, “igualmente não medindo esforços”, “todo apoio”, “toda
solidariedade”, “lamentamos profundamente” o “acontecido”.
Os mais desavisados poderão
até ficar com dó do pobre coitado. Ainda mais após as declarações do governo mineiro de que a
Samarco foi “vítima” do rompimento da barragem [clique aqui].
E após jornalistas irresponsáveis replicarem notícias sobre “tremores de terra”
que acontecem todos os dias. Muito embora a empresa já soubesse, desde 2013, que a barragem –
como outras pelo país que ainda não desabaram – estava condenada [clique
aqui].
E que essa não tenha sido a primeira tragédia em Minas Gerais. São esses mesmos
jornais que não se furtam a cobrir, de forma reverente, o que as empresas
chamam de “sustentabilidade”, “responsabilidade social e ambiental”.
Alguém
poderá argumentar que um jornal da grande imprensa, O Estado de S. Paulo [clique aqui],
divulgou notícia sobre o laudo de 2013 que mostrava os problemas estruturais na
barragem. Sim. Em 2015. Mas cabe
lembrar que uma ou outra notícia isolada após uma tragédia está longe de
caracterizar a cobertura crítica de um setor econômico. Se o tema não se mantém
na manchete (esse mesmo jornal, neste domingo, remeteu o tema para pé de
página), em artigos recorrentes, editoriais sistemáticos, não há o agendamento político efetivo – e sim o convite ao esquecimento.
E à impunidade. (Quem vai fazer uma Operação Lava Lama?)
Imprensa
dos vencedores
Essa
mesma imprensa se esquece também de contar ao leitor que existe um choque entre modelos de apropriação do território e dos
recursos naturais. O vídeo da TV Cultura sobre a comunidade destruída
mostra – ainda que com uma abordagem que privilegia o exótico – um modo de vida
bem diferente, onde as moradoras vão na casa das outras, plantam-se pimentas no
quintal e se produz geleia, coletivamente, em uma associação. Uma lógica econômica muito diversa da
predação extrativista – e esgotável – protagonizada pela Samarco, esse nome
amorfo emprestado a dois expoentes do capitalismo mundial. Quem disse que há
consenso?
Existem movimentos sociais
específicos de atingidos pela mineração, ou atingidos pelas barragens. Até
mesmo de atingidos pela Vale [veja site na
internet, clicando aqui]. Por que não se dá voz a essas pessoas?
Se nem após os desastres isso acontece, o que se dirá do dia a dia? Porque os
cadernos e até revistas especializadas são de “negócios”, como se esses
negócios pudessem pairar (numa sociedade democrática) acima dos interesses dos
cidadãos. Por que os calam? Por que essa censura? Por que a destruição de uma comunidade inteira e de um ecossistema não
comovem? Porque esse jornalismo é situacionista, economicamente situacionista.
Torce para os vencedores.
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Para visitar o site, clique aqui. |
Os
mais eugenistas nem se constrangem em dizer que aquelas populações não deviam
estar ali – deviam abrir alas para a distinta mineradora. Como se fosse um bem infinito para o país o esgotamento de seus
recursos minerais. Não se questiona o modelo e nem suas conexões com outros
temas: a falta d’água, o crescimento e a falta de infraestrutura das periferias
urbanas, inchadas também pela expulsão das populações tradicionais. Faz-se tudo
menos um jornalismo sistêmico, que consiga olhar para temas simultâneos, para
tendências econômicas e para o clima, para a desigualdade e os riscos
ambientais. Com nome aos bois (ou aos caranguejos), o nome dos beneficiários.
Quem ganha com isso?
Naturalização
De
um modo geral o efeito obtido no caso de
Mariana é o de naturalização de uma matança e de um crime ambiental histórico.
Como não houve chuvas, inventa-se um terremoto. A morte horrível de moradores e
a destruição de um povoado por uma empresa ganham, no máximo, uma cobertura
similar à das tragédias em São Luís do Paraitinga ou Petrópolis (fruto também
da especulação imobiliária), ignorando a
cadeia de sócios, os interesses políticos em torno das mineradoras [leia sobre isto, clicando aqui]
ou o risco estrutural que esse tipo de exploração impõe ao ambiente, aos
trabalhadores e vizinhos, bola pra frente que em janeiro teremos “outras
enchentes”. Como se fizesse parte do sistema ser soterrado por uma lama tóxica
enquanto se planta alface.
