NA POLÍTICA, AS RUAS DECIDEM ! ! !

No Brasil

Na mão das “ruas”

Dora Kramer

Oposição não se ilude: impeachment só prospera se a sociedade quiser 
SÓ MANIFESTAÇÕES DE RUA E MOVIMENTOS PÚBLICOS
poderão levar os Deputados e Senadores a aprovar o impeachment,
o qual interessa, cada vez menos, à oposição!

A oposição se movimenta e mantém a pressão para a deflagração de um processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, mas na realidade nua e crua não alimenta a ilusão de que consiga atingir o objetivo sem o forte engajamento da população.

“O Congresso funciona de fora para dentro”, constata o presidente do PSDB, senador Aécio Neves, para quem o processo ainda não está suficientemente maduro na sociedade ao ponto de levar o Parlamento a um consenso sobre a utilidade e a necessidade de interrupção do mandato presidencial.

Na opinião dele, a permanência de Dilma depende de dois fatores:
  • o cenário econômico e
  • as investigações da Lava Jato.

Se a economia piorar, a presidente, que já perdeu a classe média, perderá o apoio da base e do pico da pirâmide social. Os mais pobres, atingidos pela inflação e o endividamento; os mais ricos, porque perdem dinheiro com a paralisia e a piora das condições econômicas.

No tocante à Lava Jato, as informações serão cada vez mais divulgadas à medida em que o Tribunal Superior Eleitoral pedir o compartilhamento das investigações para tocar a apuração sobre irregularidades no financiamento da campanha à reeleição de Dilma em 2014. Se ficar provado que houve contaminação por dinheiro desviado da Petrobrás, estarão postos os pressupostos de crime.

Voltando à economia, Aécio argumenta que, na hora em que a “vida real” se conectar de maneira definitiva ao universo dos maus indicadores e das agruras do mundo político, a opinião pública pode reagir com manifestações que estas sim, ditarão o rumo dos acontecimentos.

Na ocasião em que o então presidente Fernando Collor enfrentava a possibilidade de um impeachment, o presidente da Câmara à época, Ibsen Pinheiro, disse uma frase que traduz a linha de raciocínio do senador tucano: “Esta Casa faz o que o povo quer”. Há 23 anos, o Congresso seguiu o dito. Hoje aguarda para ver se as ruas vão dizer o mesmo. Por ora, de maneira expressiva e inquestionável, ainda não disseram.

Por isso, o debate e o embate ainda se dão no âmbito do ambiente político. Neste, ninguém se arrisca a apostar nesse ou naquele desfecho, embora cada um faça o seu jogo. O PMDB adoraria ver Dilma impedida, de forma a assumir a presidência na pessoa do vice Michel Temer. Da oposição não se pode dizer o mesmo. A palavra da boca para fora é favorável ao impeachment ou à renúncia. O sentimento nas internas, porém, é um tanto diferente.

Não interessa de verdade ao PSDB um governo de transição comandado pelo PMDB. Pelo seguinte: os tucanos estariam obrigados a se associar a [o vice-presidente Michel] Temer e a assumir a agenda do PMDB que não seria necessariamente a pauta do PSDB. Os tucanos ficariam “engessados” e sem possibilidade de se colocar como oposição para a disputa de 2018.

Além disso, quanto mais o tempo passa, menos o afastamento de Dilma interessa à oposição porque o tempo de um eventual governo “tampão” – seja pela substituição pelo vice ou por nova eleição, no caso de impugnação da chapa – seria curto demais para que fossem alcançados resultados positivos na economia a fim de render benefício eleitoral em 2018.

De onde se conclui que o mais interessante à oposição continua sendo a manutenção do calendário tal como está. Inclusive para que o PSDB possa colocar em prática, no pleito municipal de 2016, a retomada do fio da meada de 2014 para dialogar com o eleitorado com base nas palavras de ordem “nós tínhamos razão”.

Discurso que estará prejudicado se amanhã a oposição de hoje for situação. Cenário desenhado, por ser derrubado pela manifestação da opinião do público.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Política – Domingo 1 de novembro de 2015 – Pg. A6 – Internet: clique aqui.

Na Argentina

Esperança na Casa Rosada

Mario Vargas Llosa
Escritor, jornalista, ensaísta peruano e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura (2010)

Pela primeira vez, o eleitorado argentino tem hoje a oportunidade de
votar por uma alternativa real e verdadeira ao peronismo 
CASA ROSADA
Sede da presidência da Argentina - diante da Plaza de Mayo
Buenos Aires

Os resultados das eleições de domingo passado na Argentina desmentiram todas as pesquisas que indicavam que o candidato Daniel Scioli, apoiado pela presidente Cristina Kirchner, venceria no primeiro turno. E abriram a possibilidade de o país, que foi uma espécie de farol da América Latina, sair da degradação econômica e política em que está mergulhado há mais de meio século, recuperando o dinamismo e a criatividade que fizeram dele, no passado, uma nação do primeiro mundo.

A condição é que no segundo turno, em 22 de novembro, vença Mauricio Macri e o eleitorado confirme o repúdio frontal ao kirchnerismo. O movimento é uma das mais demagógicas e corruptas ramificações da quimera indecifrável chamada peronismo, um sistema de poder similar ao antigo PRI mexicano, no qual se inserem todas as variantes do espectro ideológico, da extrema direita à extrema esquerda, passando por todas as nuances cabíveis.

Macri representa uma novidade, não tanto pelas ideias modernas e realistas do seu programa, sua nítida vocação democrática, ou a sólida equipe de planejamento de governo que ele reuniu, mas pelo fato de que, pela primeira vez, o eleitorado argentino tem hoje a oportunidade de votar por uma alternativa real e verdadeira ao peronismo, que levou o país mais culto e com maiores recursos da América Latina ao empobrecimento e ao populismo mais caótico e atrasado.

Não será fácil, é claro, mas é possível. A vitória, de Maria Eugenia Vidal, uma candidata de inequívocas credenciais liberais, nas eleições para o governo da província de Buenos Aires, tradicional fortaleza peronista, é o sinal claro do desencanto de um vasto setor popular com as políticas que, sob a aparência de medidas de justiça social, antiamericanismo e pró-chavismo, fizeram disparar a inflação, reduziram de modo espetacular os investimentos estrangeiros e colocaram a Argentina muito próxima da recessão.

Riscos

O sistema representado por Cristina Kirchner vai se defender com unhas e dentes, como é natural, e já há indícios de que poderá suceder o que se verificou no domingo passado, quando o governo permaneceu calado, sem divulgar os resultados mais de seis horas após o escrutínio, tendo prometido que o tornaria público com rapidez. A possibilidade de fraude está sempre presente e a única maneira de a aliança de partidos que apoia Macri evitá-la será garantir a presença de observadores em todas as mesas eleitorais e – caso ocorra – denunciar sua manipulação.

Dois fatos notáveis das eleições do 25 de outubro são esses: Macri aumentou seu capital eleitoral em cerca de um milhão e setecentos mil votos e o número de eleitores aumentou de maneira espetacular, de 72% dos inscritos na eleição passada para cerca de mais de 80% nesta. A conclusão é evidente: um setor importante do eleitorado, até agora indiferente ou resignado com o status quo, desta vez, renunciando ao conformismo, mobilizou-se e foi às urnas, convencido de que seu voto pode mudar as coisas. E, de fato, foi o que ocorreu. E o fez discretamente, sem tornar público de antemão, por prudência ou temor diante de possíveis represálias. Daí o erro crasso de pesquisas que anunciavam um triunfo absoluto de Scioli, o candidato do governo, no primeiro turno.

Mas em 22 de novembro não ocorrerá o mesmo: o poder kirchnerista sabe dos riscos que corre com um triunfo da oposição e utilizará todos os recursos a seu alcance, que são muitos – intimidação, suborno, falsas promessas e fraude – para evitar uma derrota.

É preciso esperar que o setor mais bem intencionado e democrático dos peronistas dissidentes, que contribuíram de maneira decisiva para castigar o kirchnerismo, não se deixe impressionar com chamados à unidade partidária que não existe há muito tempo e não desperdice esta oportunidade de corrigir uma trajetória política que fez a Argentina regredir para um subdesenvolvimento terceiro-mundista que não merece.

Herança

Não o merece diante da variedade e quantidade de recursos do seu solo, um dos mais privilegiados do mundo, a forte integração da sua sociedade e o seu alto nível cultural. Quando era menino, meus amigos do bairro de Miraflores, em Lima [capital do Peru], sonhavam em se formar profissionais não nos Estados Unidos ou Europa, mas na Argentina.

O país na época ainda possuía um sistema educacional exemplar, havia erradicado o analfabetismo – uma das primeiras nações a consegui-lo – e o mundo inteiro copiava seu modelo. A boa literatura e os filmes mais populares em minha infância na Bolívia e minha adolescência no Peru vinham de editoras e produtores argentinos e as companhias de teatro portenhas percorriam todo o continente nos colocando a par das obras de Camus, Sartre, Tennessee Williams, Arthur Miller, Valle Inclán, etc.
 
MARIO VARGAS LLOSA
Escritor e jornalista peruano - Autor deste artigo
É verdade que nem os países mais cultos estão imunes às ideologias populistas e totalitárias, como demonstram os casos da Alemanha e da Itália. Mas o fenômeno do peronismo é, pelo menos em minha opinião, mais misterioso ainda do que o do povo alemão aceitando o nazismo e o italiano, o fascismo.

Sem dúvida, a antiga democracia argentina – a da república oligárquica – tinha seus defeitos. Era elitista e foram necessárias reformas que ampliassem as oportunidades e o acesso à riqueza para os setores operários e camponeses. Mas o peronismo não realizou essas reformas, porque sua política de intervenção estatal paralisou o dinamismo da vida econômica e introduziu os privilégios e sinecuras partidárias ao mesmo tempo que o gigantismo estatal.

O empobrecimento sistemático do país multiplicou a desigualdade e as fraturas sociais. O surpreendente é a fidelidade de uma enorme massa de argentinos a um sistema que, obviamente, só favoreceu uma nomenclatura política e seus aliados do setor econômico, uma pequena oligarquia latifundiária e privilegiada. Os golpes e as ditaduras militares contribuíram, sem dúvida, para manter viva a ilusão peronista.

Lembro-me da minha surpresa a primeira vez que fui à Argentina, em meados dos anos 60, e descobri que em Buenos Aires havia mais teatros do que em Paris, onde vivia. Desde então tenho acompanhado sempre, com fascinação e espanto, os avatares de um país que parecia empenhado em rechaçar todas as vozes sensatas que queriam reformá-lo e que, em sua vida política, não cessava de persistir no erro.

Talvez por isto comemorei no domingo, dia 25, os resultados deste primeiro turno com um entusiasmo juvenil. E faço votos que em 22 de novembro uma maioria inequívoca de eleitores mostre a mesma lucidez e coragem, levando ao poder aquele que representa a verdadeira mudança em liberdade.

Traduzido do espanhol por Terezinha Martino.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Internacional – Domingo, 1 de novembro de 2015 – Pg. A11 – Internet: clique aqui.

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