* ALCEU LUÍS CASTILHO trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (1994-2001), na Agência Reuters, entre outros veículos,
em São Paulo e Brasília. Tem especialização em Jornalismo, pela Universidade de
Navarra (IV Master em Jornalismo para Editores, 2000), é vencedor do Prêmio Fiat Allis de Jornalismo Econômico
(1999), recebeu Menção Honrosa no Prêmio
Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos (2004), conquistou 3º lugar
no Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo
(2004), o Prêmio Andifes de Jornalismo
(2006), título de Jornalista Amigo da
Criança (2007), e foi finalista do Prêmio
Esso de Jornalismo, categoria Interior (2007).
Fonte: Blog do Alceu
Castilho – Jornalismo, Geografia e Direitos Humanos – Segunda-feira, 9 de
novembro de 2015 – Internet: clique aqui.
“Mariana corre risco de se tornar uma cidade
com solo infértil”, diz pesquisador
Nadine Nascimento
Após a tragédia, caso a lama permaneça “onde está,
naquela região por muito tempo não vai nascer nada, não vai se plantar nada. O
rejeito anda pode assorear a calha dos rios”, conclui professor da UFRJ.
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BENTO RODRIGUES Distrito de Mariana (MG) completamente tomado pelo lamaçal da barragem da Mineradora Samarco |
Em
nota em sua página na internet, a Samarco,
mineradora responsável pela barragem de Fundão que rompeu na tarde da última
quinta (5 de novembro), em Mariana (MG), afirma que o rejeito que atingiu as
casas da região "não apresenta nenhum
elemento químico que seja danoso à saúde”, já que este seria composto
apenas por “sílica (areia) proveniente do
beneficiamento do minério de ferro”.
Ainda que não tenha riscos
tóxicos, a permanência do material na região pode deixar o solo infértil, segundo o especialista em
geotecnia e professor de engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), Mauricio Ehrlich.
Ele
alerta dos riscos ao meio ambiente caso o material não seja retirado da área
atingida, já que a lama, infértil, pode
deixar a região improdutiva para a agricultura. “O dano existe porque foi
depositado um monte de lama em cima de um terreno, acabando com a vegetação em
todo o trecho. O rejeito deve ser
retirado, pois se deixar a área se recuperar naturalmente levará muito tempo.
Se permanecer onde está, naquela região por muito tempo não vai nascer nada,
não vai se plantar nada. O rejeito anda
pode assorear a calha dos rios. É um impacto importante, não dá para ser
minimizado”, conclui o professor.
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Professor Mauricio Ehrlich (à direita): especialista em geotecnia e professor de engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) |
Para
Márcio Zonta, militante do Movimento Nacional pela Soberania Popular
Frente a Mineração (MAM), a Samarco,
com sua nota, não mostra a real gravidade do acidente. Para ele, os
moradores da cidade e o meio ambiente da região podem sofrer um risco ao entrar
em contato com a lama. “É impossível ser só areia, a mineração é um
processo químico e os rejeitos são tóxicos. Não tem como dizer que é só areia”,
afirma.
O
militante ainda aponta que demandaria muito tempo para reverter os danos. “Se
fosse só areia não morreriam matas ao redor da barreira. Isso vira um colapso
não só para as vítimas, mas também ambiental, contamina o solo, contamina as
águas e rios, e é uma situação que não se resolve fácil. Pode-se levar muito tempo para haver uma estabilização ambiental,
social e cultural. Mariana é uma cidade pequena e o impacto é ainda maior”,
analisa.
Os
impactos na saúde da população ainda não são claros. O “rio de lama” que
iniciou em Mariana, seguirá por outras regiões mineiras e também chegará a
cidades do Espírito Santo. No leste de Minas, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto do município de Governador
Valadares emitiu comunicado em que afirma: “Os moradores devem economizar água
ao máximo e tentar garantir o abastecimento com as próprias reservas de água
(caixas). A Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros alertam ainda para que ninguém
entre em contato com a água do Rio Doce. Por causa da lama densa e contaminada
que vem pelo rio, da barragem rompida em Mariana, foi preciso interromper a
captação e o tratamento de água, por causa do alto nível de turbidez da água.”
Já
o professor Mauricio Ehrlich aponta
que dos três tipos de rejeito classificados, o da barragem Fundão é tipo 2 e
não causa danos toxicológicos. “O rejeito da barragem de Fundão é formado
basicamente por partículas de quartzo e
ferro com granulometria arenosa, não é um material muito fino, e esses
materiais são geralmente inertes, então não se tem um material que interage com
o meio ambiente. Certamente ninguém vai ficar doente pelo contato com esse material”,
diz.
Fonte: Brasil de Fato – 09/11/2015 – Internet:
clique aqui.
Bastidores de uma tragédia:
Os relações públicas da Samarco dão uma surra no Estado
brasileiro, que sucumbe ao poder econômico
Luiz Carlos
Azenha
A mineradora Samarco, joint venture da Vale com a australiana BHP Billiton, teve um lucro
líquido de R$ 2,8 bilhões em 2014. Ou seja, limpinhos!
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CARAJÁS - PARÁ O ritmo incessante e acelerado da mineração do ferro está esgotando a mina e deixando este imenso buraco! A mineradora aqui é a Vale do Rio Doce |
Como
se sabe, o Brasil é uma “mãe” para as
mineradoras. A Agência Pública fez uma reportagem interessante a respeito,
quando Marina Amaral perguntou: Quem lucra com a Vale? [Leia uma ótima matéria a este respeito, clicando aqui]
O
“pai” das mineradoras é Fernando Henrique
Cardoso [FHC]. Em 1996, com a Lei
Kandir, isentou de ICMS as
exportações de minerais!
O
que aconteceu com a Vale, privatizada a preço de banana, é o mesmo que se
pretende fazer com a Petrobras: colocar a empresa completamente a serviço dos
acionistas, não do Brasil.
O
que isso significa?
Auferir
lucros a curto prazo, custe o que custar.
A questão-chave está no ritmo da exploração das reservas
minerais.
Num
país soberano, o ritmo é ditado pelo interesse público. É de interesse da
população brasileira, por exemplo, inundar o mercado com o petróleo do pré-sal,
derrubando os preços? Claro que não.
Quem
lucra, neste caso, são os países consumidores. Os Estados Unidos, por exemplo.
Portanto, quando FHC privatizou parcialmente a Petrobras, vendendo ações na
bolsa de Nova York, ele transferiu parte da soberania brasileira para
investidores estrangeiros. Eles, sim, querem retorno rápido. Querem cavar o
oceano às pressas, até esgotar o pré-sal. É a dinâmica do capitalismo!
O Brasil é um país sem
memória.
Não se lembra, por exemplo, do que aconteceu na serra do Navio, no Amapá. Uma
das maiores reservas de manganês do mundo foi esgotada porque interessava aos
esforços dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Ficamos com o buraco
e a destruição ambiental…
Obviamente,
não é um problema brasileiro. Fui pessoalmente às famosas minas de diamante de Serra Leoa, na África, que mereceram
uma visita da rainha Elizabeth. Investiguei o entorno. O local de onde saíram
bilhões de dólares em diamantes não tinha rede de esgoto, nem de distribuição
de água.
O
mesmo está acontecendo neste exato momento com o coltan, do Congo, um mineral utilizado pela indústria
eletroeletrônica. A exploração do coltan financia uma guerra interminável
de milícias, que exportam o mineral para a Bélgica praticamente de graça!
Serra
Leoa, Congo, Brasil…
Infelizmente,
estamos no mesmo nível.
Como
denuncia seguidamente o Lúcio Flávio
Pinto, o ritmo da exploração do minério de ferro de Carajás é um crime de lesa-Pátria [leia esta matéria, clicando aqui].
RIO DE LAMA Desce da barragem do Fundão que se rompeu nas imediações de Bento Rodrigues Mariana - MG |
Por
que haveria de ser diferente nas reservas de Minas Gerais?
A
economia do estado, tanto quanto a brasileira, ainda é extremamente dependente
da exportação de commodities. À Vale interessa produzir rápido, derrubar
o preço a qualquer custo para apresentar lucro no balanço.
Infelizmente, a elite
brasileira até hoje se mostrou incapaz de formular um projeto
soberano de país. Isso vale para PSDB, PT e todos os outros, como ficou
evidente na tragédia de Mariana.
Não
podemos culpar a mineradora Samarco pela tragédia antes de uma investigação
independente e rigorosa. Mas, será que ela vai acontecer?
Do
prefeito de Mariana ao senador tucano Aécio Neves, passando pelo governador
petista Fernando Pimentel, todos deram piruetas para salvaguardar a Samarco. Pimentel deu uma entrevista coletiva na
sede da mineradora!
Enquanto isso, milhões de
metros cúbicos de lama desceram o rio do Carmo e chegaram ao rio Doce.
A
Samarco diz que a lama é inerte, ou seja, não oferece risco à saúde.
Numa
situação ideal, não caberia à Samarco dizer isso — com reprodução martelada em
todos os telejornais da Globo.
O
familiar de um desaparecido comentou comigo que, na Globo, as vítimas da tragédia não tinham rosto…
A
Vale, afinal, é grande patrocinadora.
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MULHER E CRIANÇA DESABRIGADAS de Bento Rodrigues - Mariana (MG): Quem enxugará as suas lágrimas? Quem se importará com o futuro delas? |
Espanta
é que os governos federal, estadual e municipal, que em tese deveriam atuar de
forma independente — em nome do interesse público — não o façam.
A primeira providência em um
país civilizado seria uma análise de emergência na lama, para determinar se ela
oferece algum risco à saúde.
Afinal,
milhões de brasileiros podem entrar em contato com os rejeitos, seja nas
margens dos rios, seja através da água consumida.
Além
disso, o tsunami de lama carregou corpos
humanos e de animais por uma longa extensão, de centenas de quilômetros.
No
entanto, a não ser pelo esforço de relações públicas da Samarco, as pessoas afetadas, como testemunhei
pessoalmente, estão totalmente no escuro.
Mais
adiante, outras questões importantes vão surgir.
O rio do Carmo foi completamente
destruído, de ponta a ponta. Quem vai pagar a conta? O Estado brasileiro ou a Samarco?
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RIO DO CARMO Vê-se o traçado deste rio que passava por Bento Rodrigues (foto à direita): agora, totalmente tomado pela lama! |
A
Samarco fez o que se espera de uma empresa privada, que pretende minimizar os
impactos sobre si do desastre ambiental que produziu.
De
forma competente, acionou seu esquema de relações públicas para deixar no ar a
ideia de que o rompimento de duas barragens foi consequência de um terremoto.
Transferiu
os desabrigados para hotéis, evitando a ebulição de centenas de pessoas que,
conjuntamente, poderiam conjurar contra uma empresa da qual sempre
desconfiaram.
Conversei com os
sobreviventes de Bento Rodrigues: todos sempre acharam um exagero o crescimento
vertical, contínuo, da barragem, para guardar mais e mais lama.
Segundo
eles, a Samarco começou a comprar novas áreas de terra porque pretendia
construir outra barragem, mais próxima do povoado, para dar conta do
armazenamento dos rejeitos.
Que
a Samarco cuide de seus interesses é parte do jogo.
O espantoso é ver a captura
do Estado brasileiro, em todas as esferas, pelo interesse privado.
Basta
uma consulta às pessoas comuns, que vivem sob as barragens de rejeitos — que se
contam às centenas em Minas — para que elas denunciem: as empresas aumentam indefinidamente as cotas, sem transparência, sem
qualquer consulta pública, sem planos de resgate de emergência, sem um básico
sinal sonoro para dar o alerta em caso de acidente.
É
bem mais barato que construir uma nova barragem, certo? Lembrem-se: estas
empresas estão a serviço do lucro de seus acionistas e a maioria deles não mora
em Mariana, provavelmente nem mora no Brasil.
Minas Gerais, acossada pela
crise econômica, sucumbe à lógica das mineradoras: como denunciou o leitor Reginaldo Proque, está tramitando na
Assembleia Legislativa um projeto para
simplificar o licenciamento ambiental, de autoria do governo Pimentel [leia este projeto de lei do governo de Minas, clicando aqui].
Em
resumo, os desabrigados das margens do
rio do Carmo fazem o papel, em carne e osso, da crise de representação da
política brasileira.
Ninguém
os ouve, nem consulta.
Quando
muito, são sobrevoados por helicópteros que “representam” um Estado servil ao
poder econômico.
